2004-10-22

Sentir


I just wish I was made of wood,

I might not feel pain,
even if I should, even if I should,
if I should.

Black - The Sweetest Smile


Não! Não queria ser feita de madeira e deixar de sentir dor. Ou deixar de sentir prazer. Ou o quente e o frio. Ou o áspero e o suave. Ou uma lágrima. Ou um sorriso...

Sentir é viver a vida em pleno, saboreá-la. Talvez mais do que isso: é degustá-la com o empenho de enólogo intoxicado pelo seu sabor. E este sentir é vital para mim. Não um sentir qualquer. Um sentir entranhado, quase dolorido, claro no alcance das garras com que me prende. Mirro quando me sinto alheada de sentimentos fortes, paixões dominadoras, encantamentos peremptórios.


Por vezes, as rotinas em que nos embrenhámos no dia a dia, distanciam-nos desta capacidade de sentir por inteiro. Como borboletas presas no fascínio da luz, sabemos que chegar demasiado perto, sentir por inteiro, pode ser a chama que nos queima as asas.


Mas sou passional por vontade e convicção. E, ainda que também eu fuja da chama ilusória e tentadora da paixão com que resolvi encarar a vida, por motivos quase covardes no seu alcance, acabo enredada nas teias desta dicotomia. Viver apaixonadamente pode ser muito pouco seguro para qualquer coração que se quer saudável. E a experiência traz-nos os limites do conformismo...

Que me sobra então? Sobra-me escrever. Porque ao escrever mantenho em equilíbrio a paixão e a razão, encontro de novo o meu passo, evito riscos sem me privar de sentir.

Escrever liberta-me. Faz-me bem à alma. Deixa-me livre para todos os sentimentos, os bons e os maus. Deixa-me livre com as minhas memórias, as minhas penas, os meus fantasmas. Mas também com os meus prazeres, os meus desejos, os meus sonhos, os meus anjos. Escrever é o acto onde me retiro para mim, o espaço solitário onde alinhavo pensamentos desordenados. Escrever é a minha fuga contra a rotina, contra o tempo, contra o espaço, contra a covardia tolhedora do quotidiano indiferente. Escrever é a minha estrada perdida, o meu casulo, o ventre onde cresço para novos dias.

Escrevo para mim. Porque preciso. Porque não escrever me deixa encarquilhada em sentimentos a precisarem de libertação. Porque é quase uma necessidade física.

Penso que, quando escrevo, passo a ideia de uma pessoa triste, deprimida, egocêntrica e solitária. Talvez com um coração partido. Talvez abandonada pela sorte. Talvez doente. Talvez simplesmente infeliz. E, no entanto, sou normalmente considerada uma pessoa divertida, de gargalhada fácil, piada certeira.


Mas não sei ser feliz na escrita. Acho que tem a ver com os motivos porque escrevo. Escrevo em busca de alívio, como panaceia. Escrevo para poder continuar a ser uma pessoa contente. Escrevo porque assim exorcizo os meus demónios e assim lhes ponho rédeas.

Suponho que todos temos um lado negro, tristonho, cansado da vida e do mundo. E todos temos uma forma de lidar com ele. Escrever é a forma de domar a negritude que, por vezes, quer tomar conta de mim.

E, de cada vez que espalho numa folha ou num écran em branco todo o escuro que se acumula em mim, escorraço-o para longe.

7 comentários:

mary-john disse...

ora cá está mais um tipo de post que é um crime não ter comentários...
percebo tão bem o que dizes..... de todos os benefícios que a escrita me traz, cheguei à conclusão que o mais importante é que me ajuda a arrumar ideias. e quando a confusão mental chega a ser caótica, escrever torna-se vital. é o meu caso, será o teu, pelo que escreveste... e quando não estamos a escrever estamos a animar festas lol ;)

Hipatia disse...

Dizes que quando não estamos a escrever, estamos a animar festas... bem, concordo. Mas acho que, pelo menos no meu caso, só continuo a animar festas porque posso escrever ;) Se não tivesse exorcizado os meus demónios de alguma forma, não saberia nunca como me manter animada no resto das coisas :)

(este cantinho é quase secreto; nunca tem muitos comentários)

Até 6ª?

Mofo disse...

Muito bom post!
Felizmente conheço este espaço secreto :)

Hipatia disse...

É verdade, Mofo. Quase desde o início que visitas este meu cantinho. E sabe-me sempre bem sentir-te por cá.

Mas mesmo assim é um cantinho obscuro e, verdade seja dita, nunca foi pensado para ser muito mais do que isso. Os meus textos não são fáceis para grandes comentários, comparativamente a outro tipo de blogue.

Beijo grande.

mary-john disse...

keep writing! ;)
vemo-nos no sábado!

beijinhos

Hipatia disse...

Até sábado então :)

Anónimo disse...

On : 10/23/2004 5:28:42 PM vanus (www) said:


Gostei.
beijocas

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On : 10/24/2004 9:38:13 AM Hipatia (www) said:


Olha ela

Ainda bem que gostaste. Até porque acho que sabes muito bem ao que me refiro

Beijocas para ti também

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On : 10/25/2004 6:08:40 AM corpo visivel (www) said:


Essa é a prova de que a negritude pode ser produtiva!!
O mau nunca é completamente mau assim como o bom näo é sempre absolutamente bom...

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On : 10/25/2004 1:00:15 PM Hipatia (www) said:


Tens razão. E é esse o meu objectivo. Transfomar o negrume em luz...

Beijinho Corpo Visível :)