2026-03-16

Da fé do dia


O tempo dos mitos e dos medos há muito que foi escorraçado pela razão e pela ciência, ainda que, tantas vezes, a crendice ameace instalar-se até entre os que se julgam mais esclarecidos. Mas os rebanhos já não encaram a fé e a crença por medo do além, do diabo, do que poderá existir para lá da morte, dos sussurros que se escondem nas noites escuras sem luzes municipais.

A fé é agora uma opção. As regras e os dogmas escolhem-se a dedo, em função dos interesses de quem escolhe. Os fiéis tornaram-se “não praticantes” — expressão que nunca consegui entender bem — e já não há dízimos obrigatórios para sustentar toda a parafernália. A crise da crença alastra: conventos vazios, paróquias sem pastor, igrejas sem fiéis. Divórcios, casamentos civis, padres que fogem para casar, escândalos de pedofilia, corrupção, seitas concorrentes, agnosticismo crescente e um ateísmo sem sobressaltos.

Talvez por isso os frutos da hipocrisia institucional e da mercantilização da esperança me façam lembrar mais o corropio histérico dos media atrás de uma qualquer starlet, famosa por ser péssima nos filmes que faz, do que o surgimento de verdadeiros líderes espirituais. A santidade foi substituída pelo share de audiência e a oração pelo pitch de vendas. 

E um mundo a continuar à míngua de guias e líderes que mantenham a moral no discurso e a ética na postura.

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