2026-04-14

Alexandria

Conduzir em Alexandria não é simplesmente deslocar-se de A para B — é participar numa coreografia caótica onde as regras são meras sugestões filosóficas e as faixas de rodagem existem apenas como decoração urbana.

Aqui, ninguém “anda na sua faixa”. Aliás, o conceito de faixa parece ser interpretado como “uma zona vaga onde o carro pode flutuar”. Há quem circule com duas rodas de cada lado do risco contínuo, numa tentativa louvável de agradar a todos os deuses do asfalto ao mesmo tempo. É quase diplomacia rodoviária.

Os limites de velocidade? Um mito urbano. Provavelmente inventados por alguém muito otimista. Cada condutor escolhe a sua própria velocidade com base em critérios altamente científicos, como: “estou com pressa”, “não estou com pressa”, ou “apetece-me”.

Mas o verdadeiro coração do sistema não está nos sinais nem nas regras — está na buzina. A buzina não é um acessório: é uma linguagem. Um leve “pip” pode significar “olá”, “vou passar”, “cuidado”, “estou vivo” ou simplesmente “estou aborrecido”. Um toque mais longo já entra no campo da poesia épica, carregado de emoção e, possivelmente, alguma crítica social.

E depois há a autoestrada, esse palco de bravura onde carros, carrinhas e ocasionalmente conceitos abstratos de ordem coexistem em perfeita desorganização. Veículos deslizam sobre as linhas como se fossem sugestões artísticas, criando padrões dignos de uma exposição moderna.

No fundo, conduzir em Alexandria é libertador. É preciso esquecer tudo o que aprendemos. Aqui não há certo ou errado — há apenas movimento, instinto e uma sinfonia constante de buzinas. E, surpreendentemente, funciona.

Mais ou menos.

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