2005-04-06

Feroz Sorriso

I
Transforma-se o amador na coisa amada com seu
Feroz sorriso, os dentes,
As mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.

Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
A coluna vertebral e o espírito
Das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.


Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
Que escuta
Fica com aquele grito para sempre na cabeça
A arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
E vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
Do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
Dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
Anterior de amor.


E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
De amador. E ela é batida, e bate-lhe
Com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
Do amor. Enquanto em cima
O silêncio do amador e da amada alimentam
O imprevisto silêncio do mundo
E do amor.


Herberto Hélder – Tríptico (in Colher na Boca)




E se me perguntassem o que é o amor? Não saberia responder. Não numa resposta plena, que me agradasse por inteiro. Nunca saberia espartilhar o sentimento apenas numa palavra. Mesmo quando dói é tão mais que dor...

Amar é risco, é entrega. É escolha. É transformação. É pôr a alma a nu para o outro. É enfrentar os nossos medos de rejeição. É sentir a vida no sangue. É ter o coração a bater-nos forte como nunca. É magoar e ser magoado e ainda assim perdoar ou deixar-se ser perdoado. É escolher o momento, sabendo que se vive a eternidade. É viver para além dos quadros e das músicas e dos livros. E encontrar nos quadros e nas músicas e nos livros o retrato do nosso sentir...

E, acima de tudo, é rejeitar o conforto da solidão.





Mas nunca me chegam as palavras...

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imagem aqui

5 comentários:

Luis Duverge disse...

Amor é quando tu te entregas permitindo que os se entreguem de igual, sem mais nem menos, igual.
Um beijo ... estou ali no espaço.

Hipatia disse...

Já não cheguei a tempo ao espaço :(

(não sei se há entregas iguais; penso que há entregas por medida de cada um de nós...)

Mofo disse...

Amar é dar algo que não se tem a alguém que não o quer ;)

Gostei da parte do conforto da solidão. É uma grande verdade.

Hipatia disse...

Não concordo nada com essa máxima, Mofo :) Acho que o amor é sempre nosso para dar, mesmo que seja a alguém que não o quer.

Beijinho

Anónimo disse...

Mais Vozes

On : 4/6/2005 2:28:00 PM Luna (www) said:

um sorriso para ti e um beijo...


On : 4/6/2005 3:40:52 PM 1poucomais (www) said:

Amor é tudo isso. E é estar feliz sem razão, a não ser o sabermos que há outro sorriso como o nosso, naquele momento, mesmo que longe de nós. Beijo para ti, Hipatia linda.


On : 4/6/2005 4:10:45 PM corpo visível (www) said:

O amor não existe.
É uma invenção de um italiano chamado Petrarca e dos trovadores provençais. (Mário Vargas Llosa).


On : 4/6/2005 4:20:41 PM vague (www) said:

Rejeitar o conforto da solidão?


On : 4/6/2005 4:24:37 PM vague (www) said:

Amar é dar-se as mãos estreitamente e abraçar fora do tempo. E sobretudo é absolutamente indefinível.


On : 4/6/2005 5:54:20 PM CotaMarada (www) said:

A minha mestria não passa pelo domínio da palavra para explicitar o que sinto... Mas sou boa no explorar do sentir do amor... Mas qual amor... amor de paixão para paixão, amor de mãe para filhos, amor de amiga para amigo...
São amores tão diferentes... Mas sinto-me inundada de amor... e tenho tanto amor para estravazar...


On : 4/6/2005 5:57:27 PM CotaMarada (www) said:

Car(r)aças, piolhos e outra bicharada

Só agora reparei na melga do "mas" que se agarrou ao meu comentário anterior... eu bem dizia que a minha mestria não era essa... as minhas desculpas acompanhadas de QUITOSO.


On : 4/6/2005 6:07:25 PM Hipatia (www) said:

Um beijo, Luna, cheio de sorrisos


On : 4/6/2005 6:10:23 PM Hipatia (www) said:

O estar feliz sem razão não entra na categoria do "duas consoantes, duas vogais e dois idiotas"?

É isso tudo

Beijo para ti, Azulinha linda


On : 4/6/2005 6:17:45 PM Hipatia (www) said:

Não sei se concordo, Corpo Visível. Mas acho muito complicado encerrar o Amor apenas numa palavra


On : 4/6/2005 6:20:20 PM Hipatia (www) said:

Evitar sentir também é confortável, Vague. Pode ser uma fuga como outra qualquer. E às vezes é dessa que custa mais fugir.

(é indefinível, tens razão...)


On : 4/6/2005 6:23:01 PM Hipatia (www) said:

Ai mandas-me o Quitoso, Cota?

Não defini qual tipo de amor de propósito

(e não é bom sentir o peito assim pleno de sentir?)


On : 4/6/2005 6:24:28 PM 1poucomais (www) said:

É isso, duas consoantes, duas vogais e dois fulanos com cara de parvos absolutamente felizes por estarem um com o outro. Querem coisa melhor do que isso?


On : 4/6/2005 6:28:05 PM Hipatia (www) said:

Não há, Zu


On : 4/6/2005 6:52:24 PM CotaMarada (www) said:

Desculpa mas o quitoso era para a carraça do piolho, primo da melga do meu MAS, que os teus rapazes nã têm pêlo onde se agarre a lêndea. Ora vê lá se descobres algum nestas cabeças brilhantesaqui não confundas com os cornos)

Népia,nem um só... algumas sobrancelhas mas cousa pouca...

É bom sim senhor mas (às vezes) é impróprio para cardíacos...


On : 4/7/2005 3:54:55 AM Mar (www) said:

Não há palavras suficientemente GRANDES para o definir...
E acho que só os poetas o sabem e podem cantar como deve ser. Nós ficamos reduzidos apenas a vivê-lo.


On : 4/7/2005 4:10:45 AM Jorge Morais (www) said:

Que post mais lamechas
Quase que me faz
Não pode ser, tenho de me manter
Bem, na realidade amor não se define, sente-se. Quando se tenta definir em demasia, corre-se o risco de estar a amar e não o saber, porque não bate certo o sentimento e a definição.


On : 4/7/2005 3:54:16 PM Hipatia (www) said:

Quantas vezes, só depois de escrevermos, damos conta das muletas? Ou da falta delas? No meu caso, tenho sérios problemas em fazer concordar o sujeito com o predicado. Acho que o Quitoso é bem vindo, Cota

(mesmo quando impróprio para cardíacos, acho que faz bem ao coração )


On : 4/7/2005 3:54:59 PM Hipatia (www) said:

E já ficamos reduzidos a tanto, não é Mar?


On : 4/7/2005 3:56:34 PM Hipatia (www) said:

Oh Sôr Jorge, quer um lencinho de papel?

(as definições são meros espartilhos: fazem o seu efeito mas, depois, o bom mesmo é tirá-los )