2004-12-23

Post Amargo

De palavras não sei. Apenas tento
desvendar o seu lento movimento
quando passam ao longo do que invento
como pre-feitos blocos de cimento.


De palavras não sei. Apenas quero
retomar-lhes o peso a consistência
e com elas erguer a fogo e ferro
um palácio de força e resistência.


De palavras não sei. Por isso canto
em cada uma apenas outro tanto
do que sinto por dentro quando as digo.


Palavra que me lavra. Alfaia escrava.
De mim próprio matéria bruta e brava
--- expressão da multidão que está comigo.


José Carlos Ary dos Santos - Epígrafe



Temos cada vez mais uma sociedade de consumidores viciados, que encontram na compra de bens e serviços, de forma rápida e fácil, o aconchego que antes seria fácil encontrar numa conversa no colo do pai, da mãe, da avó, do avô... E os valores que antes eram transmitidos passam a ser também revisitados à luz de um facilitismo óbvio, baseado na recompensa no imediato.

Alega-se que não há tempo. Eu questiono-me sobre quanto tempo não há e para o quê. Tudo implica cedências. E estas cedências implicam escolhas. Escolhas óbvias acerca do que é ou não mais importante. E se for mais importante passar quatro horas às compras e mais duas ao telemóvel no paleio, em lugar de se redireccionar esse tempo para uma conversa em família ou para uma investigação, então as escolhas terão de ser assumidas. Mas se ninguém é educado para o prazer mediado, aquele que só se consegue mediante um esforço sustentado e árduo, então os valores que deveriam enformar a mentalidade do trabalho estão condenados. Fica assim justificado quase tudo...

À conta de uma série de incidentes com plágio que vieram à tona nos últimos tempos, li coisas, com ar de desculpa, que me deixam profundamente irritada. Para uns, o erro não pode ser evidenciado, já que "todos nós" também sacamos música da Net sem pagar direitos de autor; ou as fotocópias que já algum dia fizemos. Para outros, a desculpa será a imaturidade. Para outros ainda, a perseguição é feita com base em interesses de amigos que se coligam em facções, empolando o erro em função de claques, como se só isso justificasse a denúncia. Ainda há quem se desculpe com a falta de tempo e o difícil que é a vida hoje em dia... Desculpas não faltam!

A vida hoje em dia é difícil para todos. Ou quase todos, pelo menos. Mas antes também o era. Duvido que seja mais difícil tirar um curso hoje do que era há dez anos atrás. Aliás, a muitos níveis, parece-me até bem mais fácil. A recolha de informação está acessível em qualquer ligação à WWW, as bibliotecas virtuais, as Encartas, existem agora. Antes, era preciso ir mesmo para a fila de espera dos livros à moda antiga. Era preciso bater a portas para pedir opiniões. Ninguém tinha telemóvel. As entrevistas faziam-se olhos nos olhos e com um bloco de apontamentos onde se garatujavam as ideias principais. Os computadores eram uma miragem.

Antigamente, era preciso entender conceitos e saber transmiti-los. Não se escrevia smsês nem se culpava o trânsito pelas horas perdidas. Estudava-se no autocarro, ou no combóio. Não se jogavam gameboys, que não havia. Liam-se livros, ou os apontamentos das aulas. E andava-se mesmo de transportes públicos, que o hábito do carrinho aos dezoito anos é algo ainda demasiado recente.

Tudo, hoje em dia, está à disposição de qualquer miúdo para lhe facilitar a vida e lhe permitir aceder a todos os serviços e conhecimentos necessários. E, no entanto, perdeu-se pelos vistos o hábito de batalhar pelo que se quer. De tão fácil que é tudo, caiu-se no facilitismo e tudo o que dê um mínimo de trabalho é descartado.

Assim, torna-se fácil desculpabilizar o erro, encontrar mil razões, mil motivos. E ninguém parece aprender nada de novo com isso. Passa-se a mão pela cabeça culpada, transformando o infractor num coitadinho e pisoteia-se mais um pouco a moral à moda antiga, os valores, as consciências, o que é certo.

Dizia Borges que já tudo foi inventado. E penso que será com base nesse pressuposto que teremos que encarar o Mundo. Mas podemos sempre reinventar o nosso Mundo e ainda assim acabar com uma boa tese. O conceito pode não ser novo. Mas o fruto de um trabalho de investigação, a sua demonstração final, carecem de novidade para terem valor.

Ainda há bem poucos dias dizia na
Vanus que os léxicos são finitos. E, todos nós, acabamos por usar comummente uma fatia ainda mais finita do léxico, já que parecemos condenados a usar sempre um determinado conjunto de palavras, aquelas que conhecemos melhor, as que gostamos mais, as que fazem sentido para reflectir o nosso entendimento do mundo e o transmitir a outros.

Vivemos num mundo onde abundam as palavras mas, cada vez mais, se parecem esquecer conceitos. Como vivemos num mundo que adapta, deturpa, plastifica, muitos dos conceitos e muitas das palavras que os significam. Só não entendo qual é a dificuldade em entender a palavra "roubo", o seu significado...

Penso que funciona tudo com base na lei de menor esforço: a nossa sociedade encontrou e encaixilhou uma série de tópicos que é usual chamarmos difíceis: o primeiro emprego, a economia, o desenvolvimento, a despoluição, o trânsito, as obras, os buracos, etc, etc, etc. Em função destes, todos os outros esforços são desprestigiados. Assim, qualquer tópico que facilite a resolução de um tópico difícil, pode ser confortavelmente "adaptado" por forma a facilitar a vida.

Nesse sentido, se os pais trabalham demasiadas horas para conseguirem garantir um bom emprego e nível de vida e ainda passam mais não sei quanto tempo enfiados no trânsito à custa dos buracos, é fácil entender que se opte por comida take away e se despejem os putos nas escolas, nas aulas de dança, nas aulas de música ou tão somente em frente ao canal Panda. Se derem aos putos um telemóvel 3G e a nova playstation, ainda melhor. Está tudo desculpado, as consciências ficam tranquilas. E esses putos acabam habituados a conseguirem o que querem sem grande esforço, a conseguirem a recompensa no imediato. Uma recompensa física, claro, que as situações emocionais são, obviamente, bem mais complexas.

E ninguém aprende nada de novo. E ninguém se digna a fazer um bom trabalho, com brio. Porque cada vez se dá igual valor à cópia, ao fácil. Porque há desculpas para todos os enredos, todas as artimanhas, todas as canalhices.

Perde-se o respeito pelos outros, pelo trabalho dos outros. Faz-se um bonito à custa dos bonitos dos outros. Mas se não forem descobertos não há mal. Ninguém se importa. A culpa até é da sociedade. A culpa até é do trânsito, até é dos buracos. Até é daquele senhor que nunca conseguiu terminar nada e chegou a primeiro-ministro. Ou dos professores que não ensinam nada, enquanto os meninos falam ao telemóvel nas aulas. Ou a culpa é da Net, onde está tudo ali à mão, tão fácil de copiar. Ou da falta de legislação adequada que continua a perpetuar a impunidade. Ou se calhar até é culpa do tempo. Ou da chuva. Ou das aulas de dança. Ou da ginástica. Ou, ou, ou, ou....

Só não é nunca culpa nossa. Nunca! É que não tínhamos tempo, que o trânsito estava péssimo!

3 comentários:

Mofo disse...

Para começar, estás enresinada.Isso é só para começar. Depois, até o trânsito já não está tão mau como há uns 10 anos, porque eu tive carro aos 19 :)
Que prendas tiveste quando eras pequena? Eu tive as playstations daquela altura, que chamava-se bicicleta, bola de futebol e coisas que tais. Sem contar que com..9 anos? tive um Spectrum 128k, queres mais playstation que isso? :) Podes dar brinquedos aos miudos e dar-lhes na mesma atenção e amor, tem a ver com a personalidade das pessoas, há as que não têm essa capacidade, não tem a ver com disponibilidade.

Em relação aos roubos, e deves estar a falar do jornal "O Público", pois tá claro que acho mal. Mas não é novidade nenhuma, porque a situação de pessoas que escrevem e depois outras, porque são conhecidas, assinam as peças também é errado. Mas também, tanta coisa é errada.

Beijinho

Hipatia disse...

Nem era bem sobre o jornal Público. Estava a falar de algumas desculpas que li para alguns plágios. Uma das desculpas era que não há tempo, que pedem imenso na Faculdade, que o curso é difícil, que estão cheios de trabalho e blá blá blá. Ora, isso não é desculpa. Não é mesmo. Eu também tinha que fazer muitos trabalhos e estudar para muitas frequências e ainda tinha tempo para me divertir e ler e ir a festas. E, nos primeiros dois anos de curso, ainda batia os trabalhos numa velha máquina de escrever que nem sequer tinha corrector. O PC veio (muito) depois.

Nós temos uma idade relativamente próxima, Mofo. Diz-me: alguma vez deixaste de fazer pesquisa para um trabalho e não tentaste sempre fazê-lo o melhor que sabias e podias? Ou pura e simplesmente entravas na Net e copiavas a primeira coisa que te aparecesse? É que me parece que é essa a diferença: hoje, com tanta informação à disposição, com uma parafernália tão grande de meios que simplificam a pesquisa, os meninos preferem mesmo copiar qualquer coisa e já está. Esquecem-se é que há sempre quem já tenha lido. Esquecem-se é que, dê por onde der, plágio é um roubo e, como todos os roubos, é um crime.

Tem a ver com educação, Mofo. Tem mesmo. Há qualquer coisa que falha aqui, se as pessoas nem percebem a gravidade de estarem a fazer batota com a vida. Quem não consegue pesquisar um simples texto e reformolá-lo - é que era o bastante, percebes? que dissessem a mesma coisa de outra forma e, pelo menos no formato, já marcavam a diferença -, mostrando que o entenderam o suficiente para fazer daquela ideia de alguém uma ideia própria., está a fazer batota com a vida. Mas o facilitismo é um hábito terrível e limitador, leva uma geração de putos a achar que, se conseguem copiar, não precisam pensar. E, depois, esses mesmo putos vão para as provas de português falar das "bacias esferográficas do amazonas" e quejandos. E abres um jornal ou uma revista e nem as palavras estão divididas por sílabas. E andas às aranhas a tentar encontrar o sujeito da frase. E lês absurdos sem sentido, como a história do "desemprego ter aumentado 0% em Novembro" ou "os sete artistas compõem um trio de talento". É nisto que dá um ensino que privilegia o fácil, que não obriga a pensar, que fomenta o recurso à cópia, ao plágio, que arranja desculpas blá blá blá para tudo e mais alguma coisa.

Sim, estou enresinada. Muito. Há muito tempo. Talvez por isso seja uma visita tão assídua da vossa casa...

Beijo

Hipatia disse...

On : 12/24/2004 7:16:06 AM vanus (www) said:

Olha tu desculpa-me mas nem li que estou a trabalhar, mas acho que devo ter apanhado alguma coisa

Venho apenas dar-te um beijinho e desejar bom natal, este é sempre um tempo que podemos aproveitar para reflectir e emendar muitos erros que cometemos todos os dias, e nós duas bem sabemos disso

beijinhos migas, até já


On : 12/24/2004 8:46:56 AM Hipatia (www) said:

Sabes bem como sou casmurra quando acho que tenho razão. Sabes bem que baseio a forma como me dou ao mundo numa série de verdades que considero sagradas, invioláveis. Sabes bem que, quando gosto, gosto e pronto. E faço de quem gosto "cousa" (causa?) minha e que saia da frente seja quem for que tentar atingir quem amo. Sabes bem que sou uma bota velha, daquelas de elástico, no que toca a valores e a princípios... E, sim, sou mesmo teimosa. Tão teimosa que não encontro nunca eufemismos que justifiquem o que está errado. Roubo é roubo. Ponto. Seja de um texto que não nos pertence, seja de uma imagem, seja assaltando e violando o segredo de um PC alheio, seja metendo a mão à carteira. É roubo. E não há meias verdades para uma verdade clara. E, ainda que entenda (alguns) dos motivos, recuso-me a compactuar, a desculpar. E sabes bem que me salta facilmente a tampa. Especialmente quando o instinto me faz cheirar o esturro antes ainda de todos os outros verem o fumo. E também sabes bem que sou assim. Ponho na borda do prato tanta coisa, tanta gente, só porque não me cheira bem... Corro o risco de me enganar mas, tu sabes, nem me engano assim tantas vezes. Como recebo plenamente em minha casa, na minha vida, no meu coração, muita gente só porque sim. Porque o instinto me diz que sim. Como tu, minha miga querida, que um dia me apareceste em Campanhã e nem as caras respectivas conhecíamos. E nem foi preciso... Apesar de tudo ou, se calhar, contabilizando tudo, não há mesmo arrependimentos pelo tanto que me pertences, pelo tanto que a tua família me pertence: porque vós sois meus, no sentido ideal daquela família que se escolhe em vez da família que se calha ter.

Beijos grandes de Feliz Natal