2026-07-26

Elogio do sapato feio


Os Crocs são a prova de que a evolução nem sempre caminha na direção da beleza. Às vezes faz um desvio pelo conforto e nunca mais regressa.

​São leves, resistentes, laváveis e ventilados. Em termos de engenharia, irrepreensíveis. Em termos estéticos, parecem ter sido desenhados por uma comissão onde ninguém quis criar conflito. O resultado foi um sapato que não encanta ninguém, mas também já não ofende quem desistiu de impressionar.

​Há um momento na vida em que deixamos de escolher calçado para impressionar os outros e passamos a escolhê-lo para sobreviver ao supermercado, à jardinagem ou a uma tarde inteira de pé. É nesse preciso instante que os Crocs aparecem, discretos, como uma seita silenciosa à espera de novos fiéis. Primeiro rimo-nos de quem os usa. Depois experimentamo-los. Finalmente, damos por nós a defendê-los com um fervor que antes reservávamos para causas nobres.

​— São feios.
— São.
— Parecem queijo suíço para os pés.
— Parecem.
— Mas são confortáveis.

​E é aqui que termina qualquer discussão. Porque há argumentos contra o bom gosto. Contra bolhas nos pés, praticamente nenhuns.

​Os Crocs não são um sapato. São a bandeira branca que erguemos quando percebemos que a vaidade pesa muito mais do que um par de tamancos de borracha.

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