2008-01-02

Apeando os santinhos

aqui


Adianta de alguma coisa, num Estado supostamente laico que, sistematicamente, esquece que há mais confissões religiosas e que muitos nem sequer têm alguma? E depois ainda há as "virgens ofendidas" a saltarem logo em defesa do nome das escolinhas, coitadinhas. Como se houvesse mal em, por uma vez, alguma coisa neste País de treta ser mesmo laica, ou pretenda ser. Convenhamos que é mesmo demais para alguém como eu, que nem sequer acredito na virgem. Até por uma questão de lógica: se Deus é assim tão magnânimo e resolveu pôr uma mulher a parir-lhe um filho, pela certa terá havido orgasmos múltiplos de proporções cósmicas. No mínimo! O Paraíso sempre se fez de mais do que anjinhos barrocos em contemplação e sem serventia...

11 comentários:

maria_arvore disse...

Como refere a notícia que citas em Lisboa vai ser lindo se as escolas quiserem valorizar o património histórico da freguesia que se conserva na toponímia. ;))
Porque se houvesse tomates podiam fazer o mesmo na denominação das freguesias e ,por exemplo, cortar o Santa Maria quando toda a gente conhece e aceita como Belém ou Olivais. E se é por ser de novo, até podem ter tomates e fazer uma reestruturação administrativa do nº de freguesias.:) Aliás, refira-se que na criação de novas freguesias no católico ano de 1959, significativamente a freguesia dos Prazeres nasceu sem a Nossa Senhora dos.

E depois deste lençol, tenho de te dizer que adorei a imagem dos "orgasmos múltiplos de proporções cósmicas". :)

Miguel Marujo disse...

a notícia foi desmentida pelo MEd. O CM atirou à água.

Hipatia disse...

Por mim, apeavam-se mesmo todos os nomes de santinhos de todos os edifícios públicos e da toponímia. É que, apesar de muitos não quererem ver (e nem me venham com maiorias, que um Estado viável tem de integrar todos os que o habitam e, que eu saiba, quando toca a pagar impostos para sustentar todos e mais alguns, ninguém me pergunta se sou Católica), este País tem mais gente do que aquela que acredita na existência desses pobres sofredores que alguém depois disse que até faziam milagres. Ora, eu nem acredito em milagres, tirando o milagre da vida e, esse, é aquele que mais querem espartilhar em dogmas.

Hipatia disse...

Uma pena, então, Miguel. Ainda tive esperanças que por algum lado - até o mais estúpido - o País (e o seu Estado) começasse a reconhecer que há mais gente a pagar impostos e a sustentar esta choldra em que o Portugalinho se vai transformando, mantendo inclusive velhas amarras sem sentido. E há mesmo muitos que não acreditam em santinhos. E olha que eu até preferia ver o Santo Ildefonso apeadito da minha freguesia natal. Eu nem sei quem foi o tipo, muito menos porque alguém o "decretou" santo...

maria_arvore disse...

Portugal ainda não é um estado laico e republicano. ;) Na I República apearam os santinhos todos mas... estão mortos...

Hipatia disse...

Não é nem sei se alguma vez será. Basta ver como, mesmo os mais laicos, acham que não há anormalidade nenhuma nos nomes de santinhos que se espalham por todo o lado. E, num instante, estão a defender o nome como se fosse um posto, alguns até em nome da liberdade do baptismo instituído, esquecendo que é a própria lógica do baptismo que me parece estranha e, em última análise, até acintosa para quem não pertence ao credo católico nem com ele quer ter seja o que for, mas se verga, como sempre, à tradição mais do que deturpada de País católico. E, no fim, cheira-me tudo a esturro: no dia em que as regras do dogma voltarem a ser cumpridas, eu até sou capaz de aceitar; enquanto o anacronismo do "não praticante" (eu não sei como alguém pode ser o que não pratica) então deixem-se de tretas da tradição e afins.

Filipa disse...

Não percebo o stress. Não vejo como o facto de se retirar o Santo a qualquer escola ou entidade pública, poderá facilitar a abertura de multiplicidade religiosa.

Francamente não estou a ver vantagens. Vejo mais desvantagens e burocracias inúteis... Goste-se ou não somos católicos. Hoje em dia reza-se o terço em Maio em alguma Santa escola? E quem não é religioso? Alguém já sentiu a sua religião (ou não-religião) ameaçada por frequentar uma escola com um nome religioso?! E não há escolas para todos os gostos?! Ora porra, não me lixem!

Já agora acabe-se com os padroeiros e os feriados religiosos.

E não há mais nada interessante para ser feito nas escolas? que tal começar pela educação sexual? Isso sim!

beijinhoooooo e bomano! ;)

Hipatia disse...

Não, Filipa, não somos todos católicos. Tirando todos os que não o são de facto, nem muitos daqueles que se dizem católicos o são. Se o fossem, quantos estavam divorciados? E quantas tinham feito abortos? E quantos iam à Igreja? E quantos deixariam de violar diariamente quase todos os pecados mortais? E quantos permitiriam realmente uma educação sexual a sério nas escolas, sem falsos moralismos? E não te parecia melhor, por exemplo, teres um Hospital Aristides Sousa Mendes em lugar de um Hospital com um nome de um santo qualquer?

Bom 2008!

Filipa disse...

Parecia-me melhor um hospital novinho com esse nome sim, do que alterar o nome de um hospital velho. Sinceramente, o nome de um santo dado a uma entidade pública não me faz comichão. É-me indiferente. Irritam-me mais as ruas do Oceano, das Conchas, do Mar, das Ninfas e do raio que os partam com os temas de ruas marítimas.

E claro, concordo: há os não católicos e os católicos que deixam muito a desejar... Não vejo outra categoria.

Educação sexual? No outro dia ouvi uma gravação de rádio do programa da manhã da Ant3na de 1999 ou 2000.
Nesse dia a notícia de abertura era: "a educação sexual nas escolas vai mesmo para a frente...."

....

Hipatia disse...

Estava para aqui a pensar que a moralidade por decreto - neste País e neste Governo - é demasiado selectiva. E que, às tantas, temos apenas o que merecemos. Basta ver a questão da educação sexual: os mesmo pais que despejam os putos nas escolas e esperam que eles saiam educados e ensinados, levantam num instante a voz se se explica às criancinhas, coitadinhas, como é que afinal cá chegaram sem bilhete de Paris.

Mas o Estado cada vez mais paternalista teme também a laicidade: retirar poder a Deus é desviar as pessoas do respeito só porque sim. E o respeito só porque sim é o típico de quem não sabe, não quer saber ou, pior, não quer que se saiba.

Apear os santinhos era só um caminho. Obviamente condenado à nascença.

Anónimo disse...

Mais Vozes

heresias de ano novo?

uma coisa é retirarem das escolas as cruzes e os santinhos, outra coisa é passar uma borracha nos nomes da coisa para lhe apagar o passado, extinguir a cultura... há medidas tão laicas, tão laicas, que chegam a parecer fundamentalistas! :-P
fábula | | Email | Homepage | 01.03.08 - 7:15 pm | #

--------------------------------------------------------------------------------

Nunca poderia ser heresia. Para tal, teria sido necessário que eu alguma vez tivesse reconhecido alguma validade à norma que, no entretanto, estivesse a violar. E eu nunca me verguei ao dogma católico, nem sequer pelo baptismo que os meus pais – felizmente – nunca me impuseram sem antes me terem deixado ter idade suficiente para lhes dizer se queria ou não. E eu não quis. A religião organizada é uma daquelas pústulas com que as sociedades têm de viver, mesmo quando já não fazem sentido para ninguém e todos quebram todas as regras e mais algumas, ou então dizem que não mas não praticam. Ora eu não sou nada que não pratique e não tenho de me vergar à visão dos outros que tanto se esforçam por mediar o “divino” e assim manterem poder sobre quem venera. A relação com qualquer divindade é pessoal e intransmissível e, nesse sentido, os santinhos são do mais estranho que há: somos obrigados a confiar que tiveram uma relação especial com a divindade, muitas vezes fora dos cânones; depois são-nos impostos como exemplos e, no entanto, não conheço um único católico que lhes quisesse seguir qualquer exemplo. Então, porque será tão importante deixá-los pendurados na toponímia e afins?
Hipatia | | Email | Homepage | 01.04.08 - 2:03 pm | #

--------------------------------------------------------------------------------

a pergunta era uma espécie de ironia retórica (era suposto ter - alguma - piada), como podes confirmar pelo que eu escrevi a seguir...
fábula | | Email | Homepage | 01.04.08 - 8:25 pm | #

--------------------------------------------------------------------------------

Eu sei

Mas eu, sobre este tema, exagero sempre
Hipatia | | Email | Homepage | 01.04.08 - 9:30 pm | #