2026-03-13

Crónica de uma Coluna em Greve

​Seiscentos quilómetros. Não é uma viagem, é um inventário de danos. Chego ao destino com as cruzes — como dizemos cá em cima, com o peso de quem carrega o mundo no lombo — transformadas num quebra-cabeças de nervos e vértebras mal encaixadas. Aos cinquenta e tal (quilometros ou anos, já nem sei, a dor confunde as métricas), o único "output" que consigo garantir é um gemido. Pedirem-me "trabalho" neste estado não é otimismo, é sadismo puro.

​Sinto-me uma relíquia arqueológica que sobreviveu a um sismo. A minha flexibilidade atual é comparável à de uma viga de betão e o meu raciocínio tem a velocidade de um caracol com reumatismo. Olho para o ecrã do computador com a mesma náusea com que um náufrago olha para um copo de água salgada. A esta altura, a única produtividade que consigo oferecer é um ai a cada mudança de posição na cadeira. É o triunfo final da biologia sobre a agenda: o meu único compromisso imediato é com a horizontalidade e uma dose generosa de anti-inflamatórios e a esperança vaga de que amanhã a coluna se lembre de que ainda pertence ao mesmo corpo.

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