2009-07-09

Riso


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Gargalho facilmente. Não sou uma pessoa que ria com dificuldade, ou talvez não me leve simplesmente demasiado a sério. Só que às vezes é tão difícil pôr por aqui o tanto que me sei rir com o meu ridículo. Como capturar em palavras o momento em que basta pensar na nossa própria figura e rebentar numa gargalhada? A irritação é tão mais fácil de passar! Os maus humores, por mais passageiros, são tão mais definitivos e definidos nos seus contornos!

Conheço demasiadas pessoas que envenenam a própria vida apenas porque se levam demasiado a sério. Tão a sério que enfiam todas as carapuças, mesmo que tenham de forçar o número para que sirvam. Essas pessoas estão de mau humor o tempo todo, gargalham uma vez por ano, fazem uma piada por década. Passam o dia a inventar desgraças para se sentirem desgraçadas, envenenam todos à sua volta com a sua falta de tolerância para com o riso. E o riso faz bem, bolas! Faz-me especialmente bem quando decorre da minha própria ideia do que é risível e do que em mim é burlesco, extravagante, patético, grotesco, estrambótico.

Mas como passar o humor em simples palavras quando não se sabe das palavras o bastante para que, ao brincar com elas, saiam ideias com uma comicidade natural?

Talvez seja por a alegria só fazer realmente sentido quando partilhada e o pudor me levar a esconder na solidão as tristezas. E o acto de escrever, quase sempre solitário, acaba amarrado a essa dicotomia. Pelo menos o meu, que há muito boa gente capaz de me fazer rebolar no chão às gargalhadas com meia dúzia de frases alucinadas espetadas com naturalidade num qualquer texto. Eu só não sei como inventar essa comicidade sem partilha na hora exacta. Sou demasiado impaciente para alegrias diferidas.

E é também por isso que não sei exibir gargalhadas, mesmo quando as solto várias vezes ao dia, até nos piores dias, até quando seria de supor que nada extravasasse para além do mau humor matinal mantido em permanência até à hora de deitar. É que a gargalhada só é boa e me sabe bem quando chega de improviso e a companhia a faz nascer bem do fundo da minha barriga. Os restantes sorrisos que sei fazer, ficam sempre com qualidade de simples esgares perto da minha gargalhada feliz. E a sorte – a minha sorte – é que ainda vou rindo com uma frequência exorbitante, libertando as endorfinas necessárias para que – ainda que irritada momentaneamente – logo deite as tretas para trás das costas.

Só tenho pena de não saber partilhar demasiadas vezes por aqui o tanto que me rio.

4 comentários:

I. disse...

Não sejas tão dura contigo! Eu já te ouvi a gargalhada e, ainda podendo atestar que é solta, franca e aberta, quase juraria que já a tinha ouvido, quando só te lia e não ta conhecia ao vivo e a cores.
Apesar de na escrita haver mais a tendência de exorcisar os maus humores e tristezas, tu és uma pessoa com risos nas letras. Acho eu. O sentido de humor perpassa, digo eu, e percebe-se ;)

JoãoG disse...

Depois, se uma pessoa do norte não gargalha, fica sempre de trombas com esse mau tempo :P

Hipatia disse...

Sabes, acho que gostava de ter a facilidade para, semana após semana, ser capaz de escrever uns textos como os das "new rules", do Maher. Bem sei que deve ser uma equipa, estilo as "produções fictícias", mas não importa: uma pequena percentagem e eu já ficava satisfeita. E gosto especialmente de humor corrosivo, que diz as verdades que são precisas com ar muito sério. Ora então isso não sou mesmo capaz: ou bem que me rebento a rir e levo os outros comigo, ou bem que falo a sério.

Hipatia disse...

Qual mau tempo? Aquele que se usufrui por ente a Nortada lá para os lados do Caminha ou Moledo, ou serve algo já mais a Sul, tipo Granja ou Espinho? Em qualquer dos casos, em qualquer dos lugares, ainda há a benesse de haver espaço para a toalha, a marmita e o tapa-vento (e carro devidamente estacionado, sem ter de pagar por isso, a menos de um quilómetro da praia), sem aparecer um gangue de assaltantes seguido de um gangue de polícias. Será esse mau tempo? :))