Sina, destino, os deuses a jogar xadrez connosco — isto é conversa para quem tem tempo e gosta de um sotaque dramático. A mim, a vida trata-me a granel, sem tabuleiro, sem rei, só peões a cair. Uns caem cedo, outros tarde, e ninguém me perguntou a ordem.
Se calhar é isso que me incomoda mais do que a Morte em si: a falta de critério. Não há mérito, não há castigo, há só a estatística a fazer o seu trabalho, indiferente a quem estava a meio de uma frase.
Eu queria acreditar que havia uma mão. Mesmo que fosse cruel, ao menos teria cinco dedos. Teria intenção. Dava para discutir, para insultar, para pedir. Mas não há mão. Há um corredor de supermercado às nove da noite, com a luz fria a zumbir, e uma chamada que não se atende a tempo. Há um exame que deu bem e outro que deu mal. E era o mesmo corpo.
O meu pai morreu há menos de um mês.Não foi trágico. Não foi bonito. Não foi nada. Foi um homem que um dia acordou, tomou o pequeno-almoço e, à noite, já não estava. Só o silêncio.
E agora tenho de “fazer o luto”. Palavra ridícula. Soa a trabalho de casa: hoje tens de chorar, amanhã tens de te lembrar, na próxima semana tens de aceitar. Como se a morte fosse um plano de aulas e eu uma aluna aplicada.
Mas eu não quero aceitar. Não quero aprender nada com isto. Não há lição. Não há moral. Não há porra nenhuma que se aproveite desta merda.
Dizem que o tempo cura. Mentira. O tempo apaga. E eu não quero esquecer. Não quero que o cheiro dele se dissipe, não quero que a voz dele se torne uma gravação gasta, não quero que a falta dele passe a ser o meu normal.
Mas também não vou regar a dor como se fosse uma planta. A morte não é um jardim. Não cresce nada aqui.
Não é injusto. O injusto ainda tem paixão. Isto é pior. É burocrático. A morte carimba ponto e não olha para a cara.
A gente cresce a ouvir que tudo tem um porquê — mentira piedosa de avó. O que há é isto: estavas a meio do pão, a meio do livro, a meio de te desculpares. E cai o peão ao lado. Sem estrondo. Só cai. E tu ficas ali, de pé, com a faca do pão na mão.
E no entanto continuamos. Não por coragem. Por teimosia de peão.
Fazemos café. Dobramos roupa. Dizemos “até amanhã” como quem assina um contrato sem ler. Não porque acreditamos no jogo. Mas porque, enquanto não nos toca a nós cair, há esta frase por acabar.
E eu quero acabá-la.
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