2026-11-06

Lucros privados, facturas públicas

Na banca chama-se «otimização de balanço»: os ganhos ficam no ativo, as perdas passam para o passivo de outrem. Com a IA descobriu-se que o passivo de outrem é o rio.

O novo contrato social cabe em três cláusulas:
• Eles ficam com a mais-valia.
• Nós ficamos com a fatura da luz.
• A água é uma «externalidade», termo técnico para «paga quem não foi consultado».

Na Irlanda, os centros de dados consumiram 21% da eletricidade medida do país em 2023 — mais do que todas as habitações urbanas juntas — e 23% em 2025, contra 28% do consumo residencial total. Depois de anos de restrições às novas ligações na região de Dublin, o país reviu as regras de acesso à rede em dezembro de 2025: novas ligações passaram a exigir geração própria ou baterias capazes de cobrir a procura total. Chamaram-lhe prudência. Eu chamo-lhe um dos primeiros casos conhecidos de um país a dizer «agora não» a um cliente que paga bem.

Para 2030, a Agência Internacional de Energia projeta que o consumo global destas instalações ultrapasse os 945 TWh anuais — mais do dobro do atual, aproximadamente o consumo total do Japão. Quem paga a diferença? Resposta rápida: o contribuinte, o consumidor e o aquífero, por esta ordem de visibilidade e por ordem inversa de poder negocial.

Entretanto, garantem-nos que a IA vai resolver as alterações climáticas. Começando, pelos vistos, por criar um volume de problemas suficiente para justificar a encomenda.

E depois há Sines.

Sines é onde Portugal decidiu fazer de Irlanda sem ter aprendido a lição da Irlanda. O maior campus de centros de dados da Europa, 1,2 GW de capacidade de TI prevista, seis edifícios à beira do Atlântico, preparados para alimentar a inteligência que nos vai, dizem eles, salvar a todos.

Eles já vêm com a lição estudada. Já não falam em água doce, falam em água do mar. Já não falam em consumo, falam em circuito fechado. Já não falam em eletricidade, falam em correspondência anual com produção renovável. É o dicionário completo do «verde por design».

No primeiro ano completo de operação, o SIN01 captou 692.942 metros cúbicos de água do mar e devolveu exatamente o mesmo volume. Consumo líquido zero, garante a empresa. Declara não ter utilizado água potável para arrefecimento. Mas o relatório regista ainda a utilização de 41.763 metros cúbicos de água industrial. A contabilidade é impecável. O impacto ambiental, esse, não desaparece por decreto contabilístico.

Zero consumo líquido. É uma expressão bonita. Quase tão bonita como dizer que só utilizámos o mar porque o mar estava ali.

A questão não se resolve com uma coluna de zeros num relatório de sustentabilidade. Resolve-se perguntando o que retiramos de um território e o que lhe deixamos em troca.

Porque a pergunta nunca foi se a água é doce ou salgada. A pergunta é quem fica com a capacidade energética de um país para alimentar máquinas que servem outros países. Quem fica com a rede pressionada. Quem fica com o território hipotecado a um modelo em que Sines produz, os operadores e fundos internacionais lucram, e nós disponibilizamos o vento que é nosso, o mar que é nosso e a paciência que já não é nossa.

Chamam-lhe «hub europeu». Eu chamo-lhe colónia com fibra ótica. Antes exportávamos cortiça, sardinha e gente. Agora exportamos capacidade de processamento e importamos retórica.

E o mais perverso é que até nos roubaram a indignação. Como é que se protesta contra uma coisa que é «100% renovável»? Como é que se diz que não, quando o sim vem embrulhado em PUE de 1,1, WUE de zero e um relatório de sustentabilidade com fotografias bonitas do Atlântico?

Diz-se assim: não é por ser renovável que deixa de ser extração. Não é por ser eficiente que deixa de ser obsceno. Não é por devolverem a água ao mar que deixam de ocupar a costa, pressionar a rede e comprometer recursos que também são nossos.

A nuvem não existe. Existem edifícios. Existem cabos. Existem máquinas que consomem eletricidade e precisam de arrefecimento para alimentar uma inteligência que aprende a escrever poemas sobre a natureza enquanto depende dos recursos que a sustentam.

Pedem-nos para confiar numa inteligência que consome como um adolescente e raciocina como um contabilista. Que otimiza tudo, exceto a pergunta que interessa: otimiza para quem?

Se a resposta for «para quem já tem», então não estamos perante uma revolução tecnológica. Estamos perante a mais antiga história do mundo, contada agora a 1,2 gigawatts, à beira-mar, em Sines.

Sines não é o futuro. Sines é o passado com ar condicionado.

2026-11-02

E o resto é decoração

Há coisas que me tiram genuinamente do sério. Não é figura de estilo.

Por exemplo, gente que comenta o verniz em vez de comentar a racha na parede. Que olha para uma tenda no Rossio e acha que o problema é a tenda. Que olha para um miúdo de 24 anos a dizer que não consegue pagar um quarto e conclui que o problema é o miúdo estar despenteado, ou fumado, ou mal-agradecido.

Tenho pouca paciência para isso. Assumo.

Mas vamos ao arquivo de etiquetas, porque Portugal tem uma colecção.

Em 1994, um senhor jornalista, Vicente Jorge Silva, num editorial do Público, baptizou os estudantes que protestavam contra as políticas educativas da ministra Manuela Ferreira Leite como «geração rasca». Estavam nas ruas contra as provas globais no secundário e as propinas no ensino superior. A resposta foi uma palmada semântica: são rascos.

Em 2011, fizemos o trocadilho. Passámos de rasca para à rasca. A manifestação de 12 de Março apropriou-se do insulto. Eram os recibos verdes, os 600 euros, os licenciados a atender call-centers. Eram à rasca.

Não aprendemos grande coisa. Apenas actualizámos o vocabulário e envelhecemos o suficiente para começar a ralhar com os mais novos.

Agora, 2026. A Praça D. João I, no Porto, ocupada desde 10 de Outubro, e o Rossio, uns dias depois. Tendinhas, assembleias, cartazes a dizer «não somos sem-abrigo, somos geração sem casa». Na madrugada de dia 20, a PSP desmontou tudo. Voltaram. Na madrugada de dia 25, desmontou outra vez, ao mesmo tempo em Lisboa e no Porto, com 31 detidos e a discussão nacional sobre se as tendas tinham licença camarária e se os miúdos tinham tomado banho.

E eis que chegamos à actualização do catálogo: geração de ganzados, mal-agradecidos e, aparentemente, pouco asseados. A indignação, pelos vistos, também tem código de vestuário.

Não se discute a casa, discute-se a tenda.

Há uma arte muito portuguesa de transformar um problema estrutural numa questão de bons modos.

Disseram-me, com ar muito sério, que estes jovens não querem trabalhar. E eu penso: onde? Em que cidade? Com que renda? Porque a promessa para esta geração deixou de funcionar: estuda, trabalha e desconta, mas não sabe se consegue sair de casa dos pais. E a resposta que lhes damos é um conselho de etiqueta.

Confesso: também me irritam algumas coisas nas acampadas. O microfone demasiado tempo na mesma pessoa. A poesia falada às duas da manhã. Mas irritar-me não me dá o direito de lhes negar a razão.

Talvez a questão não seja saber se esta geração é rasca, ganzada ou mal-agradecida. Talvez seja perguntar que país estamos a construir quando uma geração tem de sair à rua para reclamar o direito a ter um tecto e a resposta que recebe é uma apreciação sobre os seus modos.

Uma casa não é um prémio de bom comportamento. E o direito à indignação não exige certificado de respeitabilidade.

O resto é decoração.

2026-10-31

Manual breve para noites fora do calendário

Há noites que não pertencem ao calendário. O Halloween é uma delas.

Começa leve: o cheiro das folhas molhadas, uma abóbora de sorriso torto num degrau, luzes a piscar como quem nos pisca o olho. O encantamento de fingir ser outro por umas horas, de esconder o rosto e, ao mesmo tempo, revelar aquilo que sempre quisemos ser. Passos apressados nas escadas e aquele fio de ternura entre quem dá, quem recebe e quem observa da janela, com uma caneca quente nas mãos.

Depois, quando as velas se apagam, chega a segunda voz.
O silêncio fica cheio. As máscaras, pousadas na mesa, parecem observar-nos de volta. E percebemos que os fantasmas nem sempre estão lá fora. Alguns vivem dentro de nós: nas memórias que evitamos, nos nomes que já não dizemos, nos gestos que ficaram por fazer. É a voz que nos acompanha até ao espelho e pergunta baixinho: «E tu, de que te disfarças quando o mundo adormece?»

E no meio, fico eu.

Há uma voz que se ri, outra que se lembra e outras que ainda não sei nomear. Umas acendem luzes, outras preferem o escuro. Por vezes, contradizem-se. Nenhuma parece particularmente interessada em convencer as restantes. E eu não tenho energia para arbitrar a discussão.

Lá fora, a noite continua. Há quem peça doces, quem se disfarce, quem ria dos sustos. Cá dentro, outras coisas acontecem. Uma lembrança aparece sem avisar. Um silêncio demora-se mais do que devia. E o mundo, indiferente à nossa vida interior, continua a cumprir os seus horários.

Talvez seja essa a estranheza destas noites: caber tanta coisa no mesmo espaço sem que nenhuma tenha de ceder o lugar às outras.

As velas acabam por se apagar. As máscaras regressam às gavetas. Amanhã, a noite será outra, embora nem tudo o que nela aconteceu tenha a delicadeza de desaparecer com a luz.

Por enquanto, fico aqui. Com as vozes todas. As que riem, as que se calam, as que ainda não chegaram.

2026-10-29

Pro rata temporis

Mais de um ano depois, a Fidelidade veio explicar à família de Ana Paula Lopes, uma das dezasseis vítimas do Elevador da Glória, que afinal o acidente era previsível. Previsível. Ninguém o disse antes, que se saiba, nem a quem subia, nem a quem descia, nem a quem cobrava o bilhete. Mas agora, com a conta em cima da mesa, a clarividência actuarial é irrepreensível.

Fico também a saber que o ascensor não podia ser considerado «um meio de transporte altamente fiável». Cento e quarenta anos de serviço, desde 1885, não chegaram para o provar; foi preciso um desastre para ser promovido a risco conhecido.

Daqui saem duas perguntas de balcão, daquelas que um bancário aprende ao segundo dia. Se o risco era previsível, estava previsto? E, se estava previsto, estava cobrado? Em economiquês corrente, chama-se a isto prémio: recebe-se antes, discute-se depois.

Resta o tempo. O sofrimento, alega-se, durou menos de um minuto, e a percepção de que se ia morrer terá durado outro tanto. Temos, portanto, a dor a prazo, liquidada pro rata temporis, com desconto de quantidade para fracções inferiores ao minuto facturável.

Extrapolando, porque a lógica o exige:

Se era previsível, não foi acidente: foi calendário.

Se era pouco fiável, a culpa é de quem entrou.

Se foi rápido, sai barato.

Convém, ainda assim, ser justa. A seguradora tem razão num ponto: foi mesmo rápido. Tão rápido que ninguém teve tempo de ler as letras pequenas.

2026-10-28

Chuva

Tenho neste tempo de transição entre um Inverno que se aproxima e um Verão que não vai embora uma tendência recorrente para a melancolia e, enquanto os dias se tornam mais breves, a minha alegria estival esvai-se à velocidade dos pingos gelados das primeiras chuvas.

A minha cidade fica triste também, cada vez mais cinzenta nos seus cinzentos, as neblinas transformam-se em nevoeiro, o cheiro das castanhas envolve-nos e os guarda-chuvas tropeçam-se.

Não há muitos sorrisos por entre os ruídos das gentes que passam. Só pressa em chegar a qualquer destino, afã de fuga para os interiores aquecidos. À porta do café, alguém sacode o guarda-chuva e entra sem olhar para ninguém.

Sinto-me a encolher com os dias, a encolher para o aconchego de uma manta sempre a postos, um casaco de lã tão velho que já não lhe sei os anos, as pantufas que trouxe da Estrela.

Encolho-me no sofá, a TV pronta a suspirar sozinha num último ai com hora pré-programada. Encolho-me no sofá como encolhem os dias e durmo as sestas do frio.

Cheira já a lenha. Os dias encolhem. Eu encolho com os dias e acerto o passo com esta melancolia.

2026-10-26

Democracia à la carte

O Brasil foi a votos. Lula ganhou. Flávio Bolsonaro perdeu por mais de quatro milhões de votos e decidiu que a democracia, afinal, precisa de revisão.

É uma modalidade curiosa de democracia esta: o povo pode escolher livremente, desde que escolha bem. Na primeira volta, o povo queria mudança. Na segunda, enganou-se. E há sempre uma conspiração, um tribunal suspeito e um juiz que, por um extraordinário azar, deu duas horas a mais para votar.

Estes democratas adoram a vontade popular. É uma paixão imensa, quase comovente. Desde que o povo saiba votar como deve ser: neles.

A democracia não é um restaurante à la carte, Flávio. E perder as eleições não é motivo para chamar o gerente.

Vamos ter carnaval até janeiro.

2026-10-23

Humanizar-me

Há um comentário novo na praça, e até é elogioso: «está bem escrito». A frase termina num «mas», porque os elogios da Internet, como os boletins meteorológicos, só se cumprem pela metade. O «mas» desta vez é: «Isto é IA, não é verdade».

Confesso que fiquei dividida entre a vaidade e a ofensa. A vaidade ganhou por pouco. Passei décadas a escrever mal com elegância, à mão, à noite, com um dicionário ao lado e um temperamento pior. Agora chega a tecnologia e, pela primeira vez, alguém me confunde com a concorrência. É como dizer à avó que o croché parece feito à máquina. Ela agradece, evidentemente, e deixa de fazer-nos camisolas.

A sério agora, porque o assunto merece.

Escrevo há muitos anos. Antes de existir IA capaz de escrever em português de Portugal, já por aqui andava a desconfiar dos eufemismos: dos «incidentes», dos «equilíbrios», das «resiliências». A desconfiança em relação à linguagem oficial não me foi instalada por aplicação nenhuma. Foi aprendida entre repartições, comunicados de imprensa e um país inteiro que, demasiadas vezes, fala por encomenda.

Se agora escrevo com uma limpeza que desperta suspeitas, a explicação é menos futurista: revejo muito. Quem passa horas a reler a mesma frase até ela doer um pouco menos não está a gerar texto. Está a fabricar remendos. Alguns ficam tortos, que também não sou nenhuma santa da gramática.

Pelos vistos, a competência literária passou a constituir prova circunstancial de contrafação. Escreve-se mal, é humano. Escreve-se bem, é máquina. Uma teoria confortável, sobretudo para quem nunca teve de reescrever uma frase até lhe encontrar o peso exato.

Desconfiar é legítimo. A tecnologia permite produzir texto em quantidades industriais e faz sentido questionar a sua origem. O que já não faz sentido é confundir o resultado com o processo, a aparência com a origem e a suspeita com o conhecimento. «Parece-me artificial» não é o mesmo que «foi escrito por inteligência artificial». Entre as duas frases devia existir qualquer coisa a que antigamente chamávamos fundamento.

A continuidade também não é uma prova pericial, mas é uma história. Uma voz que atravessa assuntos, contradições, indignações e silêncios; que tanto se ocupa das mentiras públicas como das pequenas misérias privadas. Há um percurso, uma maneira de olhar, obsessões que regressam. Não provam quem escreveu cada frase, mas ajudam a perceber que uma escrita não aparece do nada.

O trabalho de escrever está nas escolhas: na palavra que se mantém, na que se corta, na metáfora bonita que se deita fora porque não diz o que queremos dizer. Nem tudo o que parece perfeito pertence ao texto.

Aprendemos a desconfiar da escrita demasiado lisa, como se a imperfeição fosse um certificado de humanidade. Entretanto, há textos humanos sem uma única fissura e máquinas capazes de simular as rachas todas.

Passámos anos a dizer às pessoas para escreverem melhor, para cuidarem da língua, para reverem os textos, para abandonarem as frases feitas. Agora que alguém aparece com um texto cuidado, há quem lhe retire o mérito precisamente por estar cuidado. O elogio oferece-se com uma mão e retira-se com a outra. Não sei se devemos chamar a isto progresso tecnológico ou regressão das expectativas.

Já me sugeriram, com a melhor das intenções, que «humanizasse» o texto: que deixasse uma gralha, uma frase coxa, uma vírgula fora do sítio, para a coisa cheirar a gente. Não vou forjar defeitos para obter um atestado de humanidade. Os meus chegam e sobram, e têm a vantagem de serem genuínos.

Quem quiser acreditar que é IA, acredite. Fico lisonjeada com a confusão, embora dispensasse a suspeita embrulhada em elogio. Não vou apresentar as mãos, o dicionário ou o historial das minhas indignações como provas de inocência. Também não vou aceitar que a qualidade de um texto seja suficiente para me sentar no banco dos réus.

Eu por cá fico. À mão, como sempre. As fendas agradecem a visita e não escondem a cola.

2026-10-22

O preço do medo


Somos animais territoriais. Gostamos de delimitar, fincar bandeira, erguer muro e chamar nosso ao que conseguimos manter debaixo da pata por acaso geográfico.

Gostamos de poder. Não tanto de o exercer. De o ter. Saber que podemos esmagar. Para certas criaturas, isso chega para justificar uma existência.

Nada de original. Os outros animais também defendem a toca. A diferença é que nós inventámos a ciência para transformar uma birra territorial num evento geológico. Evoluímos. A direcção é que ficou por esclarecer.

O problema de um animal com imaginação é fabricar coisas maiores do que a sua capacidade de medir consequências. Criamos artefactos capazes de destruir o que nem sequer nos pertence: a vida alheia, o futuro dos que não nasceram, o planeta que nos atura com uma paciência imerecida.

Depois damos-lhes um nome técnico, metemo-los num silo e chamamos-lhe equilíbrio.

Equilíbrio de quê? Do medo?

Quanto vale uma consciência com o fim do mundo na mão? Há uma tabela? Escalões de horror? Um número de mortos a partir do qual passa a ser feio?

Ou já há preço e só não suportamos dizê-lo em voz alta?

As bombas continuam nos silos. Quietas, disciplinadas, quase respeitáveis. Não fazem barulho, não incomodam a vizinhança, não precisam de se justificar ao jantar. Mas existem. E enquanto existirem, dependemos da sanidade, da prudência e da boa disposição de quem tem a chave.

Uma combinação que, convenhamos, nunca abundou na espécie.

Depois da primeira bomba, acabaram-se as desculpas.

A Oppenheimer não se concede absolvição por ignorância. Seria historicamente desonesto e moralmente cómodo. Dirigia Los Alamos; sabia o que fazia, sabia que aquela arma ultrapassava tudo o que a guerra tinha tornado familiar.

O que nenhum cálculo lhe deu foi o depois: a cidade transformada em campo de morte, os corpos, o sofrimento que não acaba na explosão. Hiroxima e Nagasáqui tiraram-lhe esse conforto, e ele não ficou indiferente. Opôs-se à bomba de hidrogénio, uma arma incomparavelmente pior, e pagou por isso.

Isso não apaga o Projecto Manhattan. Mas obriga-nos a distinguir. A pergunta perturbadora não é se Oppenheimer percebeu tudo antes. É porque é que, depois de todos vermos, tantos decidiram ir mais longe.

Hiroxima e Nagasáqui foram o preço dessa aprendizagem. Centenas de milhares de vidas reduzidas a uma abstracção luminosa. Mortes sem rosto para quem as ordenou. Corpos desfeitos num segundo e sofrimento prolongado por décadas, nos sobreviventes, nos filhos, nas doenças, naquilo que a ciência não repara.

Herança involuntária. Sem testamento e sem direito a renúncia.

Podemos discutir o contexto, as alternativas, a rendição japonesa, a lógica de uma guerra que já tinha devorado qualquer inocência. Devemos. A história não melhora com simplificações. Mas compreender a primeira vez não pode servir de álibi para todas as seguintes.

Porque depois de Hiroxima já sabíamos. Sabíamos que não era mais uma arma, mais um degrau na escada da supremacia. Sabíamos que tínhamos entrado num território onde vencer pode ter a forma grotesca de uma derrota colectiva.

E continuámos. Bombas mais potentes, sistemas mais rápidos, arsenais multiplicados. Transformámos a capacidade de exterminar a humanidade em credencial diplomática.

Chamamos-lhe dissuasão porque a palavra é elegante e fica bem nos discursos. O mecanismo é de uma simplicidade aterradora: se me atacas, destruo-te; se me destruíres, destruo-te na mesma; se nos destruirmos os dois, ninguém poderá dizer que cedi primeiro.

É a imagem que o próprio Oppenheimer usou em 1953, num artigo da Foreign Affairs: dois escorpiões num frasco, cada um capaz de matar o outro, mas só à custa da própria vida. Os escorpiões, ao menos, não arrastam terceiros. Estes arrastam. E os terceiros somos nós. Todos. Incluindo os que nunca os elegeram, nunca participaram nas suas guerras e nunca foram consultados sobre a conveniência de morrer por uma disputa que mal compreendem.

O mais inquietante: o jogo nem precisa de um monstro. Basta um erro. Uma informação mal lida. Um sistema que falha. Uma cadeia onde cada um confia que o seguinte sabe o que faz.

Ou basta um desvairado com poder suficiente para confundir a sua vontade com o destino do mundo. A loucura individual, com tecnologia adequada, deixa de ser clínica. Passa a ser política internacional.

E ainda há quem lhe chame inteligência estratégica.

A ética a posteriori é confortável. Sentamo-nos sobre os escombros, identificamos culpados, escrevemos relatórios, erguemos memoriais. Dizem que aprendemos. Entretanto, o orçamento militar aumenta e alguém, algures, trabalha numa arma mais eficiente.

Mais eficiente a fazer o quê?

A ciência responde com precisão admirável. A moral continua sem financiamento.

Os que vieram depois conheciam Hiroxima, Nagasáqui, a radiação, a escala. E escolheram bombas maiores. Não por ignorância nem por inocência: escolheram porque o poder de destruir passou a ser a forma de impedir que os outros destruam primeiro. Porque a espécie prefere arriscar desaparecer a admitir que não precisa de ganhar todas as disputas.

Talvez seja essa a nossa verdadeira natureza territorial: não defender o que é nosso, mas não suportar que o outro tenha algo que não controlamos.

As bombas continuam nos silos. Os dirigentes falam de segurança, os estrategas calculam probabilidades, e nós vivemos como se a sobrevivência fosse consequência natural da existência, quando depende de decisões tomadas por gente que nunca conheceremos e cujos nomes só aprenderemos quando for tarde.

Não sei em que escalão se decide o horror. Suspeito que a tabela exista e que ninguém a queira publicar.

Entretanto, guardamos o fim do mundo em depósitos vigiados e chamamos-lhe paz. Os mais finos chamam-lhe equilíbrio.

Eu continuo à espera de uma palavra menos obscena.

2026-10-21

Pancas, manias e outras formas de civilização


Há coisas que me agridem fisicamente. Não é maneira de dizer. É mesmo o corpo a reagir, a pele a eriçar-se e a vontade de fugir a instalar-se antes de o cérebro ter tempo de se pronunciar.

Mãos com unhas roídas, por exemplo. Só de imaginar que tenho de cumprimentar uma mão assim, arrepio-me toda num nojo total e absoluto. Não falo, evidentemente, daquelas unhas ratadas que mal se percebe terem sido roídas; para essas, as minhas dioptrias são um feliz acaso. Falo daqueles dedos onde já nem há unha, apenas sabugos sangrentos, horripilantes, de carnívoro ensandecido.

Depois há os olhos. Não me refiro tanto aos que olham um para cada lado, cada qual entregue à sua própria vida, um aqui e outro no infinito. Esses ainda vá. O meu problema são os que convergem para o nariz, como se estivessem a tentar encontrar-se a meio do caminho. Ora, como não sei falar com as pessoas sem as olhar nos olhos, passo agruras a tentar impedir que os meus entortem também, num jogo de reflexos que me deixa a conversar e, em simultâneo, a gerir uma emergência oftalmológica imaginária. Talvez por isso os que se desviam para fora me incomodem menos: não consigo mimar o gesto. Ainda assim, já dei por mim a encurtar conversas e a evitar pessoas por causa desta relação muito, mas mesmo muito inconveniente com a geometria ocular alheia. A diplomacia tem limites. Os meus passam, aparentemente, pela convergência.

Também acabo as palavras aos gagos. Não sou boa pessoa.

Com a burrice, a coisa muda de figura. Sobretudo quando vem armada em esperteza. A ignorância não me incomoda por aí além: ninguém nasce ensinado, ninguém sabe tudo e há sempre qualquer coisa que nos escapa, por muito que o ego se esforce por ocupar o espaço todo. Também não falo de falta de cultura ou de educação. O que me tira do sério é a cabeça oca com pretensões a cátedra, a criatura que abre a boca e transforma o silêncio, até então uma coisa perfeitamente banal, num bem precioso e irrecuperável. A primeira reacção é quase sempre a mesma: enfiar-lhe um par de estalos que lhe permita voltar a fechar os queixos, nem que seja por uns minutos, e poupar o mundo à próxima descarga de disparates.

Reconheço que isto faz de mim uma grandessíssima snobe, e duvido que esteja em idade de me reformar moralmente a este respeito. Falo da gente que se dedica a transformar objectos em demonstrações de estatuto, na esperança de que o recheio da casa compense as sinapses em falta. A inteligência não se compra. O que se compra é um relógio, um automóvel ou uma carteira com um preço capaz de fazer o vizinho engolir em seco. O resto é decoração.

Em casa, por outro lado, sou perfeitamente razoável. Ou quase.

As canecas, por exemplo, têm um lugar. Não um lugar aproximado, uma zona geográfica ou uma vaga indicação de que pertencem ao armário da cozinha. Têm um lugar. Os copos ainda vá, mas mudarem-me as canecas de sítio é motivo para começar a fumegar. Uma vez, duas, até três, sobretudo se estivermos apaixonados pelo infractor. Depois disso, a conversa deixa de ser sobre canecas e passa a ser sobre a possibilidade de a pessoa reunir condições mínimas para continuar a habitar o mesmo espaço que eu. Em casos extremos, a porta da rua pode tornar-se a serventia da casa. Há limites para o amor, e um deles é a reorganização unilateral da loiça.

Os livros também têm a sua ordem, e essa ordem não está aberta a interpretações criativas. Não se arrumam por aproximação, por cor ou por inspiração súbita de quem decidiu fazer uma surpresa. Há sistemas. Há uma lógica. Há uma arquitectura mental que, por razões que não me compete explicar a quem não a compreende, funciona. Desmontá-la equivale a entrar numa biblioteca, trocar as lombadas todas de sítio e depois anunciar que se fez uma melhoria na circulação.

Consigo ser muito mais tolerante com coisas que, em teoria, deveriam dar cabo da minha sanidade. Pratos e talheres fora do sítio, toalhas mal arrumadas, roupa suja abandonada fora do cesto, tampa da sanita levantada. Tudo isso me irrita, claro, mas pertence ao domínio das falhas humanas reconhecíveis. A caneca fora do lugar, não. A caneca fora do lugar é uma provocação pessoal.

E depois há a cama.

Não interessa se o lado esquerdo ou o direito, porque essa distinção é irrelevante. O meu lado é o lado da janela. Ponto final, parágrafo. Não há negociação, consulta pública ou referendo doméstico que altere esta disposição. A cama tem, além disso, de me permitir dormir com os bracinhos por cima da cabeça, em arco, numa pose de bailarina que perdeu o palco e encontrou finalmente um colchão. É assim que durmo. Sempre foi assim, ou pelo menos desde que me lembro de dormir, e não tenciono iniciar agora um programa de reeducação postural para acomodar as preferências de terceiros.

Não me perguntem porquê. Não sei. Também não tentem enganar-me, convencidos de que, uma vez adormecida, qualquer lado serve. O mais provável é que eu acabe do lado certo da cama, nem que para isso tenha de empurrar quem lá estiver para o meio do chão.

O mundo é grande. Há espaço para todos. Desde que não me mudem as canecas.

2026-10-20

O espírito dos tempos

Há qualquer coisa de reconfortante em saber que, mesmo quando a civilização arde, há quem preserve os pequenos prazeres da vida.

Uma esplanada. Três cafés. Um Pai Natal de óculos escuros, a fumar o que resta da inocência ocidental. Uma senhora de negro, com chapéu de bruxa e ar de quem já viu demasiadas temporadas disto para se deixar impressionar pelo enredo.

Ao fundo, a polícia, o fogo, o fumo e aquela coreografia urbana que os comunicados oficiais insistem em classificar como «incidentes», como se a realidade fosse uma reunião de condomínio que correu um pouco pior do que o previsto.

Mas a mesa está posta. É o que conta. As restantes, vazias, alinham-se até ao fogo. Ninguém reservou.

A senhora bebe o seu tinto com a serenidade de quem percebeu que o Apocalipse não dispensa uma pausa. O Pai Natal talvez esteja apenas a fazer contas à distribuição dos presentes. Ou a perguntar-se se ainda vale a pena descer pela chaminé de uma sociedade que pega fogo à primeira contrariedade.

Gosto da ausência de pânico. Não há correria, nem mãos na cabeça, nem ninguém a gritar que o mundo está a acabar. Dois pares de óculos escuros dispensam o resto. Pode estar, de facto. Mas não sejamos precipitados: ainda não acabámos o café.

Talvez a maturidade seja isto. Não confundir o colapso das instituições com a obrigação de estragar a tarde. Não deixar que a estupidez alheia nos roube o direito adquirido a uma cadeira confortável. E não abdicar do espectáculo quando já pouco nos resta fazer para alterar o argumento.

A bruxa sabe. O Pai Natal desconfia. A polícia trabalha. E a História, essa velha inconveniente, continua a arder ao fundo, à espera de que alguém lhe chame pelo nome certo.

Entretanto, tragam a conta.

O fim do mundo não dispensa o IVA. E, se possível, com factura e número de contribuinte.

2026-10-15

Aquela máquina!

Há dias em que me sinto o maquinista.

Não o pessimista, que vê um túnel escuro e se prepara para o pior. Nem o otimista, que vislumbra uma luz ao fundo e acredita que a vida ainda pode surpreendê-lo pela positiva. Muito menos o realista, que identifica um comboio de mercadorias e se limita a reconhecer a evidência.

Não. Eu sou o maquinista.

Aquele que vê três idiotas parados nos carris e percebe, com uma clareza quase ofensiva, que vai sobrar para ele.

Porque os três não estão perdidos. Não desconhecem o perigo. Não precisam de um mapa, de um seminário motivacional ou de uma sessão de esclarecimento sobre segurança ferroviária. Estão simplesmente ali, plantados na linha, convencidos de que o comboio é que tem de aprender a negociar.

E depois há todo um circo à volta: os que discutem se a locomotiva devia ter apitado mais cedo, os que defendem o direito inalienável de cada cidadão a ocupar os carris, os que propõem uma comissão para estudar o fenómeno e os que, perante a inevitabilidade do embate, perguntam se não haverá maneira de transformar o acidente numa oportunidade de crescimento.

Entretanto, o maquinista tem uma pequena questão prática para resolver: há três imbecis à sua frente e o comboio não tem asas.

É esta a parte que me cansa. Não é o túnel, nem a escuridão, nem sequer a perspectiva do desastre. É a recorrente obrigação de calcular travagens de emergência por causa de quem confunde liberdade com ausência de consequências e opinião com competência.

Uma pessoa passa a vida a tentar conduzir o comboio com alguma dignidade, a cumprir horários, a evitar descarrilamentos e a não atropelar ninguém pelo caminho. Depois descobre que há quem faça carreira a deitar-se nos carris e ainda reclame indemnização pelo incómodo de ter sido avisado.

E, no fim, se o comboio parar, a culpa é da falta de dinamismo. Se avançar, é da insensibilidade do maquinista. Se descarrilar, abre-se um inquérito. Se conseguir evitar a tragédia, ninguém agradece: afinal, não fez mais do que a sua obrigação.

Pois.

Às vezes, apetece-me largar os comandos, abrir a porta da locomotiva e perguntar aos três iluminados se querem experimentar conduzir. Mas sei como acabaria: ficariam os três a discutir quem tem prioridade, enquanto eu, por qualquer misteriosa lei da responsabilidade, seria chamada a garantir que o comboio não se atrasava.

O meu problema nunca foi não ver a luz ao fundo do túnel. É ver que a luz é um comboio, que há gente nos carris e que, mesmo assim, esperam que seja eu a resolver o problema.

Ser maquinista é isto: ter a responsabilidade de conduzir, a obrigação de prever o imprevisível e a certeza de que, quando tudo correr mal, haverá sempre alguém na plataforma a explicar o que eu devia ter feito.

Um dia destes, passo-me para o transporte fluvial.

Embora, pensando melhor, ainda me aparece um iluminado a discutir o direito de navegar em sentido contrário.

2026-10-10

Hitler Mussolini, político de esquerda

Hitler Mussolini Simeon Flores. Político de esquerda, eleito no Peru.

Não sei o que me fascina mais: a criatividade do registo civil, a ironia ideológica ou a circunstância de a realidade continuar a humilhar a ficção sem sequer se dar ao trabalho de elaborar o argumento.

Depois admiram-se de a democracia andar tão cansada.

2026-10-08

O chão que fica

Hoje morreu o pai da minha amiga.

Foi um ataque cardíaco fulminante. É assim que se diz, não é? Fulminante. Uma palavra que parece um raio a rasgar o céu limpo. Num instante estava, no instante seguinte já não está.

E eu não consigo parar de pensar no meu pai. No final de julho. Um mês inteiro entre a notícia e o fim. Um mês para processar o que nunca se processa de facto. Andámos aquele mês a acreditar e a não acreditar ao mesmo tempo. A fazer planos pequenos como quem assobia no escuro. Sabíamos, sem nunca saber realmente que o fim estava ali, ao virar da porta.

São duas formas opostas de perder alguém. E nenhuma é mais leve.

Quando soube que o meu pai sabia que estava a morrer, doeu-me por ele. Doeu-me esse peso lúcido. Hoje penso na minha amiga, e penso que o peso dela deve ser outro, talvez ainda mais desamparado: o de não ter havido tempo para o adeus. Para a última frase. Para a mão dada. O baque imenso de uma ausência que não pediu licença.

Disseram-me - e hão-de dizer-lhe a ela também - "não sofreu". Que frase absurda. Como se isso apagasse alguma coisa. Como se o sofrimento fosse só do corpo, e só dele, e só naqueles segundos. O que fica não é sobre se sofreu ou não. É sobre quem fica, de repente, sem chão.

Hoje, o luto dela encosta-se ao meu. Não se comparam, não se medem. Apenas se reconhecem, em silêncio.

Que possa, um dia, doer menos.

2026-10-05

Viva a República!

Nada como atualizar a novela nacional em pleno feriado cívico, com os devidos contornos de surrealismo que a pátria merece.

Ah, a diplomacia do futebol moderno.

Em pleno 5 de Outubro, enquanto a República comemora a queda da monarquia e os historiadores se esforçam por manter vivos assuntos que ninguém discute à mesa de jantar, o país é chamado a acompanhar mais um episódio da geopolítica da Bola: Piers Morgan versus Jorge Jesus, com Pedro Proença no papel de bombeiro mediador.

É verdadeiramente maravilhoso.

O treinador da Seleção, num momento de pura afirmação de autoridade, dispara um categórico:
«Pedir desculpa de quê? A quem? Eu não peço desculpas a ninguém!»

Eis que surge no horizonte, vindo de Inglaterra como uma espécie de D. Sebastião do jornalismo sensacionalista, Piers Morgan, procurador oficial do ego de Cristiano Ronaldo, pronto a garantir que o «Ten Hag português» devia retratar-se.

Uma crise diplomática, portanto. Só falta o Conselho de Segurança da ONU.

E, no entanto, pergunto-me: não era há anos tudo um circo?

Com data marcada, juntavam-se os palhaços na bancada, diziam umas bacoradas, posavam para a fotografia e, no dia seguinte, tudo seguia como dantes. Iam lá fazer o frete. Sempre com ar de grande frete: corpos presentes, mas só isso.

Na assistência, o povoléu olhava para a bancada e para os símbolos. Um circo como outro qualquer, mas com data marcada e significado há muito perdido.

Durante anos, enquanto a abundância aparente desconsiderava tradição e história, esta tempestade num copo de água ter-nos-ia parecido perfeitamente normal. Um copo pequenino e, talvez por isso, tão pronto a transbordar.

Enquanto o Brasil discute a sua nova viragem ideológica e Portugal assinala o fim da monarquia, descobrimos que a verdadeira soberania nacional reside em saber se o CR7 volta ou não na próxima convocatória.

Aparentemente, a República pode esperar. O Ronaldo não.

A República que nos perdoe, mas um pedido de desculpas não dado por Jorge Jesus a pedido de Piers Morgan parece ter, neste país, mais peso institucional do que qualquer discurso sobre a implantação da República.

Já tivemos reis, presidentes, primeiros-ministros e, aparentemente, agora temos comentadores ingleses com poderes constitucionais.

Talvez seja esta a nossa evolução política: mudámos o regime, conservámos a corte.

Viva a República!

República


A avenida parece suspensa no tempo, como se tivesse parado para ouvir o arrastar lento daquele passo. No meio do asfalto vazio, a figura solitária avança com determinação silenciosa, levando ao ombro um pedaço inteiro de país. O verde e o vermelho ondulam pesados, quase a tocar o chão, como se também eles carregassem memórias acumuladas de décadas.

Não há pressa. Não há cortejo. Não há multidão. Apenas o gesto — simples, teimoso, insistente — de alguém que recusa deixar que o símbolo fique guardado numa gaveta ou pendurado num mastro esquecido. A bandeira segue à frente, maior que o próprio corpo que a transporta, desproporção que diz mais sobre força interior do que qualquer demonstração pública.

Os ciclistas, os poucos transeuntes, o trânsito que não vem: tudo fica em segundo plano perante esta marcha solitária. Não se sabe de onde vem, nem para onde vai. Não interessa. Há momentos que não pedem legenda, pedem presença. E este é um deles. Uma afirmação muda, mas firme, de que há gestos que não precisam de público para serem inteiros.

No fim, o que fica é a imagem de alguém que leva o país ao ombro — não como peso, mas como destino. Uma figura pequena na imensidão da avenida, mas enorme na persistência de seguir em frente.

2026-10-01

Pedagogia da Suspensão

Houve um tempo em que uma lomba era um acontecimento. Tinha localização, tinha motivo e, nos casos mais solenes, tinha uma escola ao lado. Hoje é uma espécie invasora. Não tem predadores naturais, reproduz-se na Primavera, no Verão e nas reuniões de junta, e já ocupa todas as ruas onde passe mais de um carro por dia. Se o segundo carro for o do vizinho, que sai de casa de marcha-atrás, melhor ainda: justifica-se logo uma dupla.

Registo, para que conste, que não sou contra. Conheço o condutor português. Já o vi a trinta à hora no parque do centro comercial, com a gravidade de quem transporta um rim para transplante, e depois a cento e dez numa rua onde há roupa estendida. Deixado ao seu critério, qualquer artéria com mais de cinquenta metros de recta torna-se o circuito do Estoril, com semáforos opcionais e peões como risco calculado. A lomba é o único argumento que ele entende, porque lhe fala directamente ao bolso.

Mas uma coisa é a lomba, outra é a lomba que desfaz carros. Há as que pedem ao condutor que reconsidere, quase com carinho. E há as que o interrogam. Essas arrancam o tubo de escape, desalinham a direcção e ainda levam duas obturações de brinde, a vinte à hora. Ninguém sabe o que as ditou: o rigor técnico ou um desentendimento antigo com o dono do stand.

Daí a pergunta que faço com a ingenuidade de quem ainda acredita em regulamentos: existe norma para a altura? E para o comprimento, o perfil, esse «diâmetro» que numa lomba é conceito poético? Existe, em certo sentido. O regulamento de sinalização define a lomba redutora de velocidade e estabelece a respectiva sinalização, incluindo o xadrez a pintar no asfalto. E há uma nota técnica sobre a instalação, com critérios geométricos, estudos prévios e lugares onde não convém pô-las. Uma nota técnica. Não uma lei, não uma portaria: uma nota. Tem critérios, tem números, tem estudos prévios. Só não tem força de lei. Num país onde pendurar um toldo exige licença, parecer e três fotocópias autenticadas, a obra mais agressiva da via pública fica entregue a critérios técnicos que não têm força vinculativa.

No meu ofício chamaríamos a isto um produto sem prospecto: toda a gente subscreve, ninguém leu as condições e quem paga é o cliente, em prestações, na oficina.

O trânsito, que não é parvo, foge para a rua sem lombas. A rua sem lombas enche-se, os moradores queixam-se, a junta ouve, e nasce mais uma lomba. É o ciclo de vida do coelho, com a diferença de que o coelho, ao menos, não custa seiscentos euros em amortecedores.

Entretanto a minha suspensão e eu seguimos o método de sempre: devagar, sem pressa, a pedir desculpa ao chão.

2026-09-29

Prazo de validade

Vinte e quatro horas. É quanto dura, por contrato tácito, uma vida inteira num ecrã. Passado o prazo, o conteúdo caduca como o iogurte, e ninguém se lembra de o ter comido.

Chamam-lhe efémero e vendem-no como leveza. Eu chamo-lhe amortização acelerada: o momento nasce já depreciado, lançado a custos de imagem, e o retorno mede-se em corações. Ninguém pergunta pelo capital. 

Faço o inventário, que é o que sei fazer: o pôr-do-sol que ninguém viu, porque estavam todos a filmá-lo; o jantar que arrefeceu à espera da fotografia; o concerto visto a três centímetros do telemóvel alheio; a dor, com filtro. 

O culto tem liturgia e tem clero. A liturgia é a hora óptima de publicação. O clero são os que já perceberam que a autenticidade é um género, com regras de estilo, e que a espontaneidade se ensaia. Há quem chore em directo com uma iluminação impecável. Não duvido da lágrima. Duvido do ângulo.

Deixou de ter opiniões e passou a ter posicionamento. Deixou de estar triste e passou a partilhar. Deixou de viver e passou a cobrir o evento, sendo o evento ele mesmo. Horas extraordinárias que ninguém lhe paga. 

O mais curioso é que o efémero, hoje, é precisamente o que fica registado. O que se apaga em vinte e quatro horas está guardado num servidor algures, com data, hora e localização. Os antigos temiam a posteridade; nós contratámos um arquivo sem os incómodos da memória. 

Ontem, à mesa, ninguém falou. Estavam todos ocupados a documentar o jantar. 

Nas fotografias, parecíamos felizes.

2026-09-22

A esperança veio tarde


Quando chegou, já eu tinha aprendido a viver sem ela. Trouxe uma pasta, dois formulários e a promessa, sempre a mesma, de que tudo se resolveria dentro do prazo previsto. Sentei-me no meu lugar na fila.

A sala tinha cadeiras de plástico presas ao chão, um número luminoso que não avançava e um cartaz a explicar direitos que ninguém ali parecia ter, afixado com o mesmo cuidado com que se ignora. Um homem repetia ao telefone que “ligava só para confirmar”, pela terceira vez em vinte minutos — a instituição mais eficiente da sala. Uma criança contava os azulejos do teto. Eu contava os formulários, como se recontá-los os tornasse mais eficazes.

Ao meu lado, uma gata dormia com a serenidade de quem não precisa de justificar a própria existência. Ninguém sabia de quem era, nem parecia importar a ninguém que estivesse ali, entre pastas e senhas, como mais um número sem luz. Pensei que talvez fosse essa a diferença entre nós: ela descansava porque estava cansada; eu descansava apenas quando já não conseguia continuar.

O número no ecrã avançou duas vezes e recuou uma. Ninguém se espantou.

No fim, nada se resolveu. Disseram-me para voltar dentro de trinta dias, com os mesmos formulários, talvez com um terceiro — a burocracia, generosa, sempre disposta a dar-nos mais uma oportunidade de falhar. Mas a gata abriu um olho, avaliou o desastre e voltou a dormir.

Foi a forma mais honesta de esperança que encontrei nesse dia.

2026-09-06

A carcaça

Há um automatismo quase litúrgico na forma como empacotamos os dias. Compramos coisas envoltas em plástico duro para proteger o papelão que protege o vidro, trazemos o troféu para casa, desembalamos em três segundos de euforia e ficamos com o verdadeiro património da modernidade: a carcaça.

E depois vem a parte em que a civilização finge que tem o controlo da situação. Olhamos para a tralha com aquela pose de cidadão consciente, postados perante a trindade dos ecopontos como quem decifra um hieróglifo. A caixa da pizza que traz a gordura de três gerações vai para o papel ou é uma heresia contaminar o azul? O pacote de leite — essa monstruosidade da engenharia que junta alumínio, cartão e plástico num abraço eterno — deve ser desmembrado ou atirado à sorte para o contentor mais próximo, enquanto pedimos desculpa aos deuses da ecologia?

Lavo o copo do iogurte com a disciplina de quem limpa pratas de família, gasto três litros de água potável para purificar um pedaço de plástico que vai passar séculos a rir-se de mim num aterro qualquer. Fecho a tampa. É esse o truque todo: fechar a tampa. No segundo em que o saco desaparece na escuridão da ilha ecológica, a cozinha volta a estar limpa, a consciência volta a caber no peito, e eu volto a ser uma pessoa razoável.

Mas “fora” não é lugar nenhum. É só uma desculpa que uso para não dizer “aqui, sempre aqui, à espera”. O pacote de leite não vai para nenhuma galáxia. Fica. Fica na terra que pisamos, fica no rio que passa ao fundo da rua, fica algures por aí, empilhado com paciência mineral, à minha espera para quando eu já cá não estiver a fingir que resolvi alguma coisa.

Não há arqueólogos nenhuns. Há só eu, amanhã, com outro copo de iogurte na mão, a repetir o gesto que já sei que não limpa nada — só desloca a sujidade para fora do meu campo de visão. E isso, ao que parece, chega. Chega sempre.

A economia da cunha

O semáforo da esquina esteve avariado catorze meses.

Não era uma avaria sofisticada. Não exigia inteligência artificial nem um engenheiro da NASA. Era um semáforo: duas ou três lâmpadas com uma função modesta — dizer às pessoas quando podiam avançar sem morrer.

Durante catorze meses, esteve amarelo para todos. Para os carros, para os peões, para quem vinha em sentido contrário.

Houve um acidente. Depois outro. As pessoas do prédio fizeram o que ainda se recomenda a quem acredita nas instituições: assinaram um papel, entregaram-no na Câmara, esperaram.

O semáforo continuou amarelo.

Até que o neto do vereador começou a andar de bicicleta naquela rua.

Resolveu-se em três dias. Apareceu alguém com uma chave de fendas e uma preocupação genuína pela segurança rodoviária que estivera catorze meses em licença sabática.

Ninguém disse "cunha". Disse-se "finalmente deram-lhe seguimento". Já nem é preciso esconder a cunha. Basta mudar-lhe o nome. Hoje chama-se contacto.

A minha avó praticava uma forma mais artesanal e mais honesta de corrupção afectiva. Levava uma caixa de pastéis a quem lhe tratasse dos papéis. Chamava-lhe "uma delicadeza". E havia qualquer coisa de reconfortante naquela transparência: toda a gente sabia ao que ia.

Hoje somos mais sofisticados. Já não levamos uma caixa de pastéis. Levamos um apelido, um primo, um grupo de WhatsApp que não tem nome porque não precisa. E, sobretudo, levamos a convicção de que aquilo que conseguimos não foi por cunha — foi por mérito.

Portugal é um país profundamente comprometido com a coincidência.

Há pessoas que passam meses a tentar marcar uma consulta, obter uma licença, resolver um processo. E há outras que dizem: "Deixa estar, eu conheço lá uma pessoa." Essa frase é o horário de funcionamento não oficial de todos os serviços públicos.

Mas quase nunca vemos quem fica do lado de fora. A pessoa que esperou. Que cumpriu os prazos todos, que entregou os documentos todos, que não conhecia ninguém. Essa pessoa é a moeda da economia da cunha: paga com tempo. E quando se cansa, paga deixando de tentar.

Não aparece em lado nenhum. Nem nas estatísticas, nem na conversa de café, nem sequer na sua própria indignação, porque já se convenceu de que foi apenas azar.

O semáforo está verde há dois anos. Ninguém pergunta porquê.

Não corrigimos o sistema. Corrigimos a memória.