2006-07-21

Pulsão


("roubada" à Emiéle, que tinha "roubado" antes ao Zeca da Nau)

A vida é uma coisa a que me habituei
adeus susto e absurdo e sobressalto e espanto

Ruy Belo, in Como Quem Escreve Com Sentimentos


O
Luís ofereceu-me este vídeo ali em baixo numa caixa de comentários e ando para arranjar forma de o pôr na primeira página de alguma forma. Acho que vai ser esta a forma. O vídeo refere-se à espécie humana como macacos e nenhum de nós tem dúvidas – já que sempre aprendeu isso e leu sobre isso – que somos primatas e temos antepassados comuns com todos os macacos. E, no entanto, emocionalmente é-nos difícil assumir esse nosso lugar natural, mergulhados que estamos numa espécie de mania de que somos superiores, que a Terra é nossa para dominar e que toda a vida que a habita, bem como todos os recursos que a compõem, são nossos para explorar à exaustão. Esta falta de consciência do nosso lado animal faz parte da atitude do Homem perante o dia a dia. Talvez seja por isso que, quando falamos do nosso lado animal, quase sempre o limitemos aos instintos mais primários, como a raiva e o sexo. Esquecemos que, embora adormecidos muita vez, todos os nossos sentidos são animais e, comparativamente, alguns deles bem empobrecidos perante alguns dos animais que connosco partilham a Terra. Talvez seja a concessão da espécie a um grande e pesado cérebro, feito em camadas, sendo que a mais evoluída tenta, ao jeito do que faz o Homem à natureza, controlar e domar as partes mais "primitivas".

E, no entanto, se somos assim uma espécie de semi-deuses, como gostamos de achar, a meio caminho entre os animais (os outros, claro, que nunca nos sabemos realmente posicionar entre eles como parte do grupo) e as divindades (que sempre criamos à nossa imagem), porque não andaremos a fazer um serviço melhor na gestão do(s) nosso(s) destino(s)? Ganhamos consciência, é verdade. Estamos condenados a ela. Mas há quase que uma tendência natural para a esquecermos, como se o compromisso com essa nossa vontade de ser mais do que animais falhasse demasiadas vezes, deixando à luz a raiva, o instinto, a violência.

Entre os nossos primos primatas, encontra-se o Bonobo, ou chimpanzé pigmeu, que sempre me fascinou e sobre o qual não sei – admito – o suficiente. Sei, no entanto, que tem uma postura mais erecta do que o chimpanzé, que um deles, chamado Kanzi – objecto de estudo no Centro de Pesquisa da Linguagem de Decatur, nos E.U.A. – parece ter sido capaz de "inventar" as suas próprias palavras (entrando assim no domínio do que o Homem pensa que é só dele) e que têm uma organização social muito particular. Essa estrutura social é essencialmente matriarcal, mas como também parece assentar em fundamentos que os afastam do tradicional chavão do "domínio" e do "poder", muitos ainda acreditam que terão antes uma estrutura partilhada entre os sexos.

Ora, o que mais me fascina nos Bonobo é exactamente a forma como gerem as suas relações sociais: pelo sexo. O sexo é entre todos e serve para tudo. Qualquer atrito é resolvido com uma boa cambalhota e, depois – exaurida a pulsão – a sociedade pode continuar com as actividades comezinhas. Temos, por isso, talvez o mais pacífico dos primatas, que prefere dar uma queca a partir para a violência. Encontrou um mecanismo, que temos tendência a associar ao nosso cérebro instintivo, para resolver querelas, enquanto a maioria dos animais recorre à força e a demonstrações de força. Aliás, nem parecem estar muito preocupados em saber quem manda ou como manda. A sociedade funciona sem grandes ênfases nas hierarquias, sem dramas de luta pelo poder, humilhação dos vencidos, glórias para os heróis. Um bocadinho de sexo e pronto.

E, enquanto anda o Homem todo preocupado em saber se parece bem ou mal beijar no primeiro encontro, se fica ou não com fama de fácil por fazer sexo pelo sexo, nos períodos de intervalo entre as diferentes lutas macacóides para trepar ao topo de uma qualquer hierarquia, os Bonobos fazem sexo e, depois, libertada toda a energia, já não há vontade para dar porradas na cabeça do vizinho.

Eu olho para a nossa sociedade – dos supostos semi-deuses, entesados na sua pretensa importância e a olhar de cima para todos os outros animais com que partilha este frágil sopro de essência a que chamamos vida – e fico com a sensação de que erramos as escolhas em algum lugar. É verdade que os Bonobo estão perto da extinção, mas isso não é culpa deles: é culpa do Homem que lhes destruiu o habitat. Mas o Homem também vai destruindo – de forma bem gratuita – o habitat de todos. E, enquanto na sociedade humana não se pode sequer falar de sexo às criancinhas, sendo necessário até discutir quem tem ou não direito a dar "educação sexual" aos fedelhos, mas já se permite que essas mesmas criancinhas ponham autógrafos e palavras de ódio nas bombas que serão lançadas para matar as criancinhas do vizinho, os Bonobo dão mais uma cambalhota e seguem em frente, felizes da vida: não precisam continuar a sentir-se sozinhos no meio de não sei quantos biliões de semelhantes; nem precisam de inventar uma palavra – ou um som – para o ódio, nem fazer bombas, ou guerras, ou procurar uma ilusória noção de felicidade, sempre distante, sempre amputada de contentamento.

18 comentários:

claire disse...

Somos tão superiores que conseguimos por em extinção nossos primos mais próximos,bonito hein...
Fazemos amor que nem animais.
e só os ratos se adaptam aos nossos modos ....
Para dormir tenho que fazer 1 tal de exercício não pensar nisso ....
Os bonomos são aqueles que tiveram 1 super pré historia no solo e em terreno fértil!?

Emiéle disse...

Que excelente post, Hipatia, e que orgulhosa me sinto em teres aproveitado uma imagem que deixei no meu estaminé par ilustrares o que disseste (embora a foto também tenha sido roubada por mim à Nau Catrineta)
Começares com o Ruy Belo, e apoiada naquele excelente video, (realmente se esperaste para o colocar, ainda bem que saiu esta obra!) este é um post para se guardar num lugar à parte! Gostei imenso de toda a argumentação, do encadeado das ideias e da triste conclusão. Afinal o que é o Homem? Animal, decerto. Deus? Às vezes. E capaz dos gestos mais absurdos que o levam de um extremo ao outro.

Alien disse...

Agora querem acabar também com os pombos nas cidades, porque descobriram que eles cagam nos monumentos e que isso lhes é prejudicial, para além de outras menoridades. Tão ciosos da sua obrazinha e tão indiferentes à vida alheia que, aos olhos do planeta tem toda o mesmo valor... Imagino o que lhes fariam se em vez disso eles se lembrassem do nos fazer alguma coisa séria, como envenenar-nos os filhos, por exemplo.

Que excelente post, Hipatia, digo eu também! :)

Hipatia disse...

Essa parte da pré-história não sei, Claire. Mas confesso-te que fico nauseada quando vejo imagens como a que está ali em cima, ou vejo imagens como a que está no filme. A última do filme, então, é de partir o coração :(

Hipatia disse...

Sabes, Emiéle, esta era a minha forma do reformular o velhinho conceito de "make love, not war". E o vídeo que o Luís me ofereceu (fabuloso mesmo!) mais o teu post e as imagens que lá deixaste (a propósito, corrigi o link e já lá está também o Zeca da Nau: o seu a seu dono), juntamente com uma série de discussões inconsequentes sobre o sexo dos anjos que andei a ler, bailaram raivosas dentro da minha cabeça. Obviamente que escrevi um post muito maior, mas lembras-te da conversa das notas na margem? Pus este também de dieta. Ainda bem que achas que as ideias ficaram bem encadeadas :)

Obrigada!

Hipatia disse...

Lá chegará o dia em que, com a quantidade de merda que já nos metem na comida, acabaremos por ver os nossos filhos envenenados, Alien.

E coitados dos pombos! Como se tivessem culpa... só estão a tentar sobreviver no único nicho ecológico que ainda não lhes roubamos :(

Obrigada!

claire disse...

Miga este tema faz-me sentir que nem merda,odeio isto.vou fugir para os teus beijos os teus braços as tuas rugas ....

Hipatia disse...

Mas eu às vezes preciso mesmo falar mais do que de rugas e beijos e braços... :)

claire disse...

Ainda bem Hipatia. E é urgentíssimo.Como tão bem te diz a Emiéle o teu post esta excelente,toca-me muito fundo e doi.Já estou com a lagrimita no canto do olho.

Hipatia disse...

Dói para caraças! Porque não vejo sequer o que possa ser alterado. É como diz o Ruy Belo: habituamo-nos à vida tal como ela é e já não sabemos o que fazer para a mudar :(

juliana disse...

somebody tell me
cause i really got to know
i read a lot of history
but tings nuh really show no no
why dem drop the bombs ina arabia
why the children bawl and suffer ina africa
leaders of the world just fighting for superpower
but judgement ago fall upon dem head like rain shower
[...]

johnny handsome disse...

Gostei da reflexão sim senhora. Mas acho que esta cena da macacada não está esmiuçada até ao fim. Os primatas não são melhores que os homens e há-os que até recorrem ao canibalismo. Têm guerras e lutas políticas tal como os humanos.
Quanto aos Bonobo seria interessante saber, quando dois machos discutem, quem é que leva que quecas....Sim, não é resolver os problemas e andar a dar quecas na fêmea alheia...Isto tem que se lhe diga caríssima Hipatia;))
Mas que os homens têm muito que aprender com alguns animais isso sim, mas prefiro os golfinhos que são mais organizados, inteligentes e menos brigões. Afinal, os macacos ainda são muito parecidos com o homem para eu gostar deles...;)))

Hipatia disse...

Suponho que faltam para ai umas aspas e assim, não é Juliana?... Ou, pelo menos, qualquer coisita que proporcionasse uma resposta... É que já vi isto tim tim por tim tim em outros sítios e... bem, adiante.

Hipatia disse...

Boas, Johnny.

Os golfinhos são mais violentos do que os Bonobo. O mito de animal amável e não violento é apenas isso: mito. Quanto aos Bonobo, o sexo é entre todos e a propósito de tudo. Não distingue nem idades nem sexos. E, sim, machos com machos também e sem qualquer estigma social. A pulsão é satisfeita e não há qualquer tipo de preconceito em relação ao sexo do parceiro. Não tem nada, mas mesmo nada, a ver com fêmeas alheias até porque, a ser alguma coisa, a sociedade é matriarcal, pelo que apenas se poderia falar em "machos alheios". E na sociedade Bonobo, se há coisa que mal se percepciona é qualquer tipo de luta política, ou de outro género. Bem distintos, aliás, do chimpanzé comum ou outros primatas, que lutam por tudo e mais alguma coisa, incluindo o direito ao sexo :)

juliane disse...

olá Hipatia, é obvio que ja deves ter houvido algures por ai este trexo... é de uma musica bastante conhecida que anda por aki e por ali a ser escutada... o nome é "superior" dos Gentleman.. A falta de aspas era para suscitar a curiosidade deixando apenas os [...] hehehe...
beijos ;)

Hipatia disse...

Gostei bem mais desta resposta. Obrigada por ela. A outra não me despertou curiosidade. Apenas falta de paciência para o óbvio plágio.

Bem vinda à Voz

johnny handsome disse...

Ora bola Hipatia, quer dizer isso que é tipo Sodoma e Gomorra mas em mais esquisito ainda???? ;)) Nááá...Esses bonobo não me convencem com esse estilo de vida...Prefiro andar no meio dos golfinhos que até ver só lhes conheço comportamento violento com intromissões dos humanos.
Já agora...O sexo "terapêutico" entre os bonobo é com mútuo acordo ou envolve submissão de algum deles??? Só uma curiosidade....;)

P.S.- Gostei do teu espaço. Voltarei com mais tempo.

Hipatia disse...

LOL

Acabei de imaginar um bonobo com uma barbicha à Freud a tentar descortinar o terapêutico - ou porque terá de ser terapêutico - uma coisa que sempre "apenas" foi :)

Obrigada. E volta sim :)