2026-03-20
Primavera
2026-03-19
Primeiro dia de dieta
Sim, eu sei. Já publiquei este post antes. Provavelmente em 2013, 2016 e naquela fase delirante de 2020 em que todos fazíamos pão e juramentos de sangue. Mas há tradições que merecem continuidade editorial: a autoilusão e o glúten.
Acordo com a energia maníaca de quem está a sofrer um rebranding pessoal. Hoje estreia a nova temporada. Menos hidratos, mais dignidade; talvez um story a dizer “Day 1 💪”, como se o mundo estivesse em suspenso a aguardar o meu índice glicémico. Entro na cozinha com um discurso de TED Talk sobre disciplina a ecoar no córtex pré-frontal e, de repente, o erro de sistema: o Dia do Pai.
Açorda de camarão.
Não é apenas comida. É um plot twist cruel, o algoritmo do destino a gerar engagement à custa da minha sanidade. Uma açorda obscenamente cremosa, com coentros estrategicamente posicionados como se tivessem sido curados para um feed de estética minimalista. Aquilo não é um almoço; é um ataque pessoal dirigido.
Pausa para reflexão: será que ignorar uma açorda destas não é, tecnicamente, um comportamento tóxico? Estarei eu a tentar cortar relações com o pão enquanto ele me oferece closure em forma de crustáceo? Sento-me. Sou uma adulta funcional e enfrento os meus problemas de frente — e, de preferência, com talheres.
Olho para a açorda e ela devolve-me a narrativa. “Só uma colher”, murmuro, naquele tom de quem já escreveu o rascunho da capitulação mas ainda não teve coragem de carregar em "publicar". Três colheres depois, a racionalização ocorre em tempo real: tecnicamente é proteína, o camarão não tem culpa da minha fraqueza; as ervas são fitoterapia aplicada e o pão... bem, o pão é puramente apoio emocional.
Cinco minutos depois e estou a fazer ghosting à dieta com a naturalidade de quem nunca leu o que escreveu há dez anos. No fundo, é uma questão de coerência: não posso abandonar uma linha temática que venho a desenvolver com tanto brio — a de que o "amanhã" é o único espaço geográfico onde a minha força de vontade reside.
E amanhã, prometo, o registo será outro. A menos que os restos sobrevivam à noite. E eu não acredito em desperdício editorial.
2026-03-18
O país às costas
2026-03-17
E se?
2026-03-16
Ormuz
A análise de Sandhu é fundamentalmente uma crítica ao transacionalismo na diplomacia. Sugere que a política de "América Primeiro" corroeu as alianças de tal forma que, num momento de crise real (como o bloqueio de uma via comercial estratégica), os aliados tradicionais podem não estar dispostos a intervir, vendo os EUA como um parceiro pouco fiável que apenas procura ajuda quando os seus próprios interesses económicos estão em jogo.
É um comentário sobre as consequências a longo prazo de uma política externa que prioriza o confronto e o isolamento em detrimento da cooperação multilateral estável.
Mas a ironia deve escapar ao atual governo sociopata de Washington.
O vestido
Doze anos depois, a história repete-se como uma farsa — ou será como uma costura mal rematada? Em 2014, o escândalo foi o tule estratégico de Dino Alves; umas transparências que puseram a "monarquia" de Belém a benzer-se perante o "atrevimento" da mulher do líder da oposição. O país, esse eterno voyeur de província, quase precisou de sais.
Agora, em 2026, com o marido finalmente sentado no cadeirão da República, a polémica é o inverso: o azul é demasiado pastel, a marca é demasiado estrangeira, a sobriedade é demasiado... sóbria. Passámos do "mostra muito" ao "esconde a economia nacional".
A ironia é deliciosa: quer se vista de femme fatale vanguardista ou de Primeira-Dama exemplar à la Valentino, Margarida Maldonado Freitas continua a ser o barómetro da nossa hipocrisia. Em Portugal, o cargo de Presidente é de Seguro, mas o escrutínio — esse tecido apertado e desconfortável — continua, como sempre, a sobrar para ela.
Da fé do dia
2026-03-14
Pelos cabelos
2026-03-13
Crónica de uma Coluna em Greve
2026-03-12
Café
A insustentável leveza do vácuo
Há momentos na vida em que somos submetidos a um exercício de resistência cognitiva digno de um monge tibetano — ou de um masoquista literário. Estamos ali, imobilizados por uma torrente verbal que teima em não secar, a ouvir alguém falar… falar… e a desintegrar neurónios em tempo real.
A certa altura, a mente, num mecanismo de defesa puramente instintivo, decide desertar. Foge de fininho para territórios onde a lógica ainda é bem-vinda, porque a conversa à nossa frente assemelha-se a uma daquelas estradas nacionais: interminável, cheia de curvas para lugar nenhum e onde nem um café de beira de estrada aparece para nos salvar do tédio absoluto.
É nesse preciso instante de vácuo intelectual que a pergunta nos atinge com a força de uma epifania: "Céus, mas quem é que lhe ata os atacadores?"
Não é maldade, juro. É um espanto antropológico. É a constatação científica de que existem indivíduos a atravessar a existência com uma confiança tão blindada quão inversamente proporcional à sua capacidade de processamento. Dizem coisas com tal calibre de absurdo que fariam um GPS entrar em colapso nervoso, autodestruir-se e pedir asilo político num ábaco.
O que mais fascina nesta espécie não é a falta de conteúdo — é a performance. A pausa dramática. O olhar de quem está a entregar as tábuas da lei ao povo, quando, na verdade, está apenas a debitar o equivalente verbal a um manual de instruções de um iogurte. Estão convictos de que o mundo não estava preparado para a sua "revelação". E não estava, de facto; mas por razões que a sua modesta arquitetura cerebral nunca lhes permitiria sequer suspeitar.
E nós? Nós ficamos ali, com aquele sorriso de plástico e o aceno de cabeça de quem já atingiu o nirvana da paciência. Já percebemos que certas batalhas não se travam — apenas se sobrevivem, mantendo o contacto visual para não parecer que estamos a planear a nossa própria fuga pela janela.
É, no fundo, um talento genuinamente raro: falar tanto, dizer tão pouco e sair da conversa com a convicção inabalável de ter enriquecido o próximo. Pobre de quem se julga mestre quando, na verdade, mal consegue navegar o labirinto de um nó cego. Na verdade, a única coisa que foi enriquecida foi a nossa paciência — que, ao contrário da conversa dele, tem limites bem definidos.
2026-03-11
O que fica depois do medo?
2026-03-10
O Alfabeto do Sangue
Alfarrabista
"Como dizia o Heidegger, a angústia é o motor da existência..."
A frase foi deixada cair com a displicência de quem larga uma gorjeta num pires de café, embora com a consciência pesada de quem espera um aplauso pela generosidade. Havia uma solenidade quase coreografada no modo como a mão esquerda sustentava o queixo, enquanto a direita folheava um volume da Pléiade com o lombo suspeitamente imaculado. O pensamento não como busca, mas como adereço de cena — tão útil quanto o pó de arroz num teatro de província.
"Como dizia o Heidegger..."
É um exercício de ventriloquismo intelectual. Pressupõe que a profundidade de uma alma se mede pela quantidade de apelidos germânicos que consegue cuspir entre dois goles de um macchiato. Nesse microcosmos de papel e verniz, a compreensão do texto é um detalhe irrelevante perante a estética da posse; o livro não serve para ser lido, mas para ser visto a ser lido, preferencialmente num ângulo que favoreça a luz melancólica da tarde.
As citações saíam-lhe da boca com a fluidez de quem as decorou na contracapa, sem nunca ter sofrido a vertigem de uma única página em branco. Há homens que habitam esta ilusão de que a inteligência é uma doença contagiosa que se apanha ao frequentar bibliotecas, confundindo a memória de curto prazo com a sabedoria dos séculos. As palavras pairavam sobre a mesa com o peso do chumbo e a substância do algodão doce: ocupavam espaço, mas dissolviam-se antes de chegarem ao outro lado da mesa.
"A fenomenologia do espírito..."
A expressão ficou ali, a ecoar no vazio entre as chávenas sujas, como um eco num poço seco. Nem a Pitonisa em transe, rodeada de fumo e incenso, seria capaz de produzir uma retórica tão ornamentada e tão órfã de sentido próprio.
É o triunfo da nota de rodapé sobre o texto principal.
2026-03-09
Segunda-feira
A segunda-feira não bate à porta. Arromba-a com o ombro, entra sem descalçar os sapatos sujos e senta-se na tua cama antes de ti. Fica ali a olhar-te com aquela cara de quem sabe que deves dinheiro às Finanças — o clássico "pensavas mesmo que eu não vinha?".
Abri a janela por puro masoquismo. Chuva e frio. Não é um frio poético de lareira e manta; é um frio burocrático, húmido, cinzento — o equivalente meteorológico a um email em CC que não percebes por que recebeste, mas que já te estragou a manhã.
Fiz o café com fé e bebi-o com desespero. O efeito? Zero. O meu organismo limitou-se a receber a cafeína, arquivou-a num dossier perdido e não deu seguimento ao processo. Fiquei à espera do "estalo" como quem espera que a CP chegue a horas: no fundo, eu sabia que a resposta não vinha.
E depois — como se a meteorologia e a traição química não bastassem — há o trabalho. O trabalho real, com prazos e gente e aquele fingimento coletivo e organizado de que o sistema funciona. Alguém, algures, tomou uma decisão executiva e achou que este preciso alinhamento de astros e nevroses era o momento ideal para "gerar valor".
Estou sentada. A chuva continua a lavar a estupidez das ruas. O café arrefeceu até ficar com a temperatura de um cadáver. O ecrã piscou, mas eu não retribuí o olhar.
Há dias que não pedem sentido, nem brio, nem resiliência. Pedem apenas que não morras — e que não respondas a ninguém antes das dez, sob pena de cometeres um crime passional por escrito.
2026-03-08
Primavera
2026-03-07
A Fada do Descrédito
A vingança, para mim, é um serviço de entregas ao domicílio. Nunca perdi tempo a urdir tramas; diverti-me, quando muito, com planos que o esquecimento tratou de consumir logo a seguir. O destino tem sido um anfitrião generoso: põe-me sempre no lugar certo, na primeira fila do camarote, quando a vida decide finalmente cobrar faturas a quem me feriu. Põe-me até no papel absurdo — e deliciosamente irónico — de ser eu a única habilitada a resolver as confusões onde outros se enterraram sozinhos.
É uma justiça que me cai do céu — antes fosse dinheiro ou chuva, mas aceito o que vem. Pratico esta paciência sem esforço, sem planos elaborados ou conspiratas de bastidores. Limito-me a esperar. A minha vingança não é minha filha, mas é certamente a minha fada madrinha: aquela figura providencial que realiza os desejos que eu, por pudor ou tédio, nem sequer me atrevo a formular. No fim, resta-me apenas o prazer de rir baixinho, de mim para mim, enquanto observo a vida a arrumar a casa.
2026-03-06
O circo de bancada
Os Cavalos Também se Abatem (They Shoot Horses, Don't They?), de Horace McCoy, é um mergulho no niilismo visceral, onde a dignidade humana é moída pela espetacularização da penúria. Uma metáfora que, infelizmente, ganha contornos de um realismo atroz nesta era de política convertida em reality show de baixo orçamento, com figuras como Trump ou, por cá, Ventura, a ocuparem o epicentro do palco mediático com o descaramento de mestres de cerimónias de uma feira popular em decadência.
O que choca — ou talvez já nem choque, tamanha é a nossa anestesia coletiva — é ver aquela gente, já de rastos, a garantir com um fervor quase místico que ainda dança por uma malga de sopa ou por algo ainda mais patético: uma migalha de protagonismo efémero no frenesi das redes. É o triunfo da adesão cega, onde o voto ou a indignação são apenas espasmos musculares de quem já não sabe para onde caminha, mas tem pavor de que a música pare.
Ontem, na Assembleia da República, assistimos a mais um desses números de misoginia, boçalidade e misantropia, servidos com a pose de quem salva a pátria enquanto apenas entretém a turba. A tragédia final, contudo, não reside apenas naqueles que dançam até ao colapso, mas na passividade sádica da assistência. Tal como nas maratonas de McCoy, a política-espetáculo contemporânea alimenta-se da nossa vontade de ver o outro tombar. O público, alapado no sofá e iluminado pelo brilho azul dos ecrãs, já não exige soluções ou decência; contenta-se com o voyeurismo da queda e o insulto fácil.
Nesta arena, a mobilização das massas transmutou-se num circo cruel, em que a degradação humana é consumida como um produto de horário nobre, entre anúncios de detergentes e promessas de salvação barata. No fim, quando as luzes do hemiciclo se apagarem, restará apenas o vazio de uma sociedade que desaprendeu o que é estar de pé, de tanto se habituar a aplaudir quem rasteja por uma irrelevância qualquer.
2026-03-05
Eros platónico
O desejo humano nunca é plenamente saciado. Existe um hiato persistente entre o que possuímos e o que almejamos; é nesse vácuo que o motor da vida opera. O desejo funciona como uma assíntota: uma curva que se projeta ao infinito sem jamais tocá-lo. É essa pequena distância — a falta — que nos mantém em movimento. Se a linha enfim alcançasse o eixo, o movimento cessaria. Na satisfação absoluta, o desejo morreria e, com ele, o próprio ímpeto de existir.
2026-03-04
O inventário do nada
Não tenho tempo para criar, nem fôlego para destruir. Falta-me o tempo de semear, o rigor de colher, a audácia de queimar. Não tenho tempo para as compras triviais, nem para a vaidade de pintar o cabelo.
Falta-me o tempo de plantar a árvore, a paciência de regar as flores ou o zelo de bater um bolo. Não tenho tempo para o tempo das coisas: para o vagar do crescimento, para o desabrochar das pétalas, para a alquimia do fermento. Não tenho tempo sequer para desmoronar o que ergui; nem ver arder, nem ver murchar.
O meu comodismo ancorou-me a esta cadeira e sequestrou-me as horas. Não sou uma vida; sou apenas um exercício de preguiça.
2026-03-03
Ode ao lápis afiado
Hum!...
Dizem que um lápis gasto é sinal de uma vida bem vivida. Que heresia.
Eu olho para o meu lápis intacto, com a ponta perfeitamente afiada, e vejo algo que os "mártires do grafite" nunca compreenderão: estratégia. Enquanto eles riscam o papel freneticamente para provar que existem, eu espero pelo momento certo para traçar a linha que define o jogo.
Estar "gasto" não é uma virtude; é, muitas vezes, o resultado de não saber usar a ferramenta. É o cansaço de quem correu a maratona na direção errada e agora exige uma medalha de participação por ter chegado ao precipício antes de toda a gente.
Prefiro o meu lápis inteiro, a minha paciência preservada e o meu trabalho entregue sem o ruído de fundo de um suspiro dramático. Afinal, a verdadeira inteligência não precisa de olheiras para se fazer notar. Ela nota-se no que fica quando o espetáculo da exaustão termina.
2026-03-01
A Maldição
O rochedo ainda rola. E nós?
"The curse ruled from the underground, down by the shore
And their hope grew with a hunger to live unlike before"
Enquanto o céu do Irão se ilumina por razões que os deuses já não explicam.