Sim, eu sei. Já publiquei este post antes. Provavelmente em 2013, 2016 e naquela fase delirante de 2020 em que todos fazíamos pão e juramentos de sangue. Mas há tradições que merecem continuidade editorial: a autoilusão e o glúten.
Acordo com a energia maníaca de quem está a sofrer um rebranding pessoal. Hoje estreia a nova temporada. Menos hidratos, mais dignidade; talvez um story a dizer “Day 1 💪”, como se o mundo estivesse em suspenso a aguardar o meu índice glicémico. Entro na cozinha com um discurso de TED Talk sobre disciplina a ecoar no córtex pré-frontal e, de repente, o erro de sistema: o Dia do Pai.
Açorda de camarão.
Não é apenas comida. É um plot twist cruel, o algoritmo do destino a gerar engagement à custa da minha sanidade. Uma açorda obscenamente cremosa, com coentros estrategicamente posicionados como se tivessem sido curados para um feed de estética minimalista. Aquilo não é um almoço; é um ataque pessoal dirigido.
Pausa para reflexão: será que ignorar uma açorda destas não é, tecnicamente, um comportamento tóxico? Estarei eu a tentar cortar relações com o pão enquanto ele me oferece closure em forma de crustáceo? Sento-me. Sou uma adulta funcional e enfrento os meus problemas de frente — e, de preferência, com talheres.
Olho para a açorda e ela devolve-me a narrativa. “Só uma colher”, murmuro, naquele tom de quem já escreveu o rascunho da capitulação mas ainda não teve coragem de carregar em "publicar". Três colheres depois, a racionalização ocorre em tempo real: tecnicamente é proteína, o camarão não tem culpa da minha fraqueza; as ervas são fitoterapia aplicada e o pão... bem, o pão é puramente apoio emocional.
Cinco minutos depois e estou a fazer ghosting à dieta com a naturalidade de quem nunca leu o que escreveu há dez anos. No fundo, é uma questão de coerência: não posso abandonar uma linha temática que venho a desenvolver com tanto brio — a de que o "amanhã" é o único espaço geográfico onde a minha força de vontade reside.
E amanhã, prometo, o registo será outro. A menos que os restos sobrevivam à noite. E eu não acredito em desperdício editorial.
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