2026-10-28

Chuva

Tenho neste tempo de transição entre um Inverno que se aproxima e um Verão que não vai embora uma tendência recorrente para a melancolia e, enquanto os dias se tornam mais breves, a minha alegria estival esvai-se à velocidade dos pingos gelados das primeiras chuvas.

A minha cidade fica triste também, cada vez mais cinzenta nos seus cinzentos, as neblinas transformam-se em nevoeiro, o cheiro das castanhas envolve-nos e os guarda-chuvas tropeçam-se.

Não há muitos sorrisos por entre os ruídos das gentes que passam. Só pressa em chegar a qualquer destino, afã de fuga para os interiores aquecidos. À porta do café, alguém sacode o guarda-chuva e entra sem olhar para ninguém.

Sinto-me a encolher com os dias, a encolher para o aconchego de uma manta sempre a postos, um casaco de lã tão velho que já não lhe sei os anos, as pantufas que trouxe da Estrela.

Encolho-me no sofá, a TV pronta a suspirar sozinha num último ai com hora pré-programada. Encolho-me no sofá como encolhem os dias e durmo as sestas do frio.

Cheira já a lenha. Os dias encolhem. Eu encolho com os dias e acerto o passo com esta melancolia.

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