2026-08-25

Vinte e dois anos de fuga

Ontem, a Voz em Fuga fez anos.

Nasceu a 24 de agosto de 2004, numa altura em que os blogues ainda eram uma coisa com alguma dignidade: não havia reels, não havia algoritmos a decidir se merecíamos existir, não era preciso dançar para a câmara nem começar um texto com “ninguém vos prepara para isto”.

Havia palavras.

E eu tinha coisas para dizer.

Muitas delas ficaram pelo caminho. Outras envelheceram mal. Algumas, felizmente, desapareceram sem deixar morada. Mas há textos que continuam por aqui, como aquelas fotografias antigas em que reconhecemos a cara mas já não reconhecemos inteiramente a pessoa.

A Voz em Fuga foi mudando comigo. Já foi diário, desabafo, esconderijo, observatório, campo de batalha e, sobretudo, lugar para onde fugir quando o mundo se tornava demasiado barulhento.

Entretanto, passaram-se 22 anos.

Vinte e dois.

Há relações que não duram tanto. Há governos que não duram tanto. Há penteados de que nos arrependemos por muito menos tempo.

E, contra todas as probabilidades, a Voz continua aqui.

Talvez porque nunca tenha sido propriamente um blogue.

Talvez seja uma espécie de casa.

Uma casa desarrumada, com livros por todo o lado, gatos a atravessar o corredor, algumas teias de aranha e uma quantidade pouco recomendável de pensamentos inúteis.

Mas é minha.

E ainda há uma voz lá dentro.

Obrigada a quem, ao longo destes vinte e dois anos, entrou pela porta, leu, comentou, discordou, riu, ficou em silêncio ou simplesmente passou por aqui.

A Voz em Fuga continua.

E eu também.

Ainda bem.

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