2026-03-20

Primavera


Gosto de pensar que a Primavera começa em poesia,
crava raízes na terra
e ergue-se árvore
num verde de esperança renascida.

Não sei escrever versos —
mas é assim que digo
que, apesar do frio e do cansaço,
Março recomeça em mim.

2026-03-19

Primeiro dia de dieta


Sim, eu sei. Já publiquei este post antes. Provavelmente em 2013, 2016 e naquela fase delirante de 2020 em que todos fazíamos pão e juramentos de sangue. Mas há tradições que merecem continuidade editorial: a autoilusão e o glúten.

​Acordo com a energia maníaca de quem está a sofrer um rebranding pessoal. Hoje estreia a nova temporada. Menos hidratos, mais dignidade; talvez um story a dizer “Day 1 💪”, como se o mundo estivesse em suspenso a aguardar o meu índice glicémico. Entro na cozinha com um discurso de TED Talk sobre disciplina a ecoar no córtex pré-frontal e, de repente, o erro de sistema: o Dia do Pai.

​Açorda de camarão.

​Não é apenas comida. É um plot twist cruel, o algoritmo do destino a gerar engagement à custa da minha sanidade. Uma açorda obscenamente cremosa, com coentros estrategicamente posicionados como se tivessem sido curados para um feed de estética minimalista. Aquilo não é um almoço; é um ataque pessoal dirigido.

​Pausa para reflexão: será que ignorar uma açorda destas não é, tecnicamente, um comportamento tóxico? Estarei eu a tentar cortar relações com o pão enquanto ele me oferece closure em forma de crustáceo? Sento-me. Sou uma adulta funcional e enfrento os meus problemas de frente — e, de preferência, com talheres.

​Olho para a açorda e ela devolve-me a narrativa. “Só uma colher”, murmuro, naquele tom de quem já escreveu o rascunho da capitulação mas ainda não teve coragem de carregar em "publicar". Três colheres depois, a racionalização ocorre em tempo real: tecnicamente é proteína, o camarão não tem culpa da minha fraqueza; as ervas são fitoterapia aplicada e o pão... bem, o pão é puramente apoio emocional.

​Cinco minutos depois e estou a fazer ghosting à dieta com a naturalidade de quem nunca leu o que escreveu há dez anos. No fundo, é uma questão de coerência: não posso abandonar uma linha temática que venho a desenvolver com tanto brio — a de que o "amanhã" é o único espaço geográfico onde a minha força de vontade reside.

​E amanhã, prometo, o registo será outro. A menos que os restos sobrevivam à noite. E eu não acredito em desperdício editorial.

2026-03-18

O país às costas


Dizem que os ideais morrem quando as contas chegam, mas a verdade é que eles apenas se tornam mais caros. Hoje, o meu tempo é moeda de troca para o básico — o teto, o pão e as infraestruturas que me ligam a este mundo cínico. Sinto as cordas da marioneta, sim, e os 'bonecreiros' são uma hidra de mil cabeças: impostos, juros e uma ganância mascarada de serviço.

​Podem ter o meu suor das 9h às 17h, podem manietar-me os passos, mas não me compram a resignação. Ranjo os dentes e continuo a bulir, não por conformismo, mas por estratégia. Porque cada palavra que escrevo é a prova de que, por trás da 'Zé Povinha' que eles tentam vergar, há uma consciência que se recusa a ser enrabada pelo sistema. 

Amanhã recomeço, à espera que o mês passe, guardando em silêncio os ideais que o 'bulir' não conseguiu apagar.

2026-03-17

E se?

 


O pior, o pior mesmo, é quando — depois de longas e estudadas análises racionais a todos os conceitos, deveres e direitos — acabamos a sentir que não nos livramos do preconceito. Trazemo-lo ainda tatuado em nós, marca de fogo, letra escarlate. Sabemos que podemos e devemos dizer tudo, fazer tudo, sem cobranças para além das tantas que já fazemos diariamente a nós mesmas. E, no entanto, trazemos o preconceito em nós. Em nome dele, julgamo-nos — e ainda somos capazes de, no fim, julgar a outra.

Talvez seja tudo uma questão de falta de hábito no jogo em equipa, dessa inconcebível capacidade masculina para a gregaridade e a protecção do género. Nós vamos logo de faca na mão e língua afiada, e a outra tem sempre qualquer coisinha de que podemos dizer mal. Depois, como somos nós que acabamos a parir a todos — géneros à parte —, passamos no leite o que somos e o que ainda não conseguimos chegar a ser.

É por isso que, mesmo esperando pelo dia em que o mundo fosse finalmente governado pelo desgoverno feminino — feito de palavras e conversas, em lugar de murros e bombas —, o temo com igual desgarre: que faremos umas às outras nesse dia, se não gostarmos dos sapatos, ou invejarmos o vestido? E que reservaremos para as que caíram para o lado debaixo da forma viciosa como ainda olhamos para o nosso género?


2026-03-16

Ormuz

Sukh Sandhu 

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A análise de Sandhu é fundamentalmente uma crítica ao transacionalismo na diplomacia. Sugere que a política de "América Primeiro" corroeu as alianças de tal forma que, num momento de crise real (como o bloqueio de uma via comercial estratégica), os aliados tradicionais podem não estar dispostos a intervir, vendo os EUA como um parceiro pouco fiável que apenas procura ajuda quando os seus próprios interesses económicos estão em jogo.

​É um comentário sobre as consequências a longo prazo de uma política externa que prioriza o confronto e o isolamento em detrimento da cooperação multilateral estável.

Mas a ironia deve escapar ao atual governo sociopata de Washington. 

O vestido


Doze anos depois, a história repete-se como uma farsa — ou será como uma costura mal rematada? Em 2014, o escândalo foi o tule estratégico de Dino Alves; umas transparências que puseram a "monarquia" de Belém a benzer-se perante o "atrevimento" da mulher do líder da oposição. O país, esse eterno voyeur de província, quase precisou de sais.

​Agora, em 2026, com o marido finalmente sentado no cadeirão da República, a polémica é o inverso: o azul é demasiado pastel, a marca é demasiado estrangeira, a sobriedade é demasiado... sóbria. Passámos do "mostra muito" ao "esconde a economia nacional".

​A ironia é deliciosa: quer se vista de femme fatale vanguardista ou de Primeira-Dama exemplar à la Valentino, Margarida Maldonado Freitas continua a ser o barómetro da nossa hipocrisia. Em Portugal, o cargo de Presidente é de Seguro, mas o escrutínio — esse tecido apertado e desconfortável — continua, como sempre, a sobrar para ela.


 

Da fé do dia


O tempo dos mitos e dos medos há muito que foi escorraçado pela razão e pela ciência, ainda que, tantas vezes, a crendice ameace instalar-se até entre os que se julgam mais esclarecidos. Mas os rebanhos já não encaram a fé e a crença por medo do além, do diabo, do que poderá existir para lá da morte, dos sussurros que se escondem nas noites escuras sem luzes municipais.

A fé é agora uma opção. As regras e os dogmas escolhem-se a dedo, em função dos interesses de quem escolhe. Os fiéis tornaram-se "não praticantes" — expressão que nunca consegui entender bem — e já não há dízimos obrigatórios para sustentar toda a parafernália. A crise da crença alastra: conventos vazios, paróquias sem pastor, igrejas sem fiéis. Divórcios, casamentos civis, padres que fogem para casar, escândalos de pedofilia, corrupção, seitas concorrentes, agnosticismo crescente e um ateísmo sem sobressaltos.

Os frutos da hipocrisia institucional e da mercantilização da esperança têm hoje outro altar: o corropio histérico dos media atrás da próxima celebridade descartável. A santidade foi substituída pelo share de audiência e a oração pelo pitch de vendas.

2026-03-14

Pelos cabelos


Há dias em que uma pessoa não está apenas cansada — está literalmente pelos cabelos. E não falo daquele desalinho charmoso de quem acordou tarde. Falo de um estado capilar existencial: fios em pé, ideias pregadas com pregos invisíveis e a sensação de que a vida inteira está pendurada num varal mental.

Hoje estou assim. Cada tarefa é mais um prego na cabeça, cada notificação mais um puxão no couro cabeludo da paciência. Sorrio, claro. Porque a ironia é o melhor spray fixador para segurar o penteado da sanidade.

Se alguém perguntar como estou, direi apenas: normalíssima. Só um bocadinho… pelos cabelos na sala de espera da Loja do Cidadão.

2026-03-13

Crónica de uma Coluna em Greve

​Seiscentos quilómetros. Não é uma viagem, é um inventário de danos. Chego ao destino com as cruzes — como dizemos cá em cima, com o peso de quem carrega o mundo no lombo — transformadas num quebra-cabeças de nervos e vértebras mal encaixadas. Aos cinquenta e tal (quilometros ou anos, já nem sei, a dor confunde as métricas), o único "output" que consigo garantir é um gemido. Pedirem-me "trabalho" neste estado não é otimismo, é sadismo puro.

​Sinto-me uma relíquia arqueológica que sobreviveu a um sismo. A minha flexibilidade atual é comparável à de uma viga de betão e o meu raciocínio tem a velocidade de um caracol com reumatismo. Olho para o ecrã do computador com a mesma náusea com que um náufrago olha para um copo de água salgada. A esta altura, a única produtividade que consigo oferecer é um ai a cada mudança de posição na cadeira. É o triunfo final da biologia sobre a agenda: o meu único compromisso imediato é com a horizontalidade e uma dose generosa de anti-inflamatórios e a esperança vaga de que amanhã a coluna se lembre de que ainda pertence ao mesmo corpo.

2026-03-12

Café


Moderação? Já ouvi falar, parece ser um conceito fascinante para quem tem paciência de santo. Para os restantes mortais, o café não é um 'abraço', é o soro de reanimação que impede o colapso da civilização antes das dez da manhã. Chamar ao café 'combustível' é manifestamente pouco; ele é o suborno que pago ao meu cérebro para que não se despeça do meu corpo em pleno horário de expediente. Teorias são para os fracos; eu cá prefiro a prática em doses industriais e servida numa chávena com o tamanho de um balde.

A insustentável leveza do vácuo


​Há momentos na vida em que somos submetidos a um exercício de resistência cognitiva digno de um monge tibetano — ou de um masoquista literário. Estamos ali, imobilizados por uma torrente verbal que teima em não secar, a ouvir alguém falar… falar… e a desintegrar neurónios em tempo real.

​A certa altura, a mente, num mecanismo de defesa puramente instintivo, decide desertar. Foge de fininho para territórios onde a lógica ainda é bem-vinda, porque a conversa à nossa frente assemelha-se a uma daquelas estradas nacionais: interminável, cheia de curvas para lugar nenhum e onde nem um café de beira de estrada aparece para nos salvar do tédio absoluto.

​É nesse preciso instante de vácuo intelectual que a pergunta nos atinge com a força de uma epifania: "Céus, mas quem é que lhe ata os atacadores?"

​Não é maldade, juro. É um espanto antropológico. É a constatação científica de que existem indivíduos a atravessar a existência com uma confiança tão blindada quão inversamente proporcional à sua capacidade de processamento. Dizem coisas com tal calibre de absurdo que fariam um GPS entrar em colapso nervoso, autodestruir-se e pedir asilo político num ábaco.

​O que mais fascina nesta espécie não é a falta de conteúdo — é a performance. A pausa dramática. O olhar de quem está a entregar as tábuas da lei ao povo, quando, na verdade, está apenas a debitar o equivalente verbal a um manual de instruções de um iogurte. Estão convictos de que o mundo não estava preparado para a sua "revelação". E não estava, de facto; mas por razões que a sua modesta arquitetura cerebral nunca lhes permitiria sequer suspeitar.

​E nós? Nós ficamos ali, com aquele sorriso de plástico e o aceno de cabeça de quem já atingiu o nirvana da paciência. Já percebemos que certas batalhas não se travam — apenas se sobrevivem, mantendo o contacto visual para não parecer que estamos a planear a nossa própria fuga pela janela.

​É, no fundo, um talento genuinamente raro: falar tanto, dizer tão pouco e sair da conversa com a convicção inabalável de ter enriquecido o próximo. Pobre de quem se julga mestre quando, na verdade, mal consegue navegar o labirinto de um nó cego. Na verdade, a única coisa que foi enriquecida foi a nossa paciência — que, ao contrário da conversa dele, tem limites bem definidos.

2026-03-11

O que fica depois do medo?


Quando o medo chega, bate à porta sem anunciar o nome e instala-se na sala, como um hóspede que não sabemos expulsar.

Enquanto está cá dentro, tudo encolhe. Os passos ficam curtos, as palavras mais pesadas.

Mas o medo não fica para sempre.
Cansa-se.

E quando parte, não leva tudo consigo. Fica um certo sossego estranho, como a casa depois de uma tempestade. O ar ainda cheira a trovoada, mas já se pode abrir a janela.

2026-03-10

O Alfabeto do Sangue

​Lê-se Sócrates, o Escolástico, como quem folheia o inventário de um naufrágio. Hipátia, filha de Theon, não era apenas uma mulher; era a última biblioteca viva de um mundo que ainda ousava interrogar os astros sem pedir licença aos deuses. No seu magistério, Platão e Plotino deixavam de ser bustos de mármore para se tornarem respiração, geometria e destino. Alexandria, nesse estertor de glória, ainda era o lugar onde a inteligência se permitia a heresia de ser livre.

​Depois, veio o silêncio. Ou melhor, o ruído da turba.

​Há uma ironia atroz na forma como o fundamentalismo acerta contas com a beleza. Não basta o argumento; é preciso o caco de cerâmica, a ostra afiada, o desmembramento da carne que ousou pensar fora do cânone do medo. Hipátia não foi apenas assassinada; foi rasurada. O cristianismo triunfante de Cirilo não suportava a verticalidade de uma alma que se guiava pelas elipses de Apolónio e não pelos dogmas de um sínodo.

​É o eterno triunfo do músculo sobre a métrica.

​Caminhamos hoje sobre as cinzas de Alexandria, citando fragmentos de um saber que nos foi roubado pelo zelo dos ignorantes. A morte de Hipátia foi o prefácio de uma longa noite, o momento em que a filosofia foi arrastada pelas ruas e deixada a sangrar no altar da "verdade única". 

Observo o mundo de hoje e vejo os mesmos Cirilos, com outras batinas e novos vocabulários, prontos a afiar as conchas para qualquer um que prefira o telescópio ao catecismo.

​A história, afinal, é este pálido exercício de luto: recordamos o que Hipátia ensinou, enquanto tentamos ignorar o eco dos gritos de quem, ao matar a mestre, acreditou estar a salvar a alma do mundo. No fim, sobrou-nos o Escolástico e a certeza de que a barbárie tem sempre uma excelente justificação teológica.

Alfarrabista


"Como dizia o Heidegger, a angústia é o motor da existência..."

A frase foi deixada cair com a displicência de quem larga uma gorjeta num pires de café, embora com a consciência pesada de quem espera um aplauso pela generosidade. Havia uma solenidade quase coreografada no modo como a mão esquerda sustentava o queixo, enquanto a direita folheava um volume da Pléiade com o lombo suspeitamente imaculado. O pensamento não como busca, mas como adereço de cena — tão útil quanto o pó de arroz num teatro de província.

"Como dizia o Heidegger..."

É um exercício de ventriloquismo intelectual. Pressupõe que a profundidade de uma alma se mede pela quantidade de apelidos germânicos que consegue cuspir entre dois goles de um macchiato. Nesse microcosmos de papel e verniz, a compreensão do texto é um detalhe irrelevante perante a estética da posse; o livro não serve para ser lido, mas para ser visto a ser lido, preferencialmente num ângulo que favoreça a luz melancólica da tarde.

As citações saíam-lhe da boca com a fluidez de quem as decorou na contracapa, sem nunca ter sofrido a vertigem de uma única página em branco. Há homens que habitam esta ilusão de que a inteligência é uma doença contagiosa que se apanha ao frequentar bibliotecas, confundindo a memória de curto prazo com a sabedoria dos séculos. As palavras pairavam sobre a mesa com o peso do chumbo e a substância do algodão doce: ocupavam espaço, mas dissolviam-se antes de chegarem ao outro lado da mesa.

"A fenomenologia do espírito..."

A expressão ficou ali, a ecoar no vazio entre as chávenas sujas, como um eco num poço seco. Nem a Pitonisa em transe, rodeada de fumo e incenso, seria capaz de produzir uma retórica tão ornamentada e tão órfã de sentido próprio.

É o triunfo da nota de rodapé sobre o texto principal.

2026-03-09

Segunda-feira


“A casa ainda dorme e eu fico na cozinha com o café, à espera que o dia comece.”
- António Lobo Antunes

A segunda-feira não bate à porta. Arromba-a com o ombro, entra sem descalçar os sapatos sujos e senta-se na tua cama antes de ti. Fica ali a olhar-te com aquela cara de quem sabe que deves dinheiro às Finanças — o clássico "pensavas mesmo que eu não vinha?".

​Abri a janela por puro masoquismo. Chuva e frio. Não é um frio poético de lareira e manta; é um frio burocrático, húmido, cinzento — o equivalente meteorológico a um email em CC que não percebes por que recebeste, mas que já te estragou a manhã.

​Fiz o café com fé e bebi-o com desespero. O efeito? Zero. O meu organismo limitou-se a receber a cafeína, arquivou-a num dossier perdido e não deu seguimento ao processo. Fiquei à espera do "estalo" como quem espera que a CP chegue a horas: no fundo, eu sabia que a resposta não vinha.

​E depois — como se a meteorologia e a traição química não bastassem — há o trabalho. O trabalho real, com prazos e gente e aquele fingimento coletivo e organizado de que o sistema funciona. Alguém, algures, tomou uma decisão executiva e achou que este preciso alinhamento de astros e nevroses era o momento ideal para "gerar valor".

​Estou sentada. A chuva continua a lavar a estupidez das ruas. O café arrefeceu até ficar com a temperatura de um cadáver. O ecrã piscou, mas eu não retribuí o olhar.

​Há dias que não pedem sentido, nem brio, nem resiliência. Pedem apenas que não morras — e que não respondas a ninguém antes das dez, sob pena de cometeres um crime passional por escrito.

2026-03-08

Primavera


Envolta em trapos de frio, busco o jardim onde a Primavera se escondeu.

Tenho ânsia de verdes e de luz — não esta quase morte de um mundo enterrado até à raiz.

2026-03-07

​A Fada do Descrédito


​A vingança, para mim, é um serviço de entregas ao domicílio. Nunca perdi tempo a urdir tramas; diverti-me, quando muito, com planos que o esquecimento tratou de consumir logo a seguir. O destino tem sido um anfitrião generoso: põe-me sempre no lugar certo, na primeira fila do camarote, quando a vida decide finalmente cobrar faturas a quem me feriu. Põe-me até no papel absurdo — e deliciosamente irónico — de ser eu a única habilitada a resolver as confusões onde outros se enterraram sozinhos.

​É uma justiça que me cai do céu — antes fosse dinheiro ou chuva, mas aceito o que vem. Pratico esta paciência sem esforço, sem planos elaborados ou conspiratas de bastidores. Limito-me a esperar. A minha vingança não é minha filha, mas é certamente a minha fada madrinha: aquela figura providencial que realiza os desejos que eu, por pudor ou tédio, nem sequer me atrevo a formular. No fim, resta-me apenas o prazer de rir baixinho, de mim para mim, enquanto observo a vida a arrumar a casa.

2026-03-06

O circo de bancada


Os Cavalos Também se Abatem (They Shoot Horses, Don't They?), de Horace McCoy, é um mergulho no niilismo visceral, onde a dignidade humana é moída pela espetacularização da penúria. Uma metáfora que, infelizmente, ganha contornos de um realismo atroz nesta era de política convertida em reality show de baixo orçamento, com figuras como Trump ou, por cá, Ventura, a ocuparem o epicentro do palco mediático com o descaramento de mestres de cerimónias de uma feira popular em decadência.

​O que choca — ou talvez já nem choque, tamanha é a nossa anestesia coletiva — é ver aquela gente, já de rastos, a garantir com um fervor quase místico que ainda dança por uma malga de sopa ou por algo ainda mais patético: uma migalha de protagonismo efémero no frenesi das redes. É o triunfo da adesão cega, onde o voto ou a indignação são apenas espasmos musculares de quem já não sabe para onde caminha, mas tem pavor de que a música pare.

​Ontem, na Assembleia da República, assistimos a mais um desses números de misoginiaboçalidade e misantropia, servidos com a pose de quem salva a pátria enquanto apenas entretém a turba. A tragédia final, contudo, não reside apenas naqueles que dançam até ao colapso, mas na passividade sádica da assistência. Tal como nas maratonas de McCoy, a política-espetáculo contemporânea alimenta-se da nossa vontade de ver o outro tombar. O público, alapado no sofá e iluminado pelo brilho azul dos ecrãs, já não exige soluções ou decência; contenta-se com o voyeurismo da queda e o insulto fácil.

​Nesta arena, a mobilização das massas transmutou-se num circo cruel, em que a degradação humana é consumida como um produto de horário nobre, entre anúncios de detergentes e promessas de salvação barata. No fim, quando as luzes do hemiciclo se apagarem, restará apenas o vazio de uma sociedade que desaprendeu o que é estar de pé, de tanto se habituar a aplaudir quem rasteja por uma irrelevância qualquer.

2026-03-05

Eros platónico


​O desejo humano nunca é plenamente saciado. Existe um hiato persistente entre o que possuímos e o que almejamos; é nesse vácuo que o motor da vida opera. O desejo funciona como uma assíntota: uma curva que se projeta ao infinito sem jamais tocá-lo. É essa pequena distância — a falta — que nos mantém em movimento. Se a linha enfim alcançasse o eixo, o movimento cessaria. Na satisfação absoluta, o desejo morreria e, com ele, o próprio ímpeto de existir.

2026-03-04

O inventário do nada

Não tenho tempo para criar, nem fôlego para destruir. Falta-me o tempo de semear, o rigor de colher, a audácia de queimar. Não tenho tempo para as compras triviais, nem para a vaidade de pintar o cabelo.

​Falta-me o tempo de plantar a árvore, a paciência de regar as flores ou o zelo de bater um bolo. Não tenho tempo para o tempo das coisas: para o vagar do crescimento, para o desabrochar das pétalas, para a alquimia do fermento. Não tenho tempo sequer para desmoronar o que ergui; nem ver arder, nem ver murchar.

​O meu comodismo ancorou-me a esta cadeira e sequestrou-me as horas. Não sou uma vida; sou apenas um exercício de preguiça.

2026-03-03

Ode ao lápis afiado


​Hum!...

Dizem que um lápis gasto é sinal de uma vida bem vivida. Que heresia.

​Eu olho para o meu lápis intacto, com a ponta perfeitamente afiada, e vejo algo que os "mártires do grafite" nunca compreenderão: estratégia. Enquanto eles riscam o papel freneticamente para provar que existem, eu espero pelo momento certo para traçar a linha que define o jogo.

​Estar "gasto" não é uma virtude; é, muitas vezes, o resultado de não saber usar a ferramenta. É o cansaço de quem correu a maratona na direção errada e agora exige uma medalha de participação por ter chegado ao precipício antes de toda a gente.

​Prefiro o meu lápis inteiro, a minha paciência preservada e o meu trabalho entregue sem o ruído de fundo de um suspiro dramático. Afinal, a verdadeira inteligência não precisa de olheiras para se fazer notar. Ela nota-se no que fica quando o espetáculo da exaustão termina.

2026-03-01

A Maldição

 

O rochedo ainda rola. E nós?



"The curse ruled from the underground, down by the shore

And their hope grew with a hunger to live unlike before"


​Enquanto o céu do Irão se ilumina por razões que os deuses já não explicam.



O calhau ainda rola


Há imagens que nos perseguem — não como fantasmas, mas como claridades incómodas. Imagens que dizem menos sobre o mundo e mais sobre aquilo que escolhemos ser dentro dele.

Uma dessas imagens é a de um homem que empurra um rochedo montanha acima. Que o vê rolar. Que recomeça. E recomeça outra vez. E outra.

Esse homem tem nome: Sísifo. E não, não estamos perante um mito que ficou preso na Antiguidade. Estamos perante um espelho — cruel, luminoso, inevitável. Uma metáfora daquilo que nos define: o esforço sem fim, a vida repetida, reinventada, absurdamente humana.

Durante muito tempo, achei que o que me fascinava nesta imagem era a consciência lúcida de Sísifo. O facto de ele saber o que está a fazer e, mesmo assim, continuar. Essa revolta contra o absurdo, essa teimosia magnífica.

Mas hoje pergunto-me: e se Sísifo estivesse enganado?

E se a verdadeira revolta não fosse empurrar de novo, mas sentar-se ao lado da pedra e perguntar: para quê? E se a liberdade não estivesse na subida heroica, mas na recusa? Na capacidade de parar, de olhar para o rochedo e dizer: "não és meu!"?

Porque nem todos os rochedos são escolhidos. Há quem empurre pedras herdadas — pedras de dívida, de trauma, de expectativas que nunca foram suas. Há quem empurre em silêncio, em grupo, sem que ninguém lhe conte a história ou lhe dê um nome grego. Há quem empurre até ao colapso, celebrado pela cultura que confunde exaustão com virtude.

E há também — é preciso dizê-lo — quem tenha aprendido a largar a pedra. A deixá-la rolar sozinha. A descobrir que o vale também é habitável.

Talvez a felicidade possível não esteja apenas em acontecermos durante a subida. Talvez esteja também em sabermos quando parar. Em compreendermos que nem toda a repetição é sagrada, que nem todo o esforço nos define.

O rochedo ainda rola.
E nós?

Da ausência divina


Sempre imaginei que, em algum ponto da história, os deuses diriam “basta” e mostrariam a porta aos mortais. Não com trovão ou fúria — com um bocejo.

As antigas narrativas contam que os deuses se retiram. Que deixam o palco e nos deixam tropeçar nas nossas próprias falas. E talvez seja isso que chamamos de “maturidade”: o momento em que deixamos de procurar explicações todas lá em cima e começamos a procurar sentido aqui dentro.

Demitir os deuses não é despedi-los. É reconhecer que já não nos pertencem. Que não regulam os nossos afetos, nem comandam os nossos exércitos, nem seduzem as nossas certezas.

Há algo profundamente humano nisto — muito mais do que numa página de mitologia. Porque, na ausência divina, sobra o homem com todas as suas contradições:
• a mão que empunha uma arma também sabe segurar a de um filho,
• a boca que profere ódio pode repetir um beijo,
• os olhos que se escondem detrás de uma mira algumas vezes choram.

Se os deuses realmente se demitiram, então o palco ficou pequeno demais para nós. E, no vazio que deixaram, somos nós — agora sozinhos — que precisamos decidir o que é melhor e o que é pior.

Curiosamente, às vezes parece que preferimos atribuir a culpa aos deuses — à fé organizada, aos símbolos que nos distraem do espelho. Mas talvez a verdadeira revolução seja aprender a olhar para nós mesmos com a mesma severidade que outrora pedíamos aos céus.

Se há espelho que importa, não está pendurado num templo: está no sopro do nosso próprio juízo.