Há qualquer coisa de reconfortante em saber que, mesmo quando a civilização arde, há quem preserve os pequenos prazeres da vida.
Uma esplanada. Três cafés. Um Pai Natal de óculos escuros, a fumar o que resta da inocência ocidental. Uma senhora de negro, com chapéu de bruxa e ar de quem já viu demasiadas temporadas disto para se deixar impressionar pelo enredo.
Ao fundo, a polícia, o fogo, o fumo e aquela coreografia urbana que os comunicados oficiais insistem em classificar como «incidentes», como se a realidade fosse uma reunião de condomínio que correu um pouco pior do que o previsto.
Mas a mesa está posta. É o que conta. As restantes, vazias, alinham-se até ao fogo. Ninguém reservou.
A senhora bebe o seu tinto com a serenidade de quem percebeu que o Apocalipse não dispensa uma pausa. O Pai Natal talvez esteja apenas a fazer contas à distribuição dos presentes. Ou a perguntar-se se ainda vale a pena descer pela chaminé de uma sociedade que pega fogo à primeira contrariedade.
Gosto da ausência de pânico. Não há correria, nem mãos na cabeça, nem ninguém a gritar que o mundo está a acabar. Dois pares de óculos escuros dispensam o resto. Pode estar, de facto. Mas não sejamos precipitados: ainda não acabámos o café.
Talvez a maturidade seja isto. Não confundir o colapso das instituições com a obrigação de estragar a tarde. Não deixar que a estupidez alheia nos roube o direito adquirido a uma cadeira confortável. E não abdicar do espectáculo quando já pouco nos resta fazer para alterar o argumento.
A bruxa sabe. O Pai Natal desconfia. A polícia trabalha. E a História, essa velha inconveniente, continua a arder ao fundo, à espera de que alguém lhe chame pelo nome certo.
Entretanto, tragam a conta.
O fim do mundo não dispensa o IVA. E, se possível, com factura e número de contribuinte.
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