2026-04-16

A Cura que Vem a Seguir


Decidi ser uma pessoa melhor. Comecei ontem, logo a seguir ao jantar, mas parei hoje às dez da manhã porque o excesso de virtude dá-me enxaquecas e, como todos sabemos, o equilíbrio é a única coisa que separa uma santa de uma pessoa com necessidade urgente de um calmante.

Há uma certa nobreza nesta minha desistência precoce. Enquanto o resto do mundo se esfalfa em shadow work e retiros de silêncio para encontrar uma criança interior que, francamente, já devia ter idade para se sustentar sozinha, eu prefiro a honestidade do meu sofá. A minha terapeuta diz que estou a fugir do processo; eu digo que estou apenas a poupar no copagamento.

A verdade é que a "melhor versão de nós próprios" é uma entidade cansativa que acorda às seis da manhã para beber água com limão e gratidão. Eu, por outro lado, acordo com este cabelo que desafia as leis da gravidade e do bom senso, armada com uma caneca que serve de epitáfio às minhas ambições espirituais.

Dizem que a jornada de mil milhas começa com o primeiro passo. Esqueceram-se de mencionar que, ao segundo passo, podemos perfeitamente descobrir que os sapatos nos fazem bolhas e que a vista daqui, embora ligeiramente deprimente, não exige subscrição mensal.

Há um tipo de pessoa — e toda a gente conhece pelo menos três — que está permanentemente a resolver-se.

Não é um processo discreto. É uma vocação pública, com actualizações regulares e hashtags adequadas. Em Janeiro, fez jejum intermitente e descobriu que o corpo é um templo. Em Março, o templo precisava de ser alinhado, e então veio o ioga, que durou até à lesão no joelho que veio a dever-se, descobriu-se depois, a um desequilíbrio dos chakras que só o reiki conseguia corrigir. O reiki foi substituído pela meditação guiada por uma aplicação sueca, que foi substituída pelo tai chi walking depois de aparecer num reel com 2,3 milhões de visualizações. O tai chi walking consiste, aparentemente, em andar devagar com as mãos abertas. Custa 49 euros por mês.

Há sempre qualquer coisa nova a experimentar, e a novidade é o ponto: o ciclo não serve para chegar a lado nenhum. Serve para estar em movimento. Estar em movimento é a prova de que se está a trabalhar nisso.

Nisso. A palavra é sempre esta, vaga e suficientemente elástica para conter tudo sem nomear nada. Trabalhar nisso. Cuidar de mim. Fazer o meu processo. O processo do quê, exactamente, é uma pergunta que não se faz, porque a resposta implicaria parar, olhar, e identificar a coisa com nome próprio — a relação que não funciona, o trabalho que sufoca, o medo que tem vinte anos e ainda não foi apresentado em sociedade.

Em vez disso, há um peeling novo.

O peeling é de argila vulcânica da Islândia, recomendado por uma influenciadora que também vende suplementos de magnésio e tem um curso online sobre abundância. A pele fica luminosa. A luminosidade é interpretada como progresso. O progresso justifica a compra do próximo produto, que chegará dentro de três a cinco dias úteis com uma carta manuscrita — impressa — sobre a jornada de transformação que está prestes a começar.

A jornada começa sempre na próxima semana.

O que nunca entra na equação é a hipótese de que o problema não precisa de um produto. Precisa de uma conversa difícil, ou de uma decisão que vai custar alguma coisa, ou simplesmente de ser visto sem o filtro de que tudo é uma oportunidade de crescimento pessoal. Às vezes as coisas correm mal e não há lição. Às vezes a vida é estreita e não abre com respiração diafragmática.

Mas isso não tem aplicação. Não tem comunidade no Instagram. Não tem free trial de catorze dias.

E por isso, amanhã talvez tente a dieta da luz. Mas só se a luz for artificial e vier de dentro do frigorífico.

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