2009-07-19

Piãozinho


Terra vista da Lua

«(…) ficámos irremediavelmente perplexos e desorientados sobre a nossa situação no mundo desde que soubemos que nos encontrávamos num piãozinho que gira em pleno céu à roda de uma bola de fogo. E quando compreendemos que o nosso Sol era um astro pigmeu perdido entre milhares de milhões de estrelas, relegado para a periferia de uma galaxiazinha dos subúrbios, perdemos toda a certeza fundamental acerca da nossa situação, do nosso destino, do nosso sentido.»

Edgar Morin, As Grandes Questões do Nosso Tempo


Nasci depois da Laika, depois de Yuri Gagarin, de Kennedy ter prometido que o Homem chegaria à Lua; depois do Projecto Mercuri e do Projecto Gemini; nasci depois da Lua ser finalmente pisada. E tenho para mim que o dia em que o Homem viu a Terra do lado de fora foi o início de uma percepção tão diferente do que somos e como somos, como antes o havia sido a tomada de consciência de que a Terra é redonda, de tal forma que nunca mais nada ia ser igual.

De qualquer forma, a tomada de consciência não foi imediata, nem houve mudanças em catadupa. Mas é impossível continuar a imaginar a Terra sem a confrontar com a sua aparência frágil contra o escuro do Universo e a fraca luminescência das estrelas distantes. Tem-nos servido de pouco, que o Planeta não parou de ser paulatinamente destruído, ao ponto de estarmos hoje na vizinhança de um ponto sem retorno, perigando de forma trágica um ecossistema que, até agora, apenas se provou viável neste ponto perdido.

Não sei é se seriamos hoje capazes de pensar seriamente a ecologia, se antes não tivesse havido alguém que sonhou passar além da atmosfera e viu como era do outro lado: à geração dos nossos pais calhou saber como era a Terra vista por fora; à geração dos nossos filhos cabe herdar esta Terra transformada e talvez salvá-la de nós mesmos.

Mais uma vez, sinto-me parte da geração de intervalo, uma que terá muito pouco a legar à história, tirando talvez os telemóveis e a quantidade de sucata que hoje roda connosco, lá na estratosfera e além dela, poluindo também o que fica para além de nós. Mas pelo menos agora sabemos que é frágil. Como é frágil! Um pequeno oásis de vida.

9 comentários:

Bartolomeu disse...

Talvez estejamos a ser demasiadamente radicais, pensando que o nosso papel no microscópico "pião", se resume a telemóveis e sucata.
;)
Um rapaz Franciu, um tal de Antóine qué como quem diz Tóino, Lavoisier, qué como quem diz vai-te lá lavar queu toutavêr, enunciou um princípio marado que tinha a ver com a renovação cíclica desta bagunçada toda.
Ora bem, cumágentes não somos lôrpas, duvidamos dessa treta da data de nascimento, ou seja, com base na talteoria do Tóino, agentes já vem lá dos fundos do tempo caráças... a gentes não tem idade. Isto obviamente deveria ser motivo para, numa optica ambientalísta, já não tropeçarmos no erro da evolução da(s) espécie, mas para isso, tinha de o pai de um certo Darwing ter batido uma punheta em vez de copular ca melher...
Ora porra, isto afinal está masé tudo enovelado e um gajo não atina ca ponta do fio...
;))))
Have a kiss my dear...

I. disse...

É verdade, somos a geração lixo. E ainda por cima lixo do pior, que só acumula e não regenera.
Quando fui comprar o meu anterior telelé a menina da loja ficou banzada quando referi que o anterior já tinha 4 anos - e eu estava danada porque a bateria já estava flipada, e achava mal durar tão pouco. E cada vez duram menos. Não percebo esta mania de trocar tudo pelo último modelo - nunca ouviram a história do Bocage, que andava enrolado numa peça de fazenda porque estava á espera da última moda?

Esta coisa de sermos um piãozinho é gira. Gosto de olhar para cima e imaginar que há mais mundos por lá :)
(com um bocadinho de sorte com vida mais inteligente que cá)

JoãoG disse...

Meu Deus, que texto mais bonito, doce e sensível... é da silly season, só pode ;)

(Gostei muito)

Hipatia disse...

"Ora porra", Bartolomeu? Então isso não era o que falhava ao Adão enquanto a Eva reclamava da falta de parra?

(não sei o que te responder, lol)

Hipatia disse...

Eu gostaria que o Cosmos se povoasse de vida, I. Não sei é se gostaria de ver o que o Homem ia conseguir fazer a essa vida. Esperemos, por isso, que seja bem mais inteligente do que nós e se mantenha convenientemente à distância.

(sabias que mesmo atingindo as metas de Quioto, o mais certo é já não ser possível impedir que a temperatura média da Terra aumente entre 1,1 e 6,4 °C? Estamos fodidos! A Terra provavelmente continuará, a vida tal como a conhecemos é que não deve ter grandes hipóteses: somos hoje a pior praga sobre o Planeta e ainda temos a lata de temer uma qualquer gripe suína)

Hipatia disse...

Então só escrevo coisas bonitas durante a silly season? Grunft!

I. disse...

Sei, sei. E isso deixa-me triste que só visto, porque dá-me a ideia que não aprendemos nada. E se nos expandirmos para outro planeta, às tantas começamos tudo de novo.
E a quantidade de pessoal com filhos que nem se dá ao trabalho de reciclar? Pois é, começando pelo #$% do meu irmão e 2 colegas daqui, que atiram as garrafas de água vazias para o lixo - entre todos contam-se 8 crianças. E eu, sem descendência, que quando morrer fui, a separar lixo e a chatear toda a gente para o fazer. Realmente, vale mesmo a pena, ó palhaços.
(A propósito da gripe A, me mate diz que a natureza anda a fazer um esforço do caraças para nos exterminar, e cheia de razão está ela. As pessoas ficam horrorizadas quando ele diz isto, mas eu não podia concordar mais...)

Hipatia disse...

Falta é só saber quanto na gripe A e outras que tais é da responsabilidade da Natureza e quanto é feito em laboratório, exactamente pelo mesmo espécimen que não descansa enquanto não foder esta merda toda, até a ele mesmo, à cata de lucro a curto prazo.

Anónimo disse...

Mais Vozes

somos parte de algo bem maior que nós, alguns até têm medo de ser uma espécie de átomo quando comparados com o que o Universo tem para nos mostrar...
um dia destes também gostava de ir à lua!
fabulosa | Homepage | 07.20.09 - 6:19 pm | #

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Somos pó de estrelas que, por mero acaso, encontrou um lugar onde o carbono se fez vida. Não sei se será fácil de duplicar. Sei que, para os humanos, está a ser demasiado fácil destruir
Hipatia | Homepage | 07.20.09 - 8:19 pm | #