Se Richter tivesse razão, Portugal seria um país de eternos habitantes. Mas há paraísos que se esvaziam por dentro — lugares onde a memória não desaparece, apenas se torna seletiva, dócil, inofensiva.
Estamos nas vesperas do 25 de Abril e a máquina da efeméride já aquece os motores. Celebraremos, como sempre, o que já não nos ameaça. A memória, quando perde os dentes, transforma-se em cerimónia. Em desfile. Em coisa arrumada na gaveta dos feriados nacionais.
Os fantasmas continuam lá, mas já não mordem. E por isso podemos acenar-lhes com tranquilidade, como quem reconhece uma fotografia antiga sem sentir o pulso acelerar. O "velho das botas" pertence agora ao arquivo, não ao medo. E é precisamente essa ausência de perigo que permite a coragem tardia dos nossos dias: a facilidade de homenagear o que já não pode responder, nem contradizer, nem punir.
Entretanto, no vácuo deixado pela utopia, ficaram outros. Não os que mandaram durante décadas com mão de ferro, mas os que sobrevivem em ciclos de quinze minutos. Gente de superfície, de ruído curto, de obra nenhuma. São os gestores do "agora", impecáveis na técnica e vazios na entrega.
Já não há futuro suficiente para chamarmos utopia. Há apenas a administração do presente — limpa, técnica, irrepreensível.
Talvez seja esse o verdadeiro esquecimento: não o ato de perder o passado, mas o de perder, finalmente, a necessidade dele.
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