Ontem fiz anos. Cinquenta e cinco, para ser exacta — embora o corpo, generoso como sempre, tenha insistido em celebrar com alguma antecedência. As articulações já festejam os sessenta. A coluna celebrou os sessenta e cinco em Dezembro. O metabolismo, esse, passou directamente para a reforma.
A cabeça, porém, recusa-se a participar na cerimónia. Continua convicta de que tem trinta e tal anos, uma tolerância razoável à privação de sono e projectos para amanhã que implicam energia. Não foi informada. Ou foi, e tomou a decisão executiva de ignorar.
Há um nome clínico para esta dissociação, com certeza. Chama-se viver.
A terceira idade, dizem-me, começa aos sessenta e cinco. Tenho ainda dez anos para me preparar. É tempo suficiente para chegar à paz? Provavelmente não. Mas é tempo suficiente para continuar a fingir que a questão não se coloca — e essa, ao menos, é uma competência que aperfeiçoo há décadas.
Cinquenta e cinco. O corpo sabe. A cabeça discorda. E eu, algures no meio, fui comer bolo.
Sem comentários:
Enviar um comentário