2006-10-13

Deixa-me rir

Deixa-me rir
Essa história não é tua
Falas da festa, do sol e do prazer
Mas nunca aceitaste o convite
Tens medo de te dar
E não é teu o que queres vender

Deixa-me rir
Tu nunca lambeste uma lágrima
Desconheces os cambiantes do seu sabor
Nunca seguiste a sua pista
Do regaço à nascente
Não me venhas falar de amor

Pois é, pois é
Há quem viva escondido a vida inteira
Domingo sabe de cor, o que vai dizer
Segunda-feira

Deixa-me rir
Tu nunca auscultaste esse engenho
De que falas com tanto apreço
Esse curioso alambique
Onde são destilados
Noite e dia o choro e o riso

Deixa-me rir
Ou então deixa-me entrar em ti
Ser o teu mestre só por um instante
Iluminar o teu refúgio
Aquecer-te essas mãos
Rasgar-te a máscara sufocante

Pois é, pois é
Há quem viva escondido a vida inteira
Domingo sabe de cor, o que vai dizer
Segunda-feira

Jorge Palma - Deixa-me Rir


Digo-o sem vergonha ou sequer vontade de fazer qualquer postulado: mesmo quando as palavras que descrevem o desejo se pintem da cor ilusora da vergonha, ou se confundam na armadilha dos papéis, ou na terminologia dos géneros, eu gosto de textos que falam de amor, que descrevem o tesão. É apenas assim e pronto: primário e optimizado à minha maneira.

Talvez seja porque prefiro mil vezes o rubor saciado da completude, do saber que existimos em metades, que nos damos para sermos o "um" iniciático e radioso da comunhão absoluta.

E que, passado o momento, somos metade outra vez…

10 comentários:

vanus disse...

Só podes estar a gozar, tu...
Tantos anos a partir-me a cabeça por que eu falava de metades e completude, e quando eu dizia que a numeração devia começar no dois, porque o dois é um...
E tu sempre tão individual, apologista do um como o primeiro de tudo...
O que é que te mordeu?

Hipatia disse...

Desculpa, mas está ali o "um". E continuo a achar que é no "um" que tudo começa. Nem que seja na vontade de empurrar o dois para o três :)

E ainda acho que a completude nunca é definitiva. Fica um "um" para cada lado, à espera que a completude aconteça uma e outra vez.

Mas é no "um" que está o primeiro movimento.

vanus de Blog disse...

Nah..., então o que queres dizer não é o que escreveste.

Se é "um" nunca será metade, mesmo que lhe ponhas o iniciático à laia de experiência em seguida; assim a completude não existe.

Ou se é metade e se se completa em um, ou se é um e se forma um par :)

A completude é sempre definitiva, o próprio conceito é inclusivo.

O um só é o primeiro movimento quando dois, ou seja, se um for metade; pois se o um estiver completo como unidade não tem necessidade de se deslocar; pode formar o "dois par" com qualquer outro um; não só e apenas com a sua metade :)

Hipatia disse...

Deixa-me cá trocar então por miúdos: eu sou um e tu és outro um. Se cada uma de nós der uma daquelas fabulosas aos nossos respectivos, há-de haver ali um qualquer momento a meio em que somos, de facto, um "um iniciático". Que lá porque junta dois uns não vira um dois. Vira uma completude momentânea. No fim, voltamos, cada uma de nós, a ser individuais. Eles também. E ainda bem :)

É que eu estava a falar de sexo, porra! Nestas coisas, já sabes que a palavra nunca chega, por mais floreados com que a adornes ;-) No resto do tempo, não há cá metades para nada nem ninguém. Cada um com a sua individualidade.

Além disso, mais do que um "um iniciático" no meio das minhas quecas, já me ia parecer gente a mais.

(e pronto! Lá se foi a poesia do post, LOL)

maria_arvore disse...

Diria mesmo que é por sermos "metade" que tanto procuramos outra que encaixe.:)

A fusão momentânea é o momento de imortalidade de cada um. ;))

Hipatia disse...

Sim, mas nem sempre encaixamos certo. É preciso cuidado para que não fique com folgas. Outras vezes... mama mia!

vague disse...

temos festa na aldeia e o amor anda no ar, la la la la la...

:)

Hipatia disse...

Há festa sempre que uma Mulher quiser. Já devias saber, Vague Maria ;-)

vague disse...

queria confirmar se pensavas como eu, Hip :D

Hipatia disse...

LOL

Só tu, pá :D