As criaturas habituam-se a tudo: à cegueira, à fome, à miséria, ao opróbrio. Só não se habituam à solidão.
Baptista-Bastos - Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura
Existe nisto tudo algo de repetitivo. E, no entanto, movo-me ainda pelas mesmas ondas que nunca desaguam em parte incerta e me trouxeram até aqui. Não há ainda sem vontade!
Existe um porventura e um sem ventura. Ou um desconhecimento reconhecido. Ou talvez o filtro que se veste de cores diferentes do real, sem real, mas não sem quotidiano. Tudo é inspiração e nada é fado.
Existe um limite mínimo de tolerância - baixo, por sinal -, ou a necessidade de marcar presença, de alguma forma, sem presença visível e sem forma.
Existe insegurança, temor, inveja às vezes, mas mais respeito e um calor pressentido de empatias gastas sempre em renovação.
Ou existe tão somente esta coisa abissal de ter um marco, um limite. E de o ter até ultrapassado. É um Bojador pejado de monstros e, do outro lado, estão as terras férteis da esperança, nunca vistas mas sempre vislumbradas.
Um ano. Cumpriu-se um ano a 24 de Agosto. Tão só isso. Nada mais e nada menos do que um ano. Ou talvez seja mesmo muito mais do que isso. Porque aqui fiz ninho, fiz casa. Aqui dei licença a mim mesma para republicar pedaços perdidos, contar uns quantos novos, deixar que a vida real e a que inventei interagissem, partilhassem histórias, ou contassem histórias alheias na primeira pessoa.
Gosto de pensar que a Hipatia - a verdadeira, a de Alexandria - se vivesse hoje, teria um blogue. E que nele desabafaria do dia, contando anedotas, encontrando ainda uma qualquer forma de provocar as consciências, a própria consciência, os tabus, o instituído. E que se libertaria pela escrita de todas as pedras esquartejantes que o dia a dia nos arremessa.
Não seria por certo um blogue igual à Voz, mas seria também um blogue de mulher, cheio de "moods", com evidências de ciclos, guiado pela Lua e as suas manhas, ovulando textos doces e agarrando raivosamente argumentos com sintomas evidentes de PMS.
E esta Hipatia que vos escreve é um nick em pedaços. Ou o pedaço onde desaguaram todos os outros pedaços de mim que já foram nick um dia. Os pedaços do que sou, misturados com os pedaços do que fui, com os que quis ou quero ser, com os imaginados, os inventados, os canibalizados. Ou apenas um nick de embaraços onde, em alguns dias, me reconheço em demasia...
Mas, ao fim de um ano, já não sou só eu quem aqui escreve. São todos os que já li, mais todos os que quero ler. São os meus pedaços e os meus embaraços, entrechocando-se com os pedaços e os embaraços de quem aqui vem ou eu visito.
De resto, estes diferentes choques, mais ou menos amortecidos, transformam-se por fim em palavras que me seguram a Voz. E, aqui, nunca me sinto só!
Um ano não é muito tempo. Mas parece...
Obrigada por me aturarem as telhas e aparecerem sempre que preciso descobrir que a distância não me faz perder quem quero bem, por mais longe que esteja.
Tinha já bons amigos na net. O blogue veio apenas trazer-me mais uns quantos. E provar-me que fazer dos tais pedaços ou dos tais embaraços preciosos laços é o que realmente importa.