2005-11-17

Asnice


aqui


E que tal voltarem a aprender a interpretar textos, em lugar de os lerem sempre munidos de palas?

Irra! É que há com cada imbecilidade de cada cavalgadura munida de teclado!


(Ai "até já", "até já"!... para que raios saio eu do meu umbigo? Cada vez que me aventuro para longe da Voz atrás de um qualquer fait-divers na moda, acabo irritadíssima...)

Hoje é o primeiro dia...


aqui


A principio é simples, anda-se sózinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vazia
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.


Sérgio Godinho - O Primeiro Dia


Parabéns, Maria Árvore!

2005-11-16

Paciência


aqui



Querido menino Jesus, nas palhinhas deitado, dá-me paciência para:
  • Enfiar-me nos Centros Comerciais;
  • Fazer contas e conseguir esticar o subsídio;
  • Ouvir a selecção musical do costume;
  • Tropeçar em todos os que consegui evitar durante um ano;
  • Não me tentar com qualquer merda, só porque é barata;
  • Não me irritar com o aumento do tempo de espera pelo recibo do multibanco;
  • Aceitar a falta de paciência das balconistas;
  • Só encontrar L's e S's quando ando à procura dos M's;
  • Lembrar-me que o queijo da serra ainda está proibido e os frutos secos também;
  • Ainda cantarolar ao fim da décima quinta volta ao parque de estacionamento;
  • Não buzinar nem mandar para a beira da puta da mãezinha todos os domingueiros que agora vão andar na estrada à semana;
  • Não mandar apanhar no cu todos os políticos que conseguiram pôr-me cada vez com menos dinheiro no bolso e ainda aumentaram o IVA;
  • Esquecer-me que existe a FNAC e todas as lojas de roupa de marca;
  • Esquecer que existem sapatos novos lindos;
  • Esquecer-me que há perfumes novos deliciosos;
  • Não olhar para os manequins das montras antes de olhar para os preços;
  • Aceitar as filas à porta das lojas dos Chineses,
  • ...*

Caso não possas cumprir, menino Jesus - e só se ao fim de 2005 anos ainda estiveres em tão bom estado como pareces estar na fotografia -, vem cá a casa dar-me tu uma prendinha daquelas que me deixam sempre tão bem disposta que nem me lembro da crise.


_____
* Lista sujeita a actualização.
________________________________________________

Adendas:

Menino Jesus, dá paciência também:
  • À Caracolinha, para aguardar actos notarias e esperar o Pai Natal ao borralho;
  • À Maria Árvore, para que aguente o suplício dos embrulhos;
  • À Sofia (não sei qual é o link, buuuáááá), para que não desespere com os filmes de Natal, nem com o cheiro a bacalhau cozido ou a peru, a mais todos os doces assassinos para qualquer dieta;
  • Ao Adesenhar, dá-lhe paciência para ter paciência;

2005-11-15

Mensageiros

Just the bang
And the clatter
As an angel
Hits the ground

U2 - Stay


Andam anjos entre nós, escondidos, sonhando a possibilidade de conseguirem segurar uma simples chávena de café; há anjos que querem ser homens para entenderem a espiritualidade humana... há anjos sobre espaços divididos e há anjos sobre espaços unificados, ainda que mais esquartejados, perdidos, à deriva...

Há anjos neste éter virtual, para nos lembrarem que as tricas, as intrigas, os atropelos, são afinal nada mais do que algo que, estando tão longe, se queda tão perto: o tempo (que me pareceu interminável tanta vez), sempre finito, ainda que perspectivado pelos olhos de quem o conta; a mudança, a inveja e a avareza, o amor... Quase nos perguntamos porque quererá ainda um anjo conhecer as vivências dos homens; porque haveria de querer sofrer as penas de uma espiritualidade perdida num mundo desencontrado, desencarnado.

Há anjos que se cansam de olhar sobre os ombros das almas mais que penadas que habitam um qualquer espaço enclausurado. Há anjos que lêem em posturas rebeldes algo de belo, mesmo que outros nada consigam aí ver e ainda são, hoje, capazes de tecer loas a fugazes figuras quase míticas de um mundo cada vez mais mediado...

Talvez porque os anjos são mensageiros de amor. O amor verdadeiro, aquele que não tem câmaras nem holofotes, ou letras e palavras, ou sequer artifícios; aquele que se perde em toques ou aquele que nunca se chega a tocar... Porque há anjos que vêem para além de tudo; porque há anjos que chegam ao fundo de mim e, com umas quantas palavras, me sabem mostrar que não há longe, não há distância... só mensagens de amor!




(ou porque este é "só" um dos meus filmes favoritos - de uma enorme colecção de favoritos -, e hoje alguém mo fez recordar.)

2005-11-14

O 'até já'


É óbvio que os comentários deixados naquele momento de desencanto contribuíram, e muito, para que eu voltasse atrás. Se este blog é só um blog, também é verdade que reúne um grupo considerável e muito interessante de pessoas, que partilham experiências, pensamentos, dúvidas, ilusões. E ter um grupo de pessoas com quem possamos discutir coisas, desta forma... é muito importante.


Não vou conseguir prometer que volto a postar todos os dias; ou sequer que respondo com a mesma regularidade. Quero tentar voltar a escrever "de dentro" e "para dentro", em lugar de borrar com letras um espaço que não sei ter vazio.

Queria ser capaz de coerência e fazer o "até já" que anunciei. Mas dei por mim a escrever testamentos noutros sítios, ainda com vontade de ter uma opinião e expressá-la. Dei comigo a sentir falta de ler as respostas que me dão, as opiniões que querem expressar aqui. E a sentir que, apesar do meu blogue continuar a ser escondidinho, já não é só o meu blogue.

O Substrato ia fechar. Nos últimos dias, andei a seguir a evolução da tragédia anunciada. Hoje, ao chegar a casa, depois de ter telefonado a uma pessoa para pedir ajuda e me aperceber que só o pude fazer porque blogo e assim conheci essa pessoa, descubro que o Substrato já não vai fechar. E, no texto do AdamastoR, estão também os motivos que me prendem à minha Voz: os comentários.

Comecei a Voz sem links e só não comecei sem comentários porque, completamente analfabeta na ferramenta nova com que ia tentar brincar, não sabia como fazer para os apagar. Também comecei a Voz sem contador de visitas. E até hoje não me fazem grande falta, porque não é assim que me deleito com a existência da Voz. Tenho uma média de 50 visitas por dia. E, no entanto, tenho muito mais comentários do que uma média dessas faria prever. E comentários "a sério", mesmo que por vezes também mandem beijinhos. E eu mande também beijinhos em alguns dias.

Há muitos meses atrás, a Duende ensinou-me a pôr links. Em Janeiro, o Draw ensinou-me a pôr um contador e descobri já não sei onde - talvez no Old Man - como fazer para ter os Referrers no fim da página. Depois, numa brincadeira começada numa caixa de comentários, lancei o primeiro desafio. Está ali ao lado e é um dos meus orgulhos, quando penso nestes tantos de meses a blogar. Por causa dele, está outro desafio ali em baixo, repleto da genialidade e da generosidade que, hoje em dia, parece já só quase haver na blogosfera.

E o blogue que começou sem links e só não começou sem comentários porque eu sou mesmo burra nestas coisas, hoje tem o CommentThis! (que teve um treco e está "em armazém" para quando passar o treco) e mais o Haloscan (que quase me faz chorar, por me apagar os comentários com mais de seis meses) e os comentários do Blogger, que quase nunca deixo visíveis. Mas vão ficar agora. Até o CommentThis! voltar. E são três sistemas de comentários porque o meu vício já não é tanto escrever. É ter a vossa companhia; a vossa simpatia; as vossas opiniões.

Continuo a precisar de férias e às tantas não é afinal da Hipatia que preciso de férias. É de mim. Culpar o blogue da minha sem vontade, ou o nick com que assino, não vai resolver nada. Até porque chega a um ponto em que o blogue não é só um blogue. O Adamastor hoje fez-me pensar nisso. E, portanto, a culpa é dele. Qualquer coisinha, sigam o link :))

2005-11-12

O Fiel Jardineiro


aqui


Há alguns filmes que nos perseguem, como se acordássemos no meio de um pesadelo, sabendo que é real, impotentes perante a tragédia, a dimensão da hecatombe, o feia e suja que é a realidade.

Até hoje, tinha três filmes como exemplos acabados disso mesmo: The Killing Fields, Biko e A Lista de Shindler. Todos eles filmes politicamente comprometidos, um grito, um drama personalizado. Todos eles baseados em histórias de alguém, centrando a tragédia na personagem para contar da tragédia de todos. A parte pelo todo. O exemplo.

Hoje, acrescento-lhes - e assumo que, provavelmente, passará a estar no topo dessa lista -, The Constant Gardener, de Fernando Meirelles, o mesmo que já nos tinha presenteado com A Cidade de Deus.

Por uma vez, o grito é anónimo, no sentido que as personagens são fruto da imaginação de John Le Carré; por uma vez, a dor que nos trespassa não vem do sabermos que a odisseia das personagens principais é verdadeira, que existiram mesmo, que precisam ser lembrados. Antes, por saber que estão lá para contar de uma tragédia maior ainda, maior do que poderíamos imaginar.

Desta vez, lembra-se todo um continente, todo um povo peão dos interesses sujos dos donos do dinheiro e dos interesses políticos prostituidos. E acompanha-se a história com aquele nó apertado na garganta, parte culpa, parte raiva, parte indignação, parte impotência.

E, no entanto, é bem mais que um manifesto político, é bem mais do que um thriller, é bem mais do que a exposição das verdades que o Ocidente não quer ver. The Constant Gardener é, também, uma belíssima história de amor. Um amor que se faz de fidelidade, de coragem, de auto-sacrifício, de querer acreditar que a verdade não é a que nos querem vender, mas antes aquela que nos querem ocultar.

Se tudo isto não bastasse, estão lá os actores: Ralph Fiennes e Rachel Weisz. Grandes, magníficos, intensos, profundamente verdadeiros. E as imagens de África na soberba direcção de Fernando Meirelles, que nos atira para o meio da história: umas vezes lindas o suficiente para nos tirar a respiração; outras com a dimensão das tragédias que só podem ser contadas em silêncios dolorosamente amordaçados.

E foi silêncio o que se fez na sala de cinema, mesmo depois de terminado o filme. Porque não havia palavras, quaisquer palavras, para dizer o tanto de sentimento que nos invadia o peito, fazia saltar algumas lágrimas, ou nos agrilhoava a garganta num soluço sufocado.

A ver. A ver mesmo.

2005-11-09

Bombons do destino


aqui


Bateram-me na traseira. Coisa habitual, em dias de muita chuva, quando o piso parece visgo e a visibilidade é quase nula. E eu, como sempre, de música aos berros, prestava atenção ao que se passava à direita, à frente e à esquerda, esquecendo que, de um momento para o outro, o meu pobre bichinho podia ser enrabado. E, à entrada de uma rotunda, lá fomos os dois abalroados.

Toda eu tremi, com o tamanho do susto, com o tamanho do som. Pensei-me perto de morrer, enquanto todo o interior do carro se virava e revirava e o pobre bichinho, apesar do travão a fundo, se aventurava uns quantos metros para dentro da rotunda.

Sai do carro a pensar que estava pronto para a sucata. Voltei para dentro do carro porque não me aguentava nas pernas. Ganhei forças e voltei a sair. O homem já lá estava, às voltas dos dois carros: Que o seu não tem nada, só aqui uma amolgadela no pára-choques. O meu é que bateu contra o seu gancho do reboque. Fique calma menina, veja como não é nada.

E fiquei eu a olhar para o homem, pronta para o matar por quase me ter morto do coração e com tamanho alívio que lhe podia saltar ao pescoço e cobri-lo de beijos, por estarmos os dois vivos e pelo pobre do bichinho praticamente incólume.

Tratei de ganhar coragem para perguntar se queria meter aos cabrões dos gajos dos seguros, enquanto recordava como, da última vez que me haviam batido, depois da Seguradora da culpada se disponibilizar a pagar tudo, a minha ex-Seguradora não queria receber, porque não tinha gostado do desenho do acidente.

E o homem, no entretanto, a dizer que não, que preferia pagar logo e que o desculpasse, que tinha ido ao Centro de Emprego tirar a senha e estava a pensar na lua enquanto procurava um lugar para estacionar.

Fiquei com pena. Raios! Um desempregado! E não insisti no seguro, que os merdosos só existem para o chular o pessoal e o coitado não merecia um seguro agravado. Lá fiquei com a matrícula e o telefone e o nome e o BI. Lá dei o telefone e mais a matrícula e mais o nome e mais o BI. E prometi ao homem que iria ao meu mecânico saber da solução mais económica para um pára-choques que parecia nada ter.

Horas depois, sou obrigada a telefonar ao homem para dizer que o pára-choques afinal está partido em 3 sítios, incluindo os suportes. E que, se metesse de origem, eram mais de 150 euros e mão de obra. Perguntei-lhe se queria pagar em duas ou três vezes. Estava mesmo com pena do desgraçado!

Mas o meu mecânico é um santo e arranjou um pára-choques igualzinho e impecável, não sei onde nem como, conseguindo descer o preço da reparação para 70 euros, mão de obra incluída.

Telefonei outra vez ao homem e quase lhe podia sentir o sorriso do outro lado do telefone. Mas ainda perguntei se queria pagar só no fim do mês, quando recebesse o subsídio. Disse-me que não e, no dia seguinte, foi levar-me o dinheiro.

Aconselhei-o a ir ao meu mecânico, para pôr em ordem a óptica ao dependuro. Expliquei-lhe onde era e deixei-o ir à vida dele, ainda com pena e a pensar na minha sorte por ter o meu certinho no final do mês. Pensei que era o fim da história.

Mas, afinal, não foi o fim da história. Hoje, apareceu-me o homem outra vez, com uma caixa de bombons na mão: Menina, venho agradecer-lhe. Agradecer-lhe por ter tido o cuidado de pensar que eu não tinha dinheiro para esbanjar e toda a sua simpatia. E por me ter mandado ao seu mecânico. Estava lá outro cliente que me ofereceu emprego. Começo na Segunda-feira. Ainda bem que bati no seu carro!

E até me vieram as lágrimas aos olhos.

2005-11-07

Onde?

Às vezes julgo ver nos meus olhos
A promessa de outros seres
Que eu podia ter sido,
Se a vida tivesse sido outra.

Mas dessa fabulosa descoberta
Só me vem o terror e a mágoa
De me sentir sem forma, vaga e incerta
Como a água.

Sofia de Mello Breyner Andresen - Às Vezes


Onde acaba a palavra e começa o sentir? Onde fechamos os olhos às letras e abrimos as persianas à imaginação? Onde deixamos de ser só letras que se juntam ao acaso, para passarmos a ser uma tertúlia. Onde nos expomos cada vez com mais cuidado e, no entanto, nos conhecem cada vez melhor? Onde estão os meus limites para o que sei dar por aqui, sem corpo, sem mãos, sem olhos, sem voz? Onde estão os que já me configuram nas palavras e nos seus limites? Onde acabo eu e começa a Hipatia?

Há dias em que já não sei...

Loucas, loucas, loucas, andam as galinhas...


(recebida por mail)


Começaram por enlouquecer as vacas, seguiram-se os porcos, agora enlouqueceram as galinhas...

Vou ter que passar a comer carne de cobra? Ou só fruta? E os trangénicos? E os adubos? E o resto da bosta com que borrifam ou injectam ou alimentam as coisas que comemos?



(Eu sei que até nem devia pensar assim, mas só me consigo lembrar do "Bowling for Columbine" e da merda que é viver atolada numa cultura de medo.)

2005-11-06

Para a Caliope


aqui


Tenho saudades das tuas Poesias de Outono e de te encontrar todos os dias nas minhas caixas de comentários.

Quando voltas, amiga?

Beijo grande, neste teu dia especial.


aqui

Godot


Tine Drephal


Todos nascemos loucos. Alguns de nós continuam a sê-lo.


Samuel Beckett – À Espera de Godot


Todos os dias espero que a inspiração não me falte, regresse de mansinho para me ajudar. Nestes dias em que o absurdo se instala, corrosivo, e não sei como escapar-lhe.

Todos os dias! Talvez falando de tudo e de nada, esperando. Esperando que as palavras se alinhem, ao final do dia. Esperando que a loucura se esconda, vagueie para longe. Esperando, esperando, esperando...

Todos os dias espero a inspiração que me permita baixar ao ninho, baixar à minha condição, escorraçar o patético e o desesperado, vagabunda de mim.

Todos os dias espero a espera, vagando no tudo, vagando no nada, procurando um caminho nas existências banais, sem sentido, quando a voz me foge ainda mais um dia.

Todos os dias espero o meu Godot, um vazio que não chega se o amordaço em mil palavras, esconjuro em coisa nenhuma. Uma qualquer banalidade que se faz esperança, quando ainda há mais um dia em que a espera é a rota possível para longe do nada, para perto da inspiração, para mais perto ainda de um renascimento possível.

Na invenção das palavras, construo a espera. E fico esperando, esperando, esperando. Meu Godot, minha inspiração, meu caminho.

08-01-2005


________
(Não é poesia, mas adorei a foto e, de certa forma, acho que faz sentido, ainda que extra-concurso. Esta foi, talvez, a imagem que me faltou quando escrevi o texto há muitos meses atrás.)

2005-11-05

Rosa Verde - Para o Escritor Famoso


Dennis Okanovic (flower)


No patamar das horas,
inquinou as memórias,
contaminou o olhar.
Resvalou pelo tempo,
pintou o lamento,
confessou demoras.
Sobrou o vento,
roxo de esperas,
e uma rosa verde,
com espinhos lentos,
resumindo as eras,
do seu esperar.


Resvalou a frio,
para além das horas,
do tempo,
do lamento,
do verbo amar.

2005-11-04

The Night I Was Going to Die


Rui Guerra (the night i was going to die)


A sua solidão era demasiado grande para o quarto pequeno. Sentiu-a a expandir-se da porta para a sala, até o lugar parecer aspirado de amor.


Olivia Goldsmith - O Eterno Ex



Pensou: this was the night i was going to die...
Mas era demasiado fácil e então não morreu.


Escolheu antes a pequena morte orgásmica.


E deixou-se ir, num sonho feito feitiço,
para voltar a viver.



______

(Nota: Já não está à experiência e é para o novo concurso do Escritor Famoso)

Desafio 'sumo de laranja'

De volta ao topo da página, porque há textos novos.


aqui


E já há textos (passa a ter link próprio na lateral):



  • Sumo de Laranja - Duende
  • Tarde - mrf
  • (sem título) - JP
  • Sumo da Paixão - Sharkinho
  • Tristamante - Prólogo
  • Sumo espremido - Maria Árvore
  • Novelo Triste - Palavras em Linha
  • Mar:


  • Tinha chegado de mansinho, entrado na sua vida com voz de veludo e olhos doces.
    Tinha-se apoderado dos espaços em aberto dentro de si, como a chuva que invade todas as frestas de um terreno ressequido.Não soubera como nem em que altura se tinha apercebido de já não ser uma, de que se tinha transformado num ser novo, resultado da fusão de dois. Tinha-se apenas deixado ir...
    Depois, vieram os tempos de mar aberto e de gaivotas, de lençóis revoltos e noites em claro, de plenitude à luz do luar. Foram dando laços e nós, foram-se chamando de Nós, inventaram dias de cheiros mornos de peles saídas do banho, de café e sexo acabado de fazer.
    E agora ali estava, noutro país que não sabia se era longe, se perto, naquele quarto de hotel a que tinham chamado lar, durante os dias de férias a que tinham chamado a sua vida.
    Estava ali a olhá-lo deitado de lado na cama, a imprimir em si o instantâneo daquele rosto que amava com paixão. Olhava-o e relembrava a noite de que acabavam de acordar, o seu olhar de desejo violento, as mãos nas ancas enquanto a invadia como um explorador de florestas por desbravar, os beijos que lhe depositara nos ombros, no peito, no interior das coxas, nas palmas das mãos.
    E agora ali estavam, no último dia dos dias que haviam escrito a história da sua vida, dali para a frente. A saborear os últimos momentos, antes de se meterem à estrada e regressarem ao mundo.
    "Porque estás triste?" perguntou com malícia no sorriso, enquanto gatinhava para cima dele e, olhando-o no fundo dos olhos, colocava os dedos no interior do copo e espalhava algumas gotas de sumo de laranja pela sua pele nua, deixando-as escorrer à medida que se reclinava para trás, em antecipação do que tão bem conhecia...


  • Sumo de Laranja - Rosmaninho
  • Também Brinco - Hipatia
  • Ilha Laranja - Luís Duverge
  • Nua Irina - Bagaço Amarelo
  • O Sumo de Laranja - Zu
  • Laranjas, Maçãs e Etiqueta - Maria
  • A Mikas - Lino Centelha
  • Reflexos - Noite
  • Sim, mas... - Ante et post (Karla)
  • Despida... - Anukis

  • 2005-11-03

    Bem!

    Agrilhoem-me com versos sussurrados,
    sejam a estes martírios condenados,
    os que amam a voz e o grito de um poeta!
    Que me prendam o corpo à poesia
    algemada por palavras e por rimas
    Seja esta a prisão das fantasias
    Que será sempre a liberdade o que me cerca!

    Bastet


    Como se alguma vez eu fosse deixar uma "coisa" destas perdida numas Vozes do CommentThis!, sempre tão dispostas a passarem-se e a fazerem-me ficar sem os comentários!

    Para a 'madrinha'


    aqui


    2005-11-02

    Para o Escritor Famoso


    Pudesse eu não ter laços nem limites

    Ó vida de mil faces transbordantes

    Para poder responder aos teus convites

    Suspensos na surpresa dos instantes!


    Sophia de Mello Breyner Andresen – Pudesse Eu



    Há tantos poemas que poderia escolher. Há tantos que dizem o que não sei dizer, tecendo em palavras as emoções que me guiam. Há tantos, mas tantos poemas de amor, de dor, de negrume ou alegria, de paixões balançadas, ou de versos esguios. Há tanta palavra bailada, em ritmos sincopados, ou desenhando nas métricas pensamentos voláteis. Há tanto poema. Tanto! Que quase não sei escolher. E então fecho os olhos. E suspiro um "pudesse eu..." E deixo aqui Sophia. Porque sim. Porque há demasiados poemas. Ou porque estes quatro versos resumem o meu olhar sobre o futuro agrilhoado ao presente.

    Proximizade

    Proximizade


    Proximidade e mão amiga. "Proximizade", feita do entusiasmo voluntário de quem quer ajudar a combater a apatia, a dispersão e a insensibilidade que nos ameaça se continuarmos indiferentes ao que se sabe e ao que se vê.


    Aqui, já está a acontecer.



    Se a imensidão dos dramas torna as hecatombes tão grandes que não conseguimos sequer imaginar a dimensão das tragédias, então que
    se imagine uma onda rubra de lágrimas; que se imagine um lago de mágoa; que se imagine a dor calada que nos fere as consciências.


    Perante tais cenários, sempre achei que sou demasiado banal para ser capaz de fazer qualquer diferença. Mas, ainda assim, não desisto de tentar.


    E há mais quem não desista. E há Proximizade por isso.


    Divulguem, por favor.

    2005-11-01

    ...off


    aqui


    Estava a apetecer-me escrever, mas de cada vez que tento juntar palavras que façam sentido, só saem histórias tristes. E não me apetece pôr nada triste no blogue. Não agora. Não para começar um mês.

    Antes falar de coisas doces, inverter o rumo ao pensamento. Desligar, às tantas. Ir dormir, talvez. Programar a televisão para apagar sozinha, sintonizar na voz mais monocórdica de todas as vozes monocórdicas que a tv cabo nos oferece, e deixar-me embalar para o mundo dos sonhos.

    Amanhã será um novo dia, digo eu, armada em Scarlett. E... off.

    2005-10-31

    A compota da tia


    Antoine de Villiers - Fervor


    ...então costumavam ficar deitados, nus, a retomar a respiração. Depois a conversa ia-se tornando pausada, serena, interrompida por umas quantas risadas. Um gole de água e mais uma festa percorrendo a pele. Logo a seguir, uma confidência com atenção nos olhos.


    E a tarde ia correndo desapercebida.


    Ele sentiu fome:


    -Vou lá abaixo buscar um pão com aquele magnífico doce de tomate da minha tia.


    Levantou-se, procurando o roupão, e lá foi...


    Daí a pouco estava de volta de papo seco, recheado de doce, seguro na mão.


    Ao passar por cima dela, rumo ao seu lugar na cama, uma gota de doce de tomate caiu sobre a barriga da companheira. Ali mesmo a Sul do umbigo.


    -Oh!...Desculpa. Disse o rapaz atrapalhado.


    -Agora limpa! Disse ela olhando a gota vermelha.


    Ele pegou numa t-shirt, abandonada aos pés da cama. Mas ela interrompeu-lhe o gesto:


    -Limpa com a boca!


    O jovem, hesitante, cumpriu a ordem da sua amante, usando a língua.


    Limpa a barriga, a mulher arrancou-lhe a sandes da mão, apertando-a com força. Várias gotas insidiosas de doce de tomate tombaram mais abaixo no corpo da amante:


    -Limpa! Ordenou ela, outra vez.


    -Aí?... Perguntou o rapaz.


    -Sim! Aí no canteiro das flores malditas. Confirmou ela. E, depois, num gemido: Aaahhh.... Temos que mandar um cartãozinho à tua tia....a agradeceeeer...

    _______

    Esta é a contribuição do Gaivina para o comPILAções.



    E bom Halloween para todos. Que os velhos deuses celtas vos acompanhem em mais uma mudança de estação!