2008-07-28

Cimbalino

.
É preciso dizer que naquela altura vivia-se muito pela imaginação. Ainda quase não se via televisão, os livros eram mais reais do que o real quotidiano.

Manuel Alegre – Rafael

Lembro-me de um café perto da Escola Secundária. Era um café banal, escuro, como muitos outros cafés que se espalham pelas esquinas do Porto. Tinha até uma tabacaria, na porta ao lado, daquelas que ficam num pequeno cubículo, quase um corredor, onde só cabe uma pessoa. Foi nessa tabacaria que comprei os primeiros cigarros, avulso claro, que o dinheiro era contado até ao último centavo. E a passagem na tabacaria era paragem obrigatória antes de entrar no café.

É que esse café tinha – suponho que ainda tenha – um recuado. A parte de frente do café era uma montra, com grandes vidros para a rua, mesas pequenas, normalmente ocupadas por senhores de chapéu entretidos a lerem o jornal. Mas, lá atrás, escondidas por uns lambris de madeira falsa, ficavam as mesas onde se podia fumar sem que os professores nos vissem. E sonhar o mundo de amanhã, que ia ser nosso.

Nesse espaço reservado, onde cabiam pouco mais de quatro mesas, estão as memórias de muitas das minhas primeiras iniciações. Lembro-me de quando me emprestaram um livro já gasto com os poemas do Jim Morrison; lembro-me dos primeiros finos, da primeira Amêndoa Amarga. Lembro-me dos sorrisos e dos primeiros namoricos. Lembro-me da troca de vinis e da forma como gravávamos cassetes roufenhas como se fossem preciosidades. Lembro-me dos olhos do Rui, azuis fosfato, grandes, inquiridores. Lembro-me da bonomia do empregado, do sorriso com que me trazia o meu cimbalino e copo de água. Lembro-me de conversas intermináveis, em jeito de discussão, sobre prioridades, sonhos, projectos para fazer um mundo melhor. Lembro-me de combinar as primeiras idas à discoteca - de tarde porque era grátis para as mulheres e não havia necessidade de dar explicações em casa. Lembro-me dos rostos todos, de cada nome, de cada sonho e cada promessa de vida como se tivesse estado lá ontem.

Mas não estive.

Desse grupo de amigos – que pensei que iria preservar para todo o sempre – perdi o contacto com quase todos. A alguns, que recordo tão bem nos seus rostos adolescentes, custa-me reconhecê-los quando nos cruzamos em qualquer canto. Olho-os com espanto, pensando como estão velhos, esquecendo por momentos que também eu envelheci. A maior parte dos sonhos ficou perdida. A vida tomou rumos insuspeitos. Nunca conseguimos mudar o mundo.

E o café também mudou, acho. Não voltei mais lá depois de, passados uns anos, ter entrado e pedido o meu cimbalino e copo de água. O rosto que me trouxe o pedido não era conhecido, não tinha sorriso. Tentou cobrar-me dez escudos por um copo de água…

Recordo um café perdido numa cápsula de tempo. Um café com recuado onde um grupo de amigos se reunia. Também o grupo ficou preso no tempo, preso na minha memória.


E, como não ponho preço nas minhas memórias, não regresso mais àquele café. Poderiam querer cobrar-me dez escudos por um pedaço de mim…

_____________
(A minha amiga mais antiga, companheira de Escola Primária, viu hoje o filho pela primeira vez, numa ecografia em que o rapaz, pouco dado a pruridos, deixou as pernas bem abertas para que não restassem dúvidas de que seria um menino da mamã. E, à conta disso, lembrei-me de um dos posts que mais gostei de escrever sobre amigos e memórias.)

11 comentários:

Emiele disse...

Parabéns, Hipatia.
Um dos melhores posts que tenho lido ultimamente.

Ainda o estou a saborear, devagarinho como o teu «cimbalino».
E vou voltar agora ao princípio de novo...

I. disse...

Era só trocar a palavra cimbalino por bica, e podia ser minha, esta memória.

E o Sr. Manel (o dono, também conhecido por Obelix) agora é um cabeleireiro, ou era, a última vez que ali passei.

Bolas, adorei. Muito bom. E fiquei com uma pontinha de nostalgia...

deep disse...

O teu texto trouxe-me à memória as minhas próprias vivências, os amigos que ficaram para trás... Parece-me que em todas as terras há - ou havia - assim um café com um espaço recuado onde ficávamos "abrigados" do olhar dos mais velhos, com a cumplicidade dos empregados. :)

As minhas amigas mais antigas já foram mães há alguns anos... nem me lembro da sensação que experimentei quando soube que já não jogávamos na mesma equipa!

Boa semana. :)

Hipatia disse...

Já quando publiquei este post originalmente (em 2005), descobri que despertou memórias felizes a todos quantos o leram. Porque todos tivemos um café destes e um grupo de amigos assim e todos também fomos perdendo o contacto com pessoas ao longo da vida, não é?

Hipatia disse...

Só que nunca podia ser bica, lol. Até quando vou para os lados da "mourolândia" tenho sempre vontade de continuar a pedir o meu velhinho cimbalino. Acabo a pedir café, que sempre é igual em todo o lado ;)

Hipatia disse...

Pois, Deep. Esta amiga era das poucas que, tal como eu, ainda não tinha gerado descendência. Agora, cada vez mais, cobram-me o filho que nem sei se quero ter. Como se fosse menos mulher por não o ter; como se as mentalidades permanecessem irredutivelmente datadas e o papel da mulher fosse parir filhos. E o pior é que sei que nem o fazem por mal e, por isso mesmo, nem sequer se justifica a minha indignação.

I. disse...

Aqui a malcriadona esqueceu-se de dar os parabéns pela tua amiga. Pff, onde é que esta gente arranja este modos?

De uma não-mãe para uma não-mãe: solidariedade. Essa conversa dava pano para mangas. Os anos em que ouvi o "quando fores mãe logo vês". E digam por bem ou por mal, o olhar e sorrisinho de superioridade magoa. Agora já não dizem nada, mas o olhar é o mesmo.
Ah, um dia passei-me e corrigi: "SE um dia for mãe. Conheces a minha vida, não preciso de dizer mais nada". E, por uma vez, quem ficou à rasca não fui eu. Soube-me bem, a vingança.
Donde, justifica-se a tua indignação, que seringarem-nos com isso demonstra, ao menos, falta de sensibilidade.

Hipatia disse...

Há coisas que cada vez mais me convenço que nunca vão mudar, ou pelo menos não mudarão durante o meu tempo de vida. Por isso já nem sequer me irrito. Há muito que sei que, para quase todos, há uma forte carga de inveja sobre a minha pretensa liberdade e, só por isso, me tentam arremessar com a prole e uma qualquer tentativa manhosa para me fazerem sentir culpada por não ter a minha. Já nem vale a pena! Depois, depende sempre de quem o diz e de como o diz, claro. A minha avó, por exemplo, está sempre perdoada por o dizer. Qualquer amiga que reclame de não ter tempo para ir ao cinema, já não. Somos nós que fazemos as nossas escolhas e também só a nós calha viver com os resultados dessas escolhas.

maria_arvore disse...

Também tive um café desses junto ao Liceu onde tomava bicas e fumava SG Filtro e cujas pessoas resistem na minha memória. Algumas tanto que ainda hoje tenho uma panca por Pitinhos. ;))

O maior desconcerto é quando encontro alguém hoje e estranho que estejam carecas ou com filhos crescidos. ;)

Envio também parabéns e felicidades à tua amiga mamã.:) E como partilho com ela essa característica sempre digo que é uma opção pessoal e intransmissível com acesso vedado a palpites. ;))

Hipatia disse...

Eu na altura fumava Ventil mas lá, na tal tabacaria, vendiam-se avulso cigarros Valmont. Lembras-te deles?

E, sim, estão todos casados (ou divorciados) e carecas e com barriga de pai de família; e elas com madeixas e matronas com filhos e ar de dona de casa. Também fico desconsertada, ao ponto de pensar que os anos afinal nem fizeram os estragos previstos em mim, que também podia estar hoje matrona e com ar de dona de casa, com um marido barrigudo e careca a tiracolo e filhos crescidos :S

Quanto a mim, ficarei para sempre com uma panca por olhos azuis fosfato e, no entanto, nunca mais vi nenhuns iguais ;-)

A gravidez da minha amiga está a ser complicada e a obrigá-la a repouso total. Mas ver o puto na ecografia compensou qualquer desconforto. E acho que é assim que deve ser: se chegamos a decidir embarcar na aventura da maternidade, então temos de estar preparadas para tudo. Só não sei se alguma vez vou estar.

Anónimo disse...

Mais Vozes

Miúda, tu v lá se acordas, essa porra de café de que falas na fica Porto, isso é lá no alto, no bom retiro, mesmo em frente à Reinaldo dos Santos .
frogas | | 07.29.08 - 1:07 am | #

--------------------------------------------------------------------------------

O q mais me chateia é as pessoas mudarem ao mesmo ritmo e no mesmo sentido das coisas . o café de que te falo está mais bem apresentado, cadeiras e mesas modernas aparentemente mais bem vestidas de aspecto, tudo mais refinado mais elegante tudo muito mais dentro das normas . como seria de esperar também não encontrei lá nenhum dos companheiros desses tempos ,como já o sabia antes de entrar não os poderia encontrar em lugar nenhum . por vezes ,noutros locais, cruzo-me com gente que se sentava e ria á mesma mesa que eu. hoje perguntam-me educadamente pela vida que levo, por vezes, até acontece tentarem saber o que faço, já me aconteceu mirrarem-me e dizerem-me que estou na mesma ao que por norma respondo q estou mais gordo . geralmente provoco risos contidos com a graça que o não é, geralmente não tenho tempo nem vontade para lhes dizer que eles também
frogas | | 07.29.08 - 1:39 am | #

--------------------------------------------------------------------------------

Todos nós temos um café destes e, por isso mesmo, é que este texto hoje, tal como da primeira vez que o publiquei, bate certeiro em alguma esquina esquecida das nossas memórias

Olha só o que me respondeste em 2005:

«As palavras têm essa coisa bonita que é pôr-nos a recordar coisas que as imagens pelo seu realismo nunca nos permitiriam
Por certo que o teu retiro de adolescência em nada deve de ser semelhante a outros que eventualmente possam ter existido por esse mundo fora, só que as palavras por ti utilizadas permitem-nos pintar as nossas saudades com cores muito idênticas aquelas que tu pretendes transmitir»
Hipatia | | Email | Homepage | 07.30.08 - 2:07 pm | #

--------------------------------------------------------------------------------

Eu "tinha" um café desses. Aliás eu "tive" vários cafés. Mas aquele café hoje é um bazar chinês. Já não se bebem bicas e ao contrário de me pedirem 10 paus por um copo de água cobram-me qualquer coisa pelo trabalho mais injusto que há. O infantil.
PreDatado | | Email | Homepage | 07.30.08 - 7:37 pm | #

--------------------------------------------------------------------------------

Ui! Assim ainda é pior Pelo menos, o "meu café" ainda lá está no sítio, cada vez mais pimpão ao lado da saída de uma estação do Metro que lhe injectou vida nova. Mas nunca mais será o mesmo e, mesmo que lhe passe à porta, nunca mais lá entrei.
Hipatia | | Email | Homepage | 07.30.08 - 8:05 pm | #

--------------------------------------------------------------------------------

pois
frogas | | 07.31.08 - 2:28 am | #

--------------------------------------------------------------------------------

E não deixa de ser verdade que em quase tudo sou cada vez menos exigente com os pormenores
frogas | | 07.31.08 - 2:40 am | #

--------------------------------------------------------------------------------

Também eu, mas depende sempre dos pormenores. Em alguns, vou piorando com a idade
Hipatia | | Email | Homepage | 08.03.08 - 4:09 am | #

--------------------------------------------------------------------------------

os cafés passaram a bancos!!

também me lembro!!

nana | | Homepage | 09.03.08 - 1:40 pm | #

--------------------------------------------------------------------------------

Ou a restaurantes. Mas ainda há alguns sobreviventes

Bem-vinda às Vozes, Nana.
Hipatia | | Email | Homepage | 09.04.08 - 2:03 am | #