Há dias em que a realidade escreve o texto por nós e ainda nos deixa a tarefa fácil: basta não atrapalhar. O destino, esse contabilista cínico, não precisa de metáforas — só de tempo.
Milo Yiannopoulos, especialista em transformar ódio em carreira, foi apanhado pelo ICE no aeroporto de Nova Orleães e devolvido ao Reino Unido como quem devolve mercadoria defeituosa. O homem que passou anos a exigir deportações em massa, a defender que “milhões e milhões e milhões” deviam ser expulsos sem cerimónia, descobriu que a máquina que ele próprio ajudou a lubrificar não distingue entre inimigos e arquitectos.
É a velha história do carrasco que se esquece de que a lâmina não tem memória. Milo avisou-se a si próprio, repetidamente, em directo, com a convicção de quem constrói a própria armadilha e ainda se orgulha da engenharia. Depois surpreendeu-se por ser o primeiro a cair nela. Não é ironia. É incompetência estratégica.
A frase bíblica — “quem com ferro fere, com ferro será ferido” — é demasiado suave para o caso. Aqui não há moral, nem castigo divino, nem lição. Há só um sistema administrativo que funcionou exactamente como foi desenhado: um algoritmo burocrático que não lê currículos, não reconhece celebridades de nicho, não distingue entre o pregador e o alvo. O nome apareceu no ecrã, o protocolo avançou, e pronto: mais um número processado.
A crueldade que ele aplaudiu quando caía sobre os outros perdeu o charme quando lhe bateu à porta. É sempre assim: a violência política é um espectáculo até ao momento em que o bilhete tem o nosso nome.
Não sinto pena. Não sinto triunfo. Sinto apenas a precisão fria de uma máquina que, pela primeira vez, se lembrou de incluir o nome dele na lista. Não é karma. Não é justiça poética. É contabilidade: o débito chegou, e o sistema, implacável, cobrou.
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