Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma casa,
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.
David Mourão-Ferreira - Natal, e não Dezembro
Estava para aqui a ouvir a nova versão do "Do They Know It’s Christmas"...
Confesso que a versão original me parecia bem mais rica em termos de texturas vocais (talvez com a honrosa excepção da Dido, já que a versão original era dominada por vozes masculinas) e que esta não me parece trazer nada de novo, enquanto recriação de um momento inesquecível na música internacional.
Lembro-me bem quando o Bob Geldof surgiu com o tema (e por onde anda o Midge Ure, co-autor da canção?), não apenas com o tema musical, mas antes com o tema da fraternidade das gentes da música para com as pessoas que sofriam e morriam de fome em África. Não juntou apenas as 70 000 libras pretendidas para acabar com a fome na Etiópia. Juntou milhões. Eu ajudei modestamente: comprei o single. Ainda tenho esse velhinho vinil. Mas a fome não acabou...
Lembro a forma como rapidamente se sucediam outras acções semelhantes, com o Live Aid na primeira fila, mas também com o Sun City (Ainda alguém se lembra desta? De quando os músicos se decidiram unir, recusando concertos na África do Sul do Apartheid?) O Apartheid acabou. A fome continua...
Não vou comprar este single. Talvez seja errado, não sei. Mas a verdade é que hoje já não consigo ter a mesma fé num mundo melhor. Hoje já não há ilusões que me façam acreditar que o meu modesto contributo possa fazer a diferença.
Não é a ideia em si. Essa continua bela. É o reconhecimento do quão utópica é. De como os interesses nefastos da comunidade internacional se sobrepõem a todos os interesses piedosos. De que não há santos nem milagres. Só interesses escusos e resultados podres.
Bob Geldof continua a sua senda. Com o Bono, dos U2, ergue ainda a voz para tentar ver perdoada a Dívida Externa dos países do chamado Terceiro Mundo. E admiro a coragem que não o deixa desistir. E a fé que, tantos anos depois, ainda é capaz de fazer prevalecer.
Mas eu olho para este Mundo de hoje e já não vejo a utopia. Continua a ser Dezembro. Continua a fazer frio. E continua a não ser Natal para todos e a consoada universal é a miragem que já não me ilude.
Provavelmente a culpa é minha. Só pode ser minha. Lembro-me de que chorei a primeira vez que vi o teledisco do "Do They Know It’s Christmas". Lembro-me que foi como que um soco no estômago. Estive a ver o novo teledisco, as mesmíssimas imagens de fome e dor e morte...
Estava para aqui a ouvir a nova versão do "Do They Know It’s Christmas"... e já não tenho lágrimas.
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma casa,
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.
David Mourão-Ferreira - Natal, e não Dezembro
Estava para aqui a ouvir a nova versão do "Do They Know It’s Christmas"...
Confesso que a versão original me parecia bem mais rica em termos de texturas vocais (talvez com a honrosa excepção da Dido, já que a versão original era dominada por vozes masculinas) e que esta não me parece trazer nada de novo, enquanto recriação de um momento inesquecível na música internacional.
Lembro-me bem quando o Bob Geldof surgiu com o tema (e por onde anda o Midge Ure, co-autor da canção?), não apenas com o tema musical, mas antes com o tema da fraternidade das gentes da música para com as pessoas que sofriam e morriam de fome em África. Não juntou apenas as 70 000 libras pretendidas para acabar com a fome na Etiópia. Juntou milhões. Eu ajudei modestamente: comprei o single. Ainda tenho esse velhinho vinil. Mas a fome não acabou...
Lembro a forma como rapidamente se sucediam outras acções semelhantes, com o Live Aid na primeira fila, mas também com o Sun City (Ainda alguém se lembra desta? De quando os músicos se decidiram unir, recusando concertos na África do Sul do Apartheid?) O Apartheid acabou. A fome continua...
Não vou comprar este single. Talvez seja errado, não sei. Mas a verdade é que hoje já não consigo ter a mesma fé num mundo melhor. Hoje já não há ilusões que me façam acreditar que o meu modesto contributo possa fazer a diferença.
Não é a ideia em si. Essa continua bela. É o reconhecimento do quão utópica é. De como os interesses nefastos da comunidade internacional se sobrepõem a todos os interesses piedosos. De que não há santos nem milagres. Só interesses escusos e resultados podres.
Bob Geldof continua a sua senda. Com o Bono, dos U2, ergue ainda a voz para tentar ver perdoada a Dívida Externa dos países do chamado Terceiro Mundo. E admiro a coragem que não o deixa desistir. E a fé que, tantos anos depois, ainda é capaz de fazer prevalecer.
Mas eu olho para este Mundo de hoje e já não vejo a utopia. Continua a ser Dezembro. Continua a fazer frio. E continua a não ser Natal para todos e a consoada universal é a miragem que já não me ilude.
Provavelmente a culpa é minha. Só pode ser minha. Lembro-me de que chorei a primeira vez que vi o teledisco do "Do They Know It’s Christmas". Lembro-me que foi como que um soco no estômago. Estive a ver o novo teledisco, as mesmíssimas imagens de fome e dor e morte...
Estava para aqui a ouvir a nova versão do "Do They Know It’s Christmas"... e já não tenho lágrimas.
5 comentários:
Engraçado, pensei exactamente isso, mas numa situação diferente.
Foi nas eleições USA. Por muito que me esforce por fazer pequenas coisas e enviar pensamentos positivos para ver se esta gente acorda e olha em volta, não consigo ou não tenho força. É o que dizes: "olhar para o Mundo e não ver a utopia." Não a vejo nem longe, nem muito longe.
É uma gota de àgua num imenso oceano e a diferença não se nota.
Comentei isso com o meu psicólogo (chiquérrimo!!).
É que por muito que se reme, as ondas são grandes e não nos deixam avançar.
Não falei a nível pessoal, mas a nível universal e global. Isto de querer paz no Mundo é muito engraçado, mas é utópico. Não há volta a dar! Não acredito que viva para ver um Mundo melhor, verdinho e com muita luz, sem armas nem meninos maus ou a sofrer.
Então o Mário sorriu e disse-me:
- Sabes a história do colibri?
- Não... :)
E depois lá ma contou:
- O colibri é um passarinho muito pequenino. Uma vez houve um incêndio numa floresta e todos os animais fugiram do fogo pois era impossível combatê-lo, mas repararam que o colibri entrava e saía do fogo.
Á enésima vez perguntaram-lhe:
"Ó colibri, então o que andas tu a fazer a entrar e a sair deste fogo enorme?"
E ele disse:
"É que eu encontrei um rio e encho o bico de água e atiro para o fogo!"
"Então, tu tão pequenino, achas mesmo que consegues apagar este fogo imenso? É impossível!"
"Eu sei que não consigo e que é impossível, mas eu faço a minha parte..."
É daquelas histórias que nos fazem sorrir e que simplificam muita coisa.
Acho que é isso mesmo: fazer a nossa parte mesmo que os fogos nunca se apaguem...
muitos beijinhos
ps: não conheço a 1a versão da música. E esta não teve muito impacto. Acho que falta qualquer coisa que a 1a versão de certeza que teve. O efeito supresa. Precisava de ser uma nova música. Os que ouvem hoje, não são os que ouviram ontem e que compraram ontem.
No entanto, o videoclip tem umas partes de me deixar de lágrimas nos olhos...
Dizem que sonhar com um colibri é sinal de prosperidade, lucros inesperados, sucesso profissional, triunfo sobre as dificuldades. Deixo-te, portanto, um colibri, para que te preencha os sonhos: http://www.societadeicontenuti.com/img/colibri.jpg
Pode ser que um dia ainda nos seja possível voltar a acreditar em utopias...
(E, no entanto, até estas pequenas e coloridas aves são de uma ferocidade imensa quando se trata de defender o seu território. Bem mais agressivos do que seria suposto pensar olhando a sua leveza, o seu voar delicado...)
Beijo
:)
PS - Quase esquecia dizer: é mesmo muito chique. Digno de uma celebridade :)))
Antes fosse celebridade... (ou não com as conotações que uma celebridade tem...) Custava menos a pagar. No entanto, os resultados provavelmente não seriam tão imediatos! ;)
Obrigada pelo colibri. Talvez sonhe com ele! :)
São pássaros bem bonitos... como as utopias.
Pode ser que, se começarmos a acreditar nas pequenas utopias, estas cresçam e dêem lugar a outras e outras, cada vez maiores...!
muitos beijinhos!
filipa
Acho que tens toda a razão. Há dias em que me esqueço como o mundo me iria parecer pobre se não lhe encontrasse já espaço para os sonhos. E as utopias não serão apenas um sonho mais elaborado?
Beijinhos,
Sofia
On : 12/6/2004 5:57:38 AM Caliope (www) said:
Na altura do Natal, o que me comovia quando era criança, confesso que era:
"Não, não, o coelhinho vai com o Pai Natal e o Palhaço no comboio ao circo..."
E eu ficava toda contente quando o pobre do coelhito não levava uma trincadela eheh Lá deveria imaginar que havia sido poupado um ser inocente eheh
Nós mudamos, assim como as nossas percepções. Vai daí, a música não te toca como antigamente, mas isso não significa que perdeste a capacidade de te emocionar
On : 12/6/2004 1:21:33 PM Hipatia (www) said:
Não, claro que não perdi a capacidade para me emocionar. Só perdi a capacidade para - cheia de vontade - acreditar que era possível a utopia.
Nunca mais se volta a ser tão jovem. Nunca mais se volta a ver o Mundo da mesma forma.
E a verdade é que a nova versão do "Do They Know It's Christmas" apenas me parece demasiado mofada.
A crise colou-se a nós. Apanhou-nos o corpo e a alma. É cada vez mais difícil preservar o dom de sonhar.
Beijinho
Enviar um comentário