2005-10-31

A compota da tia


Antoine de Villiers - Fervor


...então costumavam ficar deitados, nus, a retomar a respiração. Depois a conversa ia-se tornando pausada, serena, interrompida por umas quantas risadas. Um gole de água e mais uma festa percorrendo a pele. Logo a seguir, uma confidência com atenção nos olhos.


E a tarde ia correndo desapercebida.


Ele sentiu fome:


-Vou lá abaixo buscar um pão com aquele magnífico doce de tomate da minha tia.


Levantou-se, procurando o roupão, e lá foi...


Daí a pouco estava de volta de papo seco, recheado de doce, seguro na mão.


Ao passar por cima dela, rumo ao seu lugar na cama, uma gota de doce de tomate caiu sobre a barriga da companheira. Ali mesmo a Sul do umbigo.


-Oh!...Desculpa. Disse o rapaz atrapalhado.


-Agora limpa! Disse ela olhando a gota vermelha.


Ele pegou numa t-shirt, abandonada aos pés da cama. Mas ela interrompeu-lhe o gesto:


-Limpa com a boca!


O jovem, hesitante, cumpriu a ordem da sua amante, usando a língua.


Limpa a barriga, a mulher arrancou-lhe a sandes da mão, apertando-a com força. Várias gotas insidiosas de doce de tomate tombaram mais abaixo no corpo da amante:


-Limpa! Ordenou ela, outra vez.


-Aí?... Perguntou o rapaz.


-Sim! Aí no canteiro das flores malditas. Confirmou ela. E, depois, num gemido: Aaahhh.... Temos que mandar um cartãozinho à tua tia....a agradeceeeer...

_______

Esta é a contribuição do Gaivina para o comPILAções.



E bom Halloween para todos. Que os velhos deuses celtas vos acompanhem em mais uma mudança de estação!

Afectos


aqui


Os afectos não têm incorporada qualquer função "on"/"off". Os afectos são conquistados. Mas, para isso, há necessidade de espaço para a conquista. Uma porta fechada, um corpo fechado, um preconceito induzido, podem ser um inibidor de partilhas maiores. Nada pode ser forçado. Mas também me parece que nem tudo tem de ser dito. No fundo, eu gosto é de ler a linguagem gestual da disponibilidade para a partilha.

2005-10-28

Olhos assustados


Just travelling on a bus
From a friend's house,
And all these people are looking at me.
They're gazing out windows,
In any English country gardens.

But as gazes meet,
Vacancy shows on screen.
But I feel inside
The latent hysteria:
"Why is she looking at me?"

And as I drift from one to one I can see
They're all like me.
They've all got frightened eyes
Saying what they're thinking,
What they are doing tonight.

They've all got frightened eyes,
Saying, "Leave me alone,
I'm perfectly safe here inside.
Please don't surprise me."

Expressionless.
Everyone here loves cheap wine--
We all know good taste,
We just get too busy trying to find
The right games to play.

Impatient, aren't we all?
Watching the time trip by.
And all these people are looking at me.
They're gazing out windows.
They're burning up in there.

And as I drift from one to one I can see
They're all like me.
They've all got frightened eyes
Saying what they're thinking,
What they are doing tonight.

They've all got frightened eyes,
Saying, "Leave me alone,
I'm perfectly safe here inside.
Please don't surprise me.


O passo rápido no dia chuvoso, os ruídos abafados das botas desencantadas à pressa dos arquivos da moda passada, ou os passos periclitantes de tacões de botas de moda nova; os ares cinzentos e despidos, agasalhados em casacos com cheiro a naftalina e a falta de luar; os compromissos fechados, longe do vento sussurrante; os guarda-chuvas que se cumprimentam quando as gotas levam os sorrisos e os olás.

Observo do meu canto o ir e vir. Observo o não chocar. A passagem dos corpos por entre outros corpos, como se passassem antes por entre pingos. Rostos fechados. Olhos assustados.

E, nos braços, intermináveis ramos de gerberas, para pintar de cor e lágrimas os cemitérios.

2005-10-27

Também brinco!


CarTono

Contaste-me segredos durante a noite inteira por entre os meus cabelos. Juraste que me querias mais do que ao sol da manhã. Pediste-me no sufoco de beijos ardentes que fosse o teu ar. Inventaste um futuro a dois enquanto te perdias por entre os meus seios. Disseste-me que a Primavera vivia nos odores de mulher que se desprendiam do meu corpo. E que no meio das minhas pernas estava a tua casa.

E queres agora que não esteja triste quando, com o raiar do dia, me abandonas com um copo vazio, enquanto te espraias no sofá a ver as últimas tristezas da bola?

Lembram-se dos desafios?

legenda:
Porque estás triste? Não te dei já o sumo de laranja que querias?


Gaivina

Contem-nos a história. Têm o desenho. Têm a legenda. Têm a vossa imaginação. Este é o novo desafio da Voz. Digam lá que já não tinham saudades...

Podem escrever no vosso blogue, ou então mandar para aqui, à semelhança do que fizemos com o comPILAções. Que tal?

2005-10-26

Sobre beijos e abraços


[os abraços] Têm até uma vantagem sobre os beijos. Em vez de plantarem fome e desejo, semeiam o aconchego e um calor de ninho.

v-e-l-ü-t-h-a


Estive a ler este post tão lindo e já lá voltei mais do que uma vez. Pelo texto, mas também pela resposta de onde "roubei" o pedacinho acima.

E pus-me a pensar também nuns quantos beijos perdidos na memória. E também lhes recordo ainda os pormenores. Muitos, muitos beijos. Um por cada ocasião; ou mais do que um, se fosse ocasião disso.

Mas foram os beijos embrulhados em abraços que mais vivos encontrei nos meus arquivos de carinho. Beijos especiais que, assim enovelados no amplexo de braços queridos, plantaram fome e desejo com aconchego e calor de ninho. Foram sempre beijos de "chegada a casa". Beijos completos, pela proximidade de corpos prontos para se darem por inteiro. Beijos que ainda sinto, com a saudade com que recordamos a completude.

As Cartas


Confesso que fui apanhada de surpresa pelo pedido: "Será que posso enviar, de vez em quando um texto, para este Blog, casa tua?"

Que se responde a isto? Que dizer a quem achou o nosso blogue merecedor de um esforço de escrita, que se sentiu tão em casa que quis poder tirar os sapatos e sentar-se na cadeira mais confortável?

Diz-se o óbvio: "força!"

Não sei o que o Gaivina viu na Voz que tanto lhe tenha agradado. Mas, depois de ler o texto que nos deixa, eu só posso dizer: obrigada, Gaivina!

E agora vou escolher uma cor bonita para as palavras do Gaivina. Eu manterei o meu azul cueca.

E deixo-vos então "As cartas".


Gaivina


Não se sabe muito bem, quando Rosa começou a escrever cartas a si própria. A mãe lembrava-se de ter aberto, um dia, a caixa do correio e retirando de lá uma carta proveniente de Buarcos, escrita pela filha e dirigida a ela mesmo. Rosa era ainda uma menina, mas respondera-lhe prontamente “que as tinha escrito para guardar as coisas boas que tinha sentido nas férias”. Tinha medo de se esquecer de tudo quanto vivera naquele areal debruçado sobre o azul e, assim, a melhor forma de guardar aqueles sentimentos era dentro de uma carta.

Eram as cartas de Rosa como pequenos contentores de emoções vividas, preservadas para posterior consulta. Exactamente, como quem não quer perder o pé na vida deixando escapar, sabe se lá por onde, um sentimento precioso habitado no passado. Cada vez que se ausentava, de casa, mesmo que por pouco tempo, escrevia a essa outra leitora que era ela mesmo.

Agora mulher, a sua filha Rosa, anunciara perante toda a família que iria partir pela Europa fora. E, como é bem sabido, não vale a pena contrariar uma mulher que quer trilhar novos caminhos. A mãe e o irmão não tiveram outra alternativa senão aceitar a decisão.

Passadas umas semanas, chegara a primeira carta dirigida à própria viajante. Habituado aos desvarios da irmã, João entregou a carta à mãe que a guardou na gaveta das meias. E as missivas foram chegando espaçadas, tal e qual se sucedem as estações do ano. Ao fim de uns tempos, passaram a chegar todos os meses, algo a que a mãe atribuía a uma densidade de emoções que estavam a ser vividas pela filha, sabe-se lá onde.

Entretanto a saudade e os cuidados foram apertando o coração da velha mulher.

O irmão cuja vida era feita de terra e local, pouco pensava no destino da irmã. Apenas se limitava a entregar as epistolas à mãe, que as reunia em pequenos molhinhos atados por fitas coloridas no fundo da gaveta das meias.

Mas um coração materno tem limites face a uma ausência tão acentuada.

Por essa altura, começaram as cartas a chegar todas as semanas e, ao fim de um tempo, o carteiro trazia todos os dias uma carta destinada à “menina Rosa”.

Os cuidados da mãe, subiram ao coração com uma pressa de maré cheia.

Um dia, de carta na mão, decidiu-se a cometer o mais vil de todos os crimes: violar a correspondência. Angustiou-se com a ideia, mas o vazio uterino de quem espera uma filha falou mais forte. Pegou numa faquinha de prata e abriu o envelope, bebendo com sofreguidão a escrita.

E a filha falava em saudades de casa, da mãe e do irmão, sentindo até falta da geada cobrindo os campos.

A mãe deixou escorregar a carta para o chão enquanto limpava uma lágrima teimosa: Rosa estava prestes a chegar.


Gaivina

2005-10-25

Lista de compras


foto de David Vance


Que o peixinho gosta muito de fotografia já sabia. Que, volta e meia, me oferece umas fotos assim mais... mais... mais a meu gosto, também parece que já todos sabem. Esta estava lá nos Enresinados e eu nem dei conta! Como posso ter deixado passar uma coisa destas? Como? E logo agora que ando a escolher as toalhas de casa de banho novas, que é para poder espalhar os "desejos" por todas as tias e primas antes do Natal?

Assim está mais fácil e é só dizer: tia, é um destes. O jogo de banho, claro!

A 'minha' casa


aqui


As minhas caixas de comentários são um convite a quem vem por bem a esta Voz. Gosto do feed-back que me permitem. Gosto de saber que, por mais sério que seja o tom do post, é nelas que, verdadeiramente, estão os tesouros deste blogue: as tantas e tantas de respostas fantásticas e, muitas delas, imerecidas, que me foram deixando ao longo destes quase quinze meses.

Ali mais em baixo, a Zu dizia que estava confortavelmente instalada num sofá em amena cavaqueira. E podia estar mesmo. Porque também para isso servem estes sistemas de comentários: prolongar, pelo olhar do outro, dos outros, o que vou tentando dizer, nem sempre da forma mais correcta, nem sempre da forma mais clara.

Ao fim deste tempo todo, acabamos por nos conhecer um bocadinho uns aos outros. Nenhum de nós quer passar por santo, suponho, ainda que, como em todo o lado, haja umas personalidades mais frontais do que outras naquilo que dizem e na forma como o dizem.

Os blogues são nossos, ainda assim. De cada um de nós que os abriu e os vai sustentando com o tempo que rouba a outras coisas. Alimentamo-los com as nossas histórias, as nossas palavras, as nossas alegrias e as nossas mágoas. Desabafamos aqui o que nos queima a garganta. Pedimos em silêncio um abraço de amparo e, quase sempre, ele está logo ali, nos comentários que não tardam a chegar. Como partilhamos também a felicidade, os dias bons, a vontade de soltar gargalhadas a despropósito, sem termos de estar a explicar outra vez porque é o nosso sentido de humor tão estranho.

São como as nossas casas. Todas terão o seu feitio, o seu estilo decorativo e pouco importa que uns tenham atacado de assalto o IKEA e outros se ficassem pela Moviflor. É ao gosto de cada um e pretendem-se confortáveis quase todos, polémicos alguns, desbragados uns quantos, antipáticos e caprichosos - e ainda assim com piada e lugares permanentes na bancada - mais uns outros.

Todos os que escolheram ter comentários sabem que estão sujeitos a visitas indesejáveis. Porque há sempre um qualquer filho da puta que aparece onde não é chamado, ou porque não sabe estar quieto, ou porque quer visibilidade, ou porque, néscio, não tem entendimento para mais. Mas até esses já são farinha da casa e quase chegam a ter piada no poucochinho que são.

Agora, pode um ataque concertado, orquestrado, deliberadamente estudado e, suponho, até cronometrado, achar que não vai parar ao balde do lixo? Porque haveríamos nós de dar guarida a quem não vem por bem, a quem não entende o espírito que nos move ao abrirmos estas nossas casas aos comentários de estranhos?

Porque os estranhos entram com cuidado, tomam atenção para não partir logo um bibelô, não conspurcam a casa alheia nem a tentam transformar em esgoto. Os estranhos vêm comentar o que está dito no blogue. Ou o que foi dito noutro comentário. Não vêm atirar merda para as ventoinhas à espera de a ver voar em todas as direcções.

Ora eu nunca gostei de poluidores. E sempre tive cuidado em separar o lixo. E há cagalhões que continuarei a ver desaparecer com as águas da descarga. Afinal, esta é a minha casa e aqui ainda sou eu quem decide o que fica e o que não fica. E a merda vai embora!

2005-10-24

12 anos depois


aqui


A Kate Bush está de volta. Em álbum duplo. E o primeiro single até já anda por aí a rodar.

Oh Pai Nataaaallllll.....

Adeus, tristeza


(recebida por mail)


Sou uma "gaija" afortunada! Há sempre um amigo pronto a mandar-me o presente certo para dizer "até depois" à tristeza.

Como será que adivinhou que eu ia gostar? Hmm...

Bonito par de mãos, não vos parece?


Obrigada, P :)

Sussurros


aqui


Presto atenção ao silêncio e a tua voz diz-me que te falto. Galgo a distância. A tua voz leva-me. Não sei se é só saudade, se esta febre teimosa que não me deixa. Ouço-te. Como se estivesses bem ao meu lado. Quase sinto os teus dedos frios sobre a testa. Quase respiro o teu ar. Sôfrega de ti, como já não ficava há muito tempo. É da febre. É delírio. És tu. Ou apenas a tua voz a percorrer-me os sonhos. Que saudades tenho, às vezes! Assim, de mansinho, quando estou mais frágil e, dos confins da memória, chega-me a tua voz. Baixinho. Bem baixinho. Como se as saudades só se fizessem de sussurros. Como se hoje estivesses aqui de plantão, meu anjo. Como se não tivesses partido nunca. É delírio, por certo. E estas saudades de ouvir a tua voz a dizer-me como te falto... como me faltas.

2005-10-23

Entre marido e mulher…



aqui


Estou para aqui a ouvir os vizinhos de cima a matarem-se aos bocadinhos com gritos e lambadas, sem saber por que cargas d’água acabei eu convidada para um casamento disfuncional.

E a partir de onde fica possível intervir, sem ser ingerência? Depois de um deles estar na morgue?

Slowly goes the night

2005-10-22

Mais um :))

Gueixa

Ele gostava de entrar em jogos de poder, sempre a dominar. Gostava de medir forças mesmo nas relações pessoais. No sexo, também. Nada o excitava mais do que submeter uma mulher ao seu domínio. Queria-a principalmente se ela fizesse tudo o que ele dissesse, se se deixasse subjugar à lei do seu desejo.

Ela era uma mulher misteriosa. Talvez devido à sua capacidade camaleónica de mudança. Era capaz de ser quem quisesse, de se colocar na pele duma personagem que acabara de criar. Era uma actriz de vidas.

Conheceram-se num bar. Trocaram um longo olhar que falava sobre domínio e submissão. O tempo parou e as conversas à volta deles atenuaram-se, concentrados que estavam naquele diálogo silencioso. Ele dirigiu-se à porta e ela seguiu-o. Entraram no carro e ele conduziu-a até a um hotel próximo.

No quarto, estava outra mulher. Nada disseram. Com o olhar, mandou-as despir. Depois, tirou do bolso um rolo de fita preta e amarrou-as como se fossem apenas objectos do seu prazer, corpos sem alma. A que já lá estava, ficou sentada a ver enquanto a outra que tinha vindo com ele, recebia instruções para lhe fazer um fellatio. Ele tinha o pénis erecto de excitação. Ordenou-a que lhe acariciasse os testículos enquanto o ia lambendo e chupando levemente a ponta do sexo. E ela obedecia a tudo o que ele lhe pedisse. Não sentia medo nem estranheza. Entrou no jogo dele por completo...

No final da noite, já vestida, pronta para sair do quarto, ele deu-lhe um cartão com o seu número de telefone. Nunca tinha encontrado ninguém assim que se tivesse submetido completamente a ele sem qualquer resistência e queria repetir a experiência. Saíram todos do hotel. Ele regressou para casa com a sua mulher apagada. E ela? Ela deixou cair o cartão numa poça de água. Regressou a casa a pensar: «Interessante o papel de Gueixa. Amanhã, serei Lara Croft.»


Este é o contributo da
Anukis para o comPILAções.

Obrigada :))

Mundo barulhento

fox.
You are the fox.


Saint Exupery's 'The Little Prince' Quiz.
brought to you by Quizilla



O termómetro marca 39,5°; a voz foi-se; o ruído assombra-me e só me apetece a toca quente onde possa esquecer-me, enquanto me empanturro de chá, bolachinhas e antipiréticos.

(a raposa encontrei via JP e, decididamente, este fim de semana não tem nada a ver comigo)

2005-10-21

No tempo em que os animais falavam


aqui


Começaram assim muitas das histórias que ouvi ler na infância. Histórias sobre um tempo antes de todo o Tempo, um tempo ainda perdido no Paraíso das lendas. Era um tempo em que os animais tinham voz, conseguiam discorrer sobre tudo e sobre nada, faziam valer a sua opinião. Um tempo de magia, de cacofonia babélica. Um tempo em que não se limitavam as fronteiras entre o racional e o irracional...

No tempo em que os animais falavam, os Homens eram por isso menos Homens? Ou seriam os animais menos animais? No tempo em que a voz não marcava a diferença, não era instrumento, não era arma. No tempo em que a palavra não era usava em vão, travestida de plumagens de bom gosto e, no entanto, vã, rota, suja.

No tempo em que os animais falavam, talvez os equilíbrios da natureza se desenhassem em tons mais básicos e fossem contados em tons mais claros, precisos. No tempo em que os animais falavam, talvez a palavra não fosse insulto, medida com a sem medida da veleidade e do despudor.

No tempo em que os animais falavam, será que havia uma palavra brutal para insultar a mãe de alguém? Ou será que os animais se dividiam pelas cores da ideologia? Ou seria antes pela cor dos pêlos? Ou pela vaidade pintada de artifícios?


(Cansa-me já ouvir e ler tanta asneira, que temo que ainda se prove verdade que as vozes de burro chegam ao céu...)

2005-10-20

Actualizando o comPILAções...

A ROSA

Um dia disseste abre as pernas, quero ver-te o sexo. Os joelhos comprimiram-se um pouco mas depois foram caindo, caindo.
Acho que queria exibi-lo e não sabia.
Começaste por olhar, olhar muito, ou não fosse a observação o primeiro passo de todos os métodos.
Depois tocaste com a ponta de um dedo. Foi nessa altura que comentaste que parecia uma rosa. acrescentaste dedos que pianavam, as mãos inteiras que abriam exploravam sentiam.
A rosa ficou com as pétalas cristalizadas. Talvez comovido, beijaste-as, uma e depois a outra, ternamente. E repetiste o movimento. Quando pequenas gotas de prazer começaram a escorrer, lambeste-as. Era mel. Então a rosa amotinou-se, ordenou que a sugasses, que a sugasses. E depois imobilizou enquanto o resto do corpo era varrido por ondas que vinham de longe, de outros nervos e orgãos.
Concluiste que a rosa era apenas a cratera do vulcão. e que continuavas a não conhecer o epicentro. _____mas eu sei que tu sabes que a ciência evolui.

e


PERFUME

Antes que me deite
venho cá dizer-te que hoje quase pus aquele perfume que me dá sorte aos amores e te arrebata beijos.
mas depois pensei não vale a pena. e pus outro. para te desprezar.
é possível isso, sabes?
congeminar, cismar,
ofender, entristecer,
sem que te apercebas.

Encostaste-te a mim e disseste quero trincar-te. se não fossem os teus olhos sombrios dizia-te que sim. e não te desejava. tanto
agora estou quente. e o meu sexo arde. reclama.hesito.
se te convido a molhares-te entre as minhas pernas.
Não me deste tempo para te arrancar possibilidades. as mãos nas mamas cheias. apertadas. até magoar. muito
surpreende-te se depois me calo e te puxo a pele atrás dos joelhos.
Subo e desço, subo e desço, enquanto ouço a secura dos teus dedos nos mamilos.
unta com quebranto e com o meu suor as tuas mãos.
Contra a parede. Contra o chão. Contra, contra, amor.
Diz-me, este é o perfume de que noites?



Os dois da Lilly Rose. E ainda ficou prometido que vinha mais qualquer coisa.

Hoje este blogue está entregue às palavras-desejo de outra mulher. E está muito, mas mesmo muito bem entregue.



(eu vou ali buscar um abanico e venho já...)