Há dias em que me sinto o maquinista.
Não o pessimista, que vê um túnel escuro e se prepara para o pior. Nem o otimista, que vislumbra uma luz ao fundo e acredita que a vida ainda pode surpreendê-lo pela positiva. Muito menos o realista, que identifica um comboio de mercadorias e se limita a reconhecer a evidência.
Não. Eu sou o maquinista.
Aquele que vê três idiotas parados nos carris e percebe, com uma clareza quase ofensiva, que vai sobrar para ele.
Porque os três não estão perdidos. Não desconhecem o perigo. Não precisam de um mapa, de um seminário motivacional ou de uma sessão de esclarecimento sobre segurança ferroviária. Estão simplesmente ali, plantados na linha, convencidos de que o comboio é que tem de aprender a negociar.
E depois há todo um circo à volta: os que discutem se a locomotiva devia ter apitado mais cedo, os que defendem o direito inalienável de cada cidadão a ocupar os carris, os que propõem uma comissão para estudar o fenómeno e os que, perante a inevitabilidade do embate, perguntam se não haverá maneira de transformar o acidente numa oportunidade de crescimento.
Entretanto, o maquinista tem uma pequena questão prática para resolver: há três imbecis à sua frente e o comboio não tem asas.
É esta a parte que me cansa. Não é o túnel, nem a escuridão, nem sequer a perspectiva do desastre. É a recorrente obrigação de calcular travagens de emergência por causa de quem confunde liberdade com ausência de consequências e opinião com competência.
Uma pessoa passa a vida a tentar conduzir o comboio com alguma dignidade, a cumprir horários, a evitar descarrilamentos e a não atropelar ninguém pelo caminho. Depois descobre que há quem faça carreira a deitar-se nos carris e ainda reclame indemnização pelo incómodo de ter sido avisado.
E, no fim, se o comboio parar, a culpa é da falta de dinamismo. Se avançar, é da insensibilidade do maquinista. Se descarrilar, abre-se um inquérito. Se conseguir evitar a tragédia, ninguém agradece: afinal, não fez mais do que a sua obrigação.
Pois.
Às vezes, apetece-me largar os comandos, abrir a porta da locomotiva e perguntar aos três iluminados se querem experimentar conduzir. Mas sei como acabaria: ficariam os três a discutir quem tem prioridade, enquanto eu, por qualquer misteriosa lei da responsabilidade, seria chamada a garantir que o comboio não se atrasava.
O meu problema nunca foi não ver a luz ao fundo do túnel. É ver que a luz é um comboio, que há gente nos carris e que, mesmo assim, esperam que seja eu a resolver o problema.
Ser maquinista é isto: ter a responsabilidade de conduzir, a obrigação de prever o imprevisível e a certeza de que, quando tudo correr mal, haverá sempre alguém na plataforma a explicar o que eu devia ter feito.
Um dia destes, passo-me para o transporte fluvial.
Embora, pensando melhor, ainda me aparece um iluminado a discutir o direito de navegar em sentido contrário.
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