2026-03-29

A minha linha


Democratizar a tecnologia deu um telemóvel a cada mão. O discernimento não estava incluído.

Há coisas que não deviam ser para consumo massificado. A morte é uma delas. Não precisamos de ir à dark web para encontrar snuff movies; o feed das redes sociais tornou-se um mercado aberto para eles. A diferença é que os criadores não são cineastas criminosos, são qualquer pessoa com um telemóvel. E os consumidores somos nós.

Em Gaza, corpos. No Irão, meninas. Ontem os desgraçados dos porcos nas notícias. Entre uns e outros, um reel de trinta segundos que não pedimos mas não parámos. 

Onde traçamos a linha? Até onde estamos dispostos a ir num mundo que desumaniza com facilidade e transforma tudo em fait divers — pronto a ser consumido e esquecido à distância de um clique?

Fechar o ecrã também é um acto. O único que ainda nos pertence.

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