2005-04-26

Personagens


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Há personagens que podíamos habitar plenamente. Personagens onde nos revemos a cada instante. Como se fosse a nossa história que contam, mesmo não sendo. Como se o núcleo da história fosse nosso, ainda que os pormenores envolventes divirjam.

Há dez anos atrás vi, maravilhada, um pequeno grande filme chamado "Before Sunrise". E era eu, nos meus detalhes, no meu romantismo, na forma ingénua como embarcava nas promessas que a vida me apresentava. Eram as mesmas escolhas, a idade semelhante, o conhecer profundamente uma verdade que, afinal, não era só minha. Aquela podia ser a minha história, aquele podia ser o meu encontro, aquele podia ser o meu passeio pelas ruas de Viena.

Passada uma década, a sequela (Before Sunset) veste-me da mesma forma. Ainda estou ali eu, dez anos mais velha, dez anos mais cínica, dez anos mais madura e mais magoada. Como se um encontro do passado me tivesse mostrado que a perfeição é possível e, depois de a encontrar e perder, não me restasse muito mais do que deixar congelado um pedaço de mim. O pedaço onde encerro ainda todas as verdades fundamentais, tudo o que sei, tudo o que sou, o muito ou pouco que sei amar, que ainda sou capaz de amar.

E, no entanto, o filme devolve-me a esperança. Mesmo que a história não seja a minha e que a minha não tenha direito a reencontros. Mas há um acerto de contas com o destino, com dez anos de vida, com tudo o que pomos de parte para seguir em frente. E um olhar para trás e reconhecer que o seguir em frente, ainda que fosse o único caminho possível, não é necessariamente a forma perfeita de nos mantermos fiéis a nós próprios, senhores do nosso destino, senhores do nosso direito ao amor sem compromissos de obrigações pequenas e limitativas.

Mergulho neste dois filmes e na possibilidade de um amor incondicional, perfeito porque congelado numas quantas horas antes que o dia amanheça ou antes que o dia acabe. E as personagens contam a minha história, com outros pormenores. E eu fico à espera de os ver novamente, daqui a mais uma década, sabendo que, de alguma forma, estes actores e este realizador ainda estarão a contar a minha história.

Porque há personagens que nos habitam e não nos conseguimos livrar delas. Porque somos nós. Porque ainda há filmes que nos contam no faz de conta a história mais real.


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(Tinhas razão, Loiro. Tinhas toda a razão...)

14 comentários:

Vera Cymbron disse...

Dois filmes muito interessantes e que nos deixam a pensar muito nas relações e no amor para sempre...
Certo é que não se pode ver este filme muitas vezes...
Jinhos

Hipatia disse...

Por acaso não me canso de os ver :) Já tinha o Before Sunrise e, nos meus anos, ofereceram-me o Before Sunset. Agora, quando me dá a panca, costumo vê-los de enfiada...

:)

vanus disse...

O texto está muito giro, mas reflecte exactamente o porquê de eu não ter gostado do before sunset.

Deixa ver se me consigo explicar, não é que o filme esteja mau, ou seja mau, e nem sequer é porque o desenvolvimento das personagens não corresponda a um imaginário plausível, com laivos de beleza que ainda nos faz sonhar, mas é precisamente porque é um filme dirigido a uma só camada etária, a um só público. O filme sozinho não vale grande coisa, e o apelo que tem reporta-se sempre ao before sunrise, o sunset por si tem pouco, e a mim enerva-me um bocado estas coisas elitistas. Este é um filme para quem viu o primeiro, e para quem tem a mesma idade do elenco, e isso é muito limitativo.

Enquanto o outro é realmente uma viagem, por fora e por dentro, cheia de desencontros, mas de encontros nos pequenos pormenores, este é meramente um debitar de história, sem profundidade, para mim sem fogo para consumir. Há dez anos atrás quem visse o filme, fosse de que idade fosse tinha linhas de sobra para voar, agora só na idade dos 30 a 40 se consegue alguma identificação, e é tudo muito básico, muito dado a quem vê, tudo muito mastigado e digerido, como uma refeição comida por outro que não nós.

Não gostei, não me trouxe nada de novo, apenas me serviu para fazer alguma contabilidade dos pontos maus da minha vida, noemadamente aqueles que conheço de sobra.

E não me leves a mal, nem interpretes mal o que vou dizer, mas acho que há uma grande disparidade entre o que se considera como real de um filme, e o real de facto, e não sei porquê demasiadas pessoas optam pelo real provável, e isso é condição própria para impossibilitar o real real.

beijo

Anónimo disse...

Não gostei do Before Sunrise e gostei imenso do Before Sunset. Talvez o Vanus tenha razão, talvez tenha gostado porque pertenço à mesma geração. Mas não há problema no facto do filme se dirigir a um público restrito. As obras primas, as obras absolutas são raras.

derFred

Anónimo disse...

Um dia conto-te uma história de encontros e desencontros... ;)

CotaMarada

vanus disse...

derFred,

concordo plenamente no que dizes, não há nenhum problema no facto do filme se dirigir a um só público, talvez tenha passado a ideia errada, eu tenho muito pouca capacidade de sintese e de manter as ideias fechadas.

O que quis dizer foi que para mim, é um filme demasiado fechado, demasiado digerido com as explicações todas expostas de forma organizada, dá pouco espaço para se entrar nele. Sendo absolutamente taxativa (coisa que detesto), é um filme mainstream na forma, ou pior, na fórmula, com um conteúdo apelativo.

Não tenho nada contra os filmes que visam um só público, quer seja ele geracional, quer seja intelectual, cultural, ou outro qualquer, nem concordo que se deva baixar o nível de exigência para que um filme seja compreendido, nada disso, as obras primas são exactamente o que referes, e normalmente inserem-se dentro deste tipo de exclusão.
Mas este filme, senti-o "feito para" um público, sinto-o muito pouco válido por si, em si como obra, e acho que a arte, seja qual for a sua expressão deve conter-se a si própria, esse é o seu valor, se depois é apreciada, compreendida, valorizada, isso é indiferente, depende dos gostos e dos interesses de cada um, da capacidade individual de compreensão, da edução, do conhecimento, etc.

Eu não gostei do filme por este motivo, mas claro isto é apenas a minha forma de me sentir tocada, há coisas que me tocam e se encerram no próprio toque, e há coisas que me tocam e me abrem para a procura da sua continuidade.

Lisa disse...

"E um olhar para trás e reconhecer que o seguir em frente, ainda que fosse o único caminho possível, não é necessariamente a forma perfeita de nos mantermos fiéis a nós próprios, senhores do nosso destino, senhores do nosso direito ao amor sem compromissos de obrigações pequenas e limitativas."
Exactamente.
Lindas, as tuas palavras. Conta comigo para o clube dos românticos incuráveis e que acreditam (porque precisam de acreditar?) no amor incondicional.
E que se recusam a achar que é mais fácil seguir em frente e ficar com lindas recordações, que o tal amor pode sobreviver a uma convivência e partilha diária.
É uma utopia como qualquer outra...

Anónimo disse...

Para a Vanus: percebo o que queres dizer. Se bem me lembro, o filme foi feito em estreita colaboração entre o realizador e os dois actores e está muito ligado à experiência pessoal dos três, às grandes questões desta fase da vida deles. Eu deixei-me seduzir pelos actores, pelas personagens e pelos temas das conversas. E também por aquele passeio por Paris.

derFred

Hipatia disse...

Sabes, Vanus, também gostei mais do Before Sunrise. Mas, agora, depois de ver o Before Sunset, não consigo imaginar um sem o outro. E quando falava em real, estava a referir-me ao próprio tempo dos filmes que - mesmo sabendo que implicaram cortes e montagens - foram feitos de forma a que acompanhássemos de facto os encontros daqueles dois em tempo real. E, dez anos depois, o novo encontro também retratado em tempo real. É como rever amigos com que nos identificamos dez anos atrás e encontrar ainda hoje pontos em comum. Por isso dizia que posso vestir as personagens. Além do tempo real dos próprios filmes, há também a passagem de tempo real para actores e realizador. E os espectadores, claro. O Before Sunset também mostra esse tempo que passou por eles, com eles, connosco. Daqui a dez anos, talvez haja um "Before Noon" ou algo assim. E eu ia gostar de os reencontrar e, ao mesmo tempo, fazer um novo exercício de reencontro comigo. Apesar de tudo o que conheço bem demais, apesar da saudade, apesar do peso do tempo.

Um é mais filme do que o outro, sem dúvida. E teve na altura uma dose de novidade e frescura que este já não tem. Mas eu gostei de me ver ali, de ser a minha geração, de serem as minhas crises e as minhas conquistas. Já não dá para ver um sem o outro :)

Beijo

Hipatia disse...

DerFred, acho que já respondi acima. Mas ainda queria dizer que adorei ler a tua troca de impressões com a miga :)

Hipatia disse...

Vou ficar à espera dessa história, Cota :) Um dia destes... no Piolho, talvez...

;-)

Hipatia disse...

Obrigada, Lisa :)

Mas há mesmo situações em que não há reencontros possíveis. E essa é a minha grande pena.

Mesmo lamentando alguns caminhos, pesa-me a impossibilidade de regresso, de poder voltar a escolher. Mesmo que a escolha nem fosse minha para fazer. Mesmo que não houvesse outro caminho. Agrada-me, por isso, ver uma história onde não há portas fechadas. Faz-me bem à alma :)))

Anónimo disse...

só vi o 2º. achei giro mas não me marcou assim tanto ;)

bjcs

becksfan

Hipatia disse...

Talvez esteja na hora de veres o primeiro ;-)

Beijinho