2026-07-22

Arquitetura expansiva

Há pessoas que sonham alto. Depois há quem construa alto. Três andares mais alto, para sermos rigorosos.

Sempre admirei o espírito empreendedor português. Não conheço outro país onde um projeto aprovado consiga, por geração espontânea, ganhar pisos como quem ganha folhas na primavera. É quase botânica. Planta-se uma licença e colhem-se apartamentos.

Segundo o Ministério Público, no empreendimento Hilton Cascais Residências apareceram mais três andares do que o Plano Diretor Municipal permitia. Três. Não foi um mezanino maroto nem uma claraboia otimista. Foram três pisos inteiros. É o equivalente urbanístico a ir à inspeção automóvel com um Fiat Panda e regressar com um autocarro de dois andares.

E ainda houve a pequena questão de ocupar milhares de metros quadrados de domínio público marítimo e mexer em terrenos da Reserva Ecológica Nacional. Pequenos detalhes. Pormenores administrativos. A natureza, convenhamos, também ocupa espaço sem pedir licença.

Há quem roube toalhas dos hotéis. Nós preferimos levar um pedaço da costa.

O mais fascinante nestes casos é a escala da distração. Um cidadão troca uma janela por uma varanda e logo aparece um fiscal com uma fita métrica e um bloco de multas. Mas um edifício acrescenta três pisos e a pergunta parece ser sempre a mesma: "Como é que ninguém reparou?"

É uma pergunta curiosa. Três andares não costumam esconder-se atrás de um arbusto.

Talvez Portugal seja o único país onde os prédios crescem como as crianças: "Meu Deus, ainda no mês passado só tinha sete pisos..."

Depois, quando a Justiça acorda, instala-se a habitual liturgia nacional: processos, recursos, pareceres, contra-pareceres, décadas de papel, e um coro de indignados que descobrem subitamente a existência da lei, precisamente no momento em que ela bate à porta.

No fundo, o verdadeiro milagre não foi construir três pisos a mais. Foi conseguir fazê-lo convencendo tanta gente de que aquilo continuava a ter exatamente a altura prevista.

Porque em Portugal há sempre duas medidas para a realidade: a que o metro marca... e a que a influência autoriza.

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