Recebi hoje a atualização compulsiva para a versão 5.5. Após auditoria rigorosa às juntas, à paciência e ao reflexo no espelho, informo que o sistema continua operacional — embora com uma ironia mais afiada do que a visão ao perto.
Dois cincos. Simétricos. Teimosos. Quase elegantes. Declaro oficialmente aberto o ciclo da Soberania do Desencaixe.
A “Economia de Subsistência” foi substituída pela Gestão Estratégica de Desprezo. Já não invisto energia em reuniões de condomínio existenciais nem em coreografias sociais para agradar à boçalidade alheia. O silêncio tornou-se um luxo. As palavras, um bisturi.
As rugas não são falhas: são nervuras douradas por onde a escrita escorre. Uma guerra entre a gravidade e o adjetivo — e, por agora, o adjetivo ainda ganha.
O sentido de humor mantém-se ativo. Continua a ser o canário na mina. Enquanto ele gozar com São Pedro e com os meus próprios nós de croché, está tudo sob controlo.
Aos 55, o desencaixe deixou de ser erro. É título. Já não se pede licença para não ser “normal”.
Não celebro a passagem do tempo — celebro o aumento da minha perigosidade intelectual.
55 anos a acumular material para sátiras futuras. Investimento de risco. Mas claramente com retorno.
Se houver bolo, que não dispare o alarme de incêndio.
— Sofia, versão 5.5
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