Dizem que a Geração X foi criada sem aplausos. É verdade, e provavelmente foi o melhor que nos aconteceu. Crescemos com a chave ao pescoço, a resolver avarias de televisores a soco e a aprender que o silêncio de uma casa vazia não é tragédia — é condição. A autonomia não foi uma escolha; foi o kit básico de sobrevivência que veio na caixa, sem manual e sem direito a serviço de apoio ao cliente.
Crescemos com a sombra da Guerra Fria no tecto — a bomba não era metáfora, era probabilidade estatística. Aprendemos cedo que nada estava garantido, nem sequer o amanhã em sentido literal. Quando a ameaça nuclear finalmente se dissipou por falta de orçamento, o mercado apressou-se a preencher o vazio: entrámos na vida activa e encontrámos crises enfileiradas. A entrada na CEE, a bolha dotcom, o subprime, a austeridade de estimação e, para coroar a palhaçada, o Covid e a habitação. Cada vez que respirámos fundo, havia outro "reajustamento estrutural" à espera de nos esvaziar os bolsos. Não nos queixámos. Sabíamos que a reclamação é um luxo de quem acredita que o sistema se importa.
Não somos a geração do trauma performativo nem da resiliência com filtro de Instagram. Somos a geração que se habituou a não precisar de público para funcionar — e que desconfia, por instinto visceral, de qualquer um que precise de validação externa para validar a sua própria existência.
A Hipátia habita aqui por isso. Não como boneco de merchandising para inspirar RHs em burnout, mas como a competência que não precisa de crachá e a lógica que serve de armadura contra a imbecilidade circundante. O nickname é o meu último gesto de higiene: apagar a pessoa para que o pensamento sobreviva sem a biografia a pedir desculpa ou um rosto à espera de "likes". Sem nome, o texto deixa de ter dono e passa a ter apenas o peso da verdade.
E agora, enquanto o governo de Montenegro faz o seu habitual número de equilibrismo para sobreviver mais uma terça-feira, surgem as "reformas" do código do trabalho. A classe média — essa geração sanduíche que passou décadas a amortecer os choques de toda a gente — vê as regras serem alteradas nos últimos metros da maratona. Querem-nos ainda mais expostos, ainda menos protegidos, como se a nossa resiliência histórica fosse um cheque em branco para o abuso estatal. Não pedíamos descanso. Pedíamos apenas a paz e a calma de quem já pagou a sua quota de caos. Não pedíamos aplausos.
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