Há um comentário novo na praça, e até é elogioso: «está bem escrito». A frase termina num «mas», porque os elogios da Internet, como os boletins meteorológicos, só se cumprem pela metade. O «mas» desta vez é: «Isto é IA, não é verdade».
Confesso que fiquei dividida entre a vaidade e a ofensa. A vaidade ganhou por pouco. Passei décadas a escrever mal com elegância, à mão, à noite, com um dicionário ao lado e um temperamento pior. Agora chega a tecnologia e, pela primeira vez, alguém me confunde com a concorrência. É como dizer à avó que o croché parece feito à máquina. Ela agradece, evidentemente, e deixa de fazer-nos camisolas.
A sério agora, porque o assunto merece.
Escrevo há muitos anos. Antes de existir IA capaz de escrever em português de Portugal, já por aqui andava a desconfiar dos eufemismos: dos «incidentes», dos «equilíbrios», das «resiliências». A desconfiança em relação à linguagem oficial não me foi instalada por aplicação nenhuma. Foi aprendida entre repartições, comunicados de imprensa e um país inteiro que, demasiadas vezes, fala por encomenda.
Se agora escrevo com uma limpeza que desperta suspeitas, a explicação é menos futurista: revejo muito. Quem passa horas a reler a mesma frase até ela doer um pouco menos não está a gerar texto. Está a fabricar remendos. Alguns ficam tortos, que também não sou nenhuma santa da gramática.
Pelos vistos, a competência literária passou a constituir prova circunstancial de contrafação. Escreve-se mal, é humano. Escreve-se bem, é máquina. Uma teoria confortável, sobretudo para quem nunca teve de reescrever uma frase até lhe encontrar o peso exato.
Desconfiar é legítimo. A tecnologia permite produzir texto em quantidades industriais e faz sentido questionar a sua origem. O que já não faz sentido é confundir o resultado com o processo, a aparência com a origem e a suspeita com o conhecimento. «Parece-me artificial» não é o mesmo que «foi escrito por inteligência artificial». Entre as duas frases devia existir qualquer coisa a que antigamente chamávamos fundamento.
A continuidade também não é uma prova pericial, mas é uma história. Uma voz que atravessa assuntos, contradições, indignações e silêncios; que tanto se ocupa das mentiras públicas como das pequenas misérias privadas. Há um percurso, uma maneira de olhar, obsessões que regressam. Não provam quem escreveu cada frase, mas ajudam a perceber que uma escrita não aparece do nada.
O trabalho de escrever está nas escolhas: na palavra que se mantém, na que se corta, na metáfora bonita que se deita fora porque não diz o que queremos dizer. Nem tudo o que parece perfeito pertence ao texto.
Aprendemos a desconfiar da escrita demasiado lisa, como se a imperfeição fosse um certificado de humanidade. Entretanto, há textos humanos sem uma única fissura e máquinas capazes de simular as rachas todas.
Passámos anos a dizer às pessoas para escreverem melhor, para cuidarem da língua, para reverem os textos, para abandonarem as frases feitas. Agora que alguém aparece com um texto cuidado, há quem lhe retire o mérito precisamente por estar cuidado. O elogio oferece-se com uma mão e retira-se com a outra. Não sei se devemos chamar a isto progresso tecnológico ou regressão das expectativas.
Já me sugeriram, com a melhor das intenções, que «humanizasse» o texto: que deixasse uma gralha, uma frase coxa, uma vírgula fora do sítio, para a coisa cheirar a gente. Não vou forjar defeitos para obter um atestado de humanidade. Os meus chegam e sobram, e têm a vantagem de serem genuínos.
Quem quiser acreditar que é IA, acredite. Fico lisonjeada com a confusão, embora dispensasse a suspeita embrulhada em elogio. Não vou apresentar as mãos, o dicionário ou o historial das minhas indignações como provas de inocência. Também não vou aceitar que a qualidade de um texto seja suficiente para me sentar no banco dos réus.
Eu por cá fico. À mão, como sempre. As fendas agradecem a visita e não escondem a cola.
Sem comentários:
Enviar um comentário