Somos animais territoriais. Gostamos de delimitar, fincar bandeira, erguer muro e chamar nosso ao que conseguimos manter debaixo da pata por acaso geográfico.
Gostamos de poder. Não tanto de o exercer. De o ter. Saber que podemos esmagar. Para certas criaturas, isso chega para justificar uma existência.
Nada de original. Os outros animais também defendem a toca. A diferença é que nós inventámos a ciência para transformar uma birra territorial num evento geológico. Evoluímos. A direcção é que ficou por esclarecer.
O problema de um animal com imaginação é fabricar coisas maiores do que a sua capacidade de medir consequências. Criamos artefactos capazes de destruir o que nem sequer nos pertence: a vida alheia, o futuro dos que não nasceram, o planeta que nos atura com uma paciência imerecida.
Depois damos-lhes um nome técnico, metemo-los num silo e chamamos-lhe equilíbrio.
Equilíbrio de quê? Do medo?
Quanto vale uma consciência com o fim do mundo na mão? Há uma tabela? Escalões de horror? Um número de mortos a partir do qual passa a ser feio?
Ou já há preço e só não suportamos dizê-lo em voz alta?
As bombas continuam nos silos. Quietas, disciplinadas, quase respeitáveis. Não fazem barulho, não incomodam a vizinhança, não precisam de se justificar ao jantar. Mas existem. E enquanto existirem, dependemos da sanidade, da prudência e da boa disposição de quem tem a chave.
Uma combinação que, convenhamos, nunca abundou na espécie.
Depois da primeira bomba, acabaram-se as desculpas.
A Oppenheimer não se concede absolvição por ignorância. Seria historicamente desonesto e moralmente cómodo. Dirigia Los Alamos; sabia o que fazia, sabia que aquela arma ultrapassava tudo o que a guerra tinha tornado familiar.
O que nenhum cálculo lhe deu foi o depois: a cidade transformada em campo de morte, os corpos, o sofrimento que não acaba na explosão. Hiroxima e Nagasáqui tiraram-lhe esse conforto, e ele não ficou indiferente. Opôs-se à bomba de hidrogénio, uma arma incomparavelmente pior, e pagou por isso.
Isso não apaga o Projecto Manhattan. Mas obriga-nos a distinguir. A pergunta perturbadora não é se Oppenheimer percebeu tudo antes. É porque é que, depois de todos vermos, tantos decidiram ir mais longe.
Hiroxima e Nagasáqui foram o preço dessa aprendizagem. Centenas de milhares de vidas reduzidas a uma abstracção luminosa. Mortes sem rosto para quem as ordenou. Corpos desfeitos num segundo e sofrimento prolongado por décadas, nos sobreviventes, nos filhos, nas doenças, naquilo que a ciência não repara.
Herança involuntária. Sem testamento e sem direito a renúncia.
Podemos discutir o contexto, as alternativas, a rendição japonesa, a lógica de uma guerra que já tinha devorado qualquer inocência. Devemos. A história não melhora com simplificações. Mas compreender a primeira vez não pode servir de álibi para todas as seguintes.
Porque depois de Hiroxima já sabíamos. Sabíamos que não era mais uma arma, mais um degrau na escada da supremacia. Sabíamos que tínhamos entrado num território onde vencer pode ter a forma grotesca de uma derrota colectiva.
E continuámos. Bombas mais potentes, sistemas mais rápidos, arsenais multiplicados. Transformámos a capacidade de exterminar a humanidade em credencial diplomática.
Chamamos-lhe dissuasão porque a palavra é elegante e fica bem nos discursos. O mecanismo é de uma simplicidade aterradora: se me atacas, destruo-te; se me destruíres, destruo-te na mesma; se nos destruirmos os dois, ninguém poderá dizer que cedi primeiro.
É a imagem que o próprio Oppenheimer usou em 1953, num artigo da Foreign Affairs: dois escorpiões num frasco, cada um capaz de matar o outro, mas só à custa da própria vida. Os escorpiões, ao menos, não arrastam terceiros. Estes arrastam. E os terceiros somos nós. Todos. Incluindo os que nunca os elegeram, nunca participaram nas suas guerras e nunca foram consultados sobre a conveniência de morrer por uma disputa que mal compreendem.
O mais inquietante: o jogo nem precisa de um monstro. Basta um erro. Uma informação mal lida. Um sistema que falha. Uma cadeia onde cada um confia que o seguinte sabe o que faz.
Ou basta um desvairado com poder suficiente para confundir a sua vontade com o destino do mundo. A loucura individual, com tecnologia adequada, deixa de ser clínica. Passa a ser política internacional.
E ainda há quem lhe chame inteligência estratégica.
A ética a posteriori é confortável. Sentamo-nos sobre os escombros, identificamos culpados, escrevemos relatórios, erguemos memoriais. Dizem que aprendemos. Entretanto, o orçamento militar aumenta e alguém, algures, trabalha numa arma mais eficiente.
Mais eficiente a fazer o quê?
A ciência responde com precisão admirável. A moral continua sem financiamento.
Os que vieram depois conheciam Hiroxima, Nagasáqui, a radiação, a escala. E escolheram bombas maiores. Não por ignorância nem por inocência: escolheram porque o poder de destruir passou a ser a forma de impedir que os outros destruam primeiro. Porque a espécie prefere arriscar desaparecer a admitir que não precisa de ganhar todas as disputas.
Talvez seja essa a nossa verdadeira natureza territorial: não defender o que é nosso, mas não suportar que o outro tenha algo que não controlamos.
As bombas continuam nos silos. Os dirigentes falam de segurança, os estrategas calculam probabilidades, e nós vivemos como se a sobrevivência fosse consequência natural da existência, quando depende de decisões tomadas por gente que nunca conheceremos e cujos nomes só aprenderemos quando for tarde.
Não sei em que escalão se decide o horror. Suspeito que a tabela exista e que ninguém a queira publicar.
Entretanto, guardamos o fim do mundo em depósitos vigiados e chamamos-lhe paz. Os mais finos chamam-lhe equilíbrio.
Eu continuo à espera de uma palavra menos obscena.
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