Nada como atualizar a novela nacional em pleno feriado cívico, com os devidos contornos de surrealismo que a pátria merece.
Ah, a diplomacia do futebol moderno.
Em pleno 5 de Outubro, enquanto a República comemora a queda da monarquia e os historiadores se esforçam por manter vivos assuntos que ninguém discute à mesa de jantar, o país é chamado a acompanhar mais um episódio da geopolítica da Bola: Piers Morgan versus Jorge Jesus, com Pedro Proença no papel de bombeiro mediador.
É verdadeiramente maravilhoso.
O treinador da Seleção, num momento de pura afirmação de autoridade, dispara um categórico:
«Pedir desculpa de quê? A quem? Eu não peço desculpas a ninguém!»
Eis que surge no horizonte, vindo de Inglaterra como uma espécie de D. Sebastião do jornalismo sensacionalista, Piers Morgan, procurador oficial do ego de Cristiano Ronaldo, pronto a garantir que o «Ten Hag português» devia retratar-se.
Uma crise diplomática, portanto. Só falta o Conselho de Segurança da ONU.
E, no entanto, pergunto-me: não era há anos tudo um circo?
Com data marcada, juntavam-se os palhaços na bancada, diziam umas bacoradas, posavam para a fotografia e, no dia seguinte, tudo seguia como dantes. Iam lá fazer o frete. Sempre com ar de grande frete: corpos presentes, mas só isso.
Na assistência, o povoléu olhava para a bancada e para os símbolos. Um circo como outro qualquer, mas com data marcada e significado há muito perdido.
Durante anos, enquanto a abundância aparente desconsiderava tradição e história, esta tempestade num copo de água ter-nos-ia parecido perfeitamente normal. Um copo pequenino e, talvez por isso, tão pronto a transbordar.
Enquanto o Brasil discute a sua nova viragem ideológica e Portugal assinala o fim da monarquia, descobrimos que a verdadeira soberania nacional reside em saber se o CR7 volta ou não na próxima convocatória.
Aparentemente, a República pode esperar. O Ronaldo não.
A República que nos perdoe, mas um pedido de desculpas não dado por Jorge Jesus a pedido de Piers Morgan parece ter, neste país, mais peso institucional do que qualquer discurso sobre a implantação da República.
Já tivemos reis, presidentes, primeiros-ministros e, aparentemente, agora temos comentadores ingleses com poderes constitucionais.
Talvez seja esta a nossa evolução política: mudámos o regime, conservámos a corte.
Viva a República!
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