2026-03-17

E se?

 


O pior, o pior mesmo, é quando — depois de longas e estudadas análises racionais a todos os conceitos, deveres e direitos — acabamos a sentir que não nos livramos do preconceito. Trazemo-lo ainda tatuado em nós, marca de fogo, letra escarlate. Sabemos que podemos e devemos dizer tudo, fazer tudo, sem cobranças para além das tantas que já fazemos diariamente a nós mesmas. E, no entanto, trazemos o preconceito em nós. Em nome dele, julgamo-nos — e ainda somos capazes de, no fim, julgar a outra.

Talvez seja tudo uma questão de falta de hábito no jogo em equipa, dessa inconcebível capacidade masculina para a gregaridade e a protecção do género. Nós vamos logo de faca na mão e língua afiada, e a outra tem sempre qualquer coisinha de que podemos dizer mal. Depois, como somos nós que acabamos a parir a todos — géneros à parte —, passamos no leite o que somos e o que ainda não conseguimos chegar a ser.

É por isso que, mesmo esperando pelo dia em que o mundo fosse finalmente governado pelo desgoverno feminino — feito de palavras e conversas, em lugar de murros e bombas —, o temo com igual desgarre: que faremos umas às outras nesse dia, se não gostarmos dos sapatos, ou invejarmos o vestido? E que reservaremos para as que caíram para o lado debaixo da forma viciosa como ainda olhamos para o nosso género?


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