2013-05-19

Viral


Maria Teixeira Alves*, irritada com a aprovação da co-adopção, caiu na asneira de pespegar num post um pleonasmo, referindo-se a "homossexuais do mesmo sexo". E num instante caiu o Carmo e a Trindade porque, obviamente, todos somos impolutos quando nos transformamos em correctores ortográficos dos outros. E a questão real é que havia obviamente por onde desmontar redondamente os argumentos de alguém que acha que as crianças estão melhor se institucionalizadas em lugar de se integradas numa família. Eu, que estou a léguas do pensamento da senhora, sinto-me ainda mais a léguas do golpe baixo e da piadinha fácil. Mas nem sei porque me surpreendo. Uma coisa é certa, quem nunca escreveu um disparate, que atire a primeira pedra. Como já teclei demasiados "peidos" em vez de "pedidos" em espaços bem públicos, recuso-me a ir por aí.


*já me conhecem: obviamente que há sítios para onde nem amarrada me apanham a pôr link.

Pecados

A JP lembrou-me isto:


Não Existe Pecado Ao Sul Do Equador by Chico Buarque on Grooveshark

É que em tempos em que todos os pecados ditos capitais, ou venais, ou o que quiserem, se encontram em grande forma, tingindo o mundo de vermelho sangue, não me chega a parecer pecado nem a gula, nem a luxúria. Quer num, quer noutro, encontro fontes de prazer. E, se um engorda, o outro bem que ajuda a queimar calorias...

Versões II

Versão inglesa: 

"Tradução" portuguesa: 

Mesmo o google tradutor, com todos os seus defeitos, se sai com um «Suazilândia lançou uma ofensiva contra as bruxas voando alto depois de proibi-los de pairar acima 150metres.» 


E mais não digo, que acho que não vale a pena.

Versões

«So we beat on, boats against the current borne back ceaselessly into the past»




«it was an extraordinary gift for hope, a romantic readiness such as I have never found in any other person and which it is not likely I shall ever find again.»

2013-05-17

Nevão em Maio


Há qualquer coisa que me fascina no Norte da Europa... não sei bem o que seja. É, não consigo mesmo perceber o que possa ser tão interessante lá pelos países do frio. Será a música? Será de estar para aqui a espantar-me por haver nevões em Maio no Portugalinho? Vou ali ver as runas e já volto...


2013-05-15

2013-05-13

Peregrinação

fonte


Em dias como hoje, ou quase todo o fim-de-semana, com excepção da bola (e a cada um o seu ópio), o País em geral e as televisões em particular, insistem em fazer de conta que eu não existo.

E o álbum novo é tão bom!

2013-05-12

Por um fio? será?

 fonte

"Alerta vermelho no Governo", diz o Sol e eu não concordo. Não há nada remotamente vermelho neste governo. A inspiração parece-me bem mais perto dos "camicie nere" do que outra coisa. Mas curioso é ver que a múmia está por dentro do assunto. E o mais provável é continuar uma múmia paralítica. Não me parece que seja desta.

Lá mais para o final do mês...

Futebolices



Sempre fui do contra. Bem, quase sempre fui do contra. Mas, no que toca a futebol, sempre tentei ser do contra. Não tendo nunca entendido a mania de tentarem limitar as escolhas a azuis, vermelhos e verdes, resolvi que seria dos de preto. Ora, como a Académica – mesmo morando no meu coração – estivesse sediada um pouco longe, concedi no preto e branco aos quadradinhos. Assim como assim, eram pequenos o suficiente para causar algum espanto quando lá vinha a pergunta da praxe: "és do Porto ou do Benfica?" (é que, durante muitos anos, o Sporting só estava entre os grandes para fazer número, como aliás amiúde vai continuando a demonstrar) e eu abria um sorriso para responder: "sou do Boavista". Depois de anos à míngua pelos motivos que se sabem, para o ano estou de esperanças, nunca verdes, claro: de preto e branco como de costume e o sorriso de antigamente. "Sou do Boavista, claro". A ver se a falta de dinheiro não me estraga os planos de, na época que nem sequer começou, voltar a defender os meus pequeninos e - sim - caceteiros do costume. Vai ser do melhor, especialmente se algum dos armados em grande ainda vier ao Bessa bater com os burrinhos na água.


Como sou boa menina e porque tenho leitores lampiões, abstenho-me de comentar os males de festejar de véspera.

2013-05-11

LOL

«Precisávamos tanto de ser salvos e o melhor que arranjámos foi o Carlos Abreu Amorim»

Leiam o resto aqui. Vale a pena pela gargalhada. Ainda me engasgo todas as vezes na última frase, lembrando os tempos em que lia CAA pelos blogues.

Até ao lavar dos cestos




Todos os anos o Benfica é "campeão de inverno" e, lá pelo Natal, costuma andar a festejar o título. E todos sabemos como costumam acabar as contas. Este ano, quando tudo parecia ser já mais do que fogo de vista, vão ao Dragão depois de, por infantilidade, não terem dado importância suficiente ao Estoril e na esperança de que o Estoril não lhes tenha estragado as contas. Falta saber é se o FCP neste jogo não aparece manco. É que tem andado mesmo tortinho, não é? Dar o título aos rivais em casa era capaz de deixar os andrades engasgados por anos.

2013-05-10

Blogger à beira de um ataque de nervos












Por mais prático que seja um tablet, estou mortinha que o meu portatilzinho chegue do senhor doutor.

2013-05-09

“Oportonity City”



«O filme promocional oficial da Cidade do Porto – “Oportonity City” – ficou em 2º lugar na categoria “Tourist Film”, no “Film, Art & Tourism Festival”, que decorreu recentemente na Polónia. Este festival é uma extensão do International Tourfilm Festival. Os concorrentes são avaliados por um júri internacional composto por especialistas das áreas da indústria cinematográfica, da publicidade e do turismo.»

2013-05-06

A ver se funciona...

Ufa!

















fonte




Ao fim de anos a resistir, finalmente fui obrigada - e logo pelo fim previsto do Google Reader - a actualizar o template do blogue. Lá se foi o velhinho azul e a imagem do universo. Deve ter ido muito mais, mas ainda não descobri. Mas ganhei a possibilidade de ter ali ao lado uma lista rápida dos blogues que mais gosto de ler, sempre actualizada. A ver como nos damos, esta nova casa em tons cinzentos - mas insisto nas letras azul cueca! - e eu, que tão vadia tenho andado destes poisos.

2013-05-05

Dia da Mãe

 fonte


Há algo de profundamente errado quando os putos de 13 ou 14 anos deixam de pedir às mães um novo telemóvel ou um novo computador e começam a pedir antes um curso de alemão ou chinês. E as mães deste país, cumprindo o fado, preparam-se para mais uma geração sangrada, talvez já não para as caixas de pinho que vinham do outro lado do mar ou os bidonville das cercanias de Paris. Mas sangrada.

2013-04-30

Os dias depois

«A única maneira de a História ser benevolente para com Cavaco Silva, o político que deu rosto a todos os pecados e omissões da III República, é a de ela nunca ser escrita. Seria a benevolência do esquecimento, resultante do desaparecimento de Portugal como sujeito histórico, como lugar onde a aventura da vida comum se cristaliza em memória. Será essa a secreta esperança do Presidente?» 

Viriato Soromenho-Marques 


Agora que já se passaram mais uns arremedos de festejos do 25A e se preparam outros tantos para o Dia do Trabalhador, penso como, nestes tantos anos de democracia trôpega, conseguimos recordar Sá Carneiro com um sorriso triste, pelo homem que foi e pelo que nunca pode ser, sequer deixar de ser um grande homem, como amiúde acontece com quem não sabe sair de cena. E penso no seu velho sonho de ter um governo e um presidente à direita. Cumpriu-se, é certo, mas foi triste sorte. Acho que até Sá Carneiro teria preferido nem sonhar, a atentar ao tamanho pesadelo, especialmente daquela coisa inenarrável que normalmente anda silenciosa mas, cada vez que abre a boca, só saem asneiras ou migalhas de bolo-rei.

2013-04-25

Num campo qualquer

 fonte


Há símbolos que já não são pertença nem da direita nem da esquerda e enfeuda-los a este ou aquele pequeno grupo é apenas mais uma forma de alienar todos quantos não assentaram arraiais partidários. E os cravos são nossos, pela liberdade e democracia que, naquele dia, renasceu; pela liberdade e pela democracia que, depois, sobreviveu ao verão; e, muito especialmente, porque é simplesmente belo imaginar um golpe de estado, depois revolução, em que do lado da revolta o único vermelho era o dos cravos nas espingardas e, não fosse o Carmo, a revolução tinha-se cumprido sem sangue. Depois o sangue acabou por correr, como corre sempre quando há interesses em conflito e o País precisou dizer não à ditadura que se anunciava para substituir a ditadura que partia. Mas em Abril foram cravos rubros de sangue. E o imaginário é assim que se constrói.

2013-04-12

Mais cego é quem não quer ver

 fonte

E, pronto, cá estou eu de manguito preparado, vítima certa da caça cega aos cobres que sobram da classe média acossada. E de nada vai servir o manguito, mesmo bem preparado e com um acrescento para o adaptar aos tempos: um dedo médio bem erguido num punho que já não se fecha à moda antiga, que esse símbolo já me esgotaram.

2013-04-05

hmmm...



E temos, portanto, o cordeiro finalmente imolado. Estranhamente, ou talvez não, conseguiu resistir até depois da Pâscoa...

2013-03-30

Sábado do Aleluia

The Hill of Crosses by Sol Invictus on Grooveshark

Past our pain and our losses
When we climb the hill of crosses
March through death to where love is
When you climb the hill of crosses

2013-03-29

Pâscoa



E portanto é suposto sermos filhos de um Deus castigador e castrador e irmãos de um outro Deus flagelado. Talvez a pomba só lá tenha estado sempre para enganar...

Francisco



Se o poder não movesse as religiões, não necessitavam de hierarquias, nem se jogava a boa vontade dos crentes pelas bitolas dos pecados. Eu nunca tive dúvidas de que o Deus que nos apresentam as religiões - especialmente as 3 grandes religiões monoteístas - é um Deus fabricado. Mas irrita-me o que se pode alegar e/ou fazer ou dizer em nome de uma construção, especialmente quando se especializam na discriminação enquanto engalanam as bandeiras da culpa e do medo. O rebanho que sobra deve ser persuadido a ficar no redil, fabricando que seja uma espécie de “extreme makeover” por qualquer “spin doctor” com coleira branca. E fica apenas mais do mesmo quando se levanta o véu.

2013-03-28

hmm...




Não devia caber um feijão no rabo de Passos Coelho; mas mais certo ainda era não caber nem um grão de arroz no de António José Seguro. Cavaco Silva provavelmente não sabia sequer que havia espectáculo e deve ter permanecido em hibernação na tumba, mas com as orelhas bem vermelhas de tanto ataque personalizado e - provavelmente - merecido. O diabo e bode expiatório a um tempo está de volta. Vai ser bonito, vai. Não parece ter vindo para medir palavras e a treta do pro bono deve ter engasgado muita garganta. Ou então, é mais um rato a ser parido pela proverbial montanha. Também não seria novidade.

2013-03-24

Aniversário

fonte


Sei que há dias em que me olho ao espelho e me sinto muito poucochinha. Só que aquilo que só a idade me ensinou é que essa insegurança tem muito pouco a ver com o meu corpo. Não podia continuar a culpar o meu corpo - como fiz durante muitos anos - pela forma deslocada como sempre me vi no mundo. E hoje em dia assusta-me bem mais estar padronizada, homogeneizada, sem pingo de criatividade ou garridice, sem chama. 

Acho que tem a ver com o que chamam maturidade e é bem mais do que as cãs que me pintalgam os cabelos ou o quão mais difícil parece hoje perder ou ganhar um par de quilos. Mas há um conforto com a própria pele que antes não conhecia. A maturidade trouxe-me também essa independência e já não me assusta a autonomia enquanto cobiço o conforto de estar diluída na multidão. Mesmo que esteja, porque estou. Só que a busca já começou a ser feita no sentido inverso…

2013-03-23

Acho que já vi este filme


Pavilhão Atlântico, genro de Cavaco Silva, Autoridade para a Concorrência... Deve estar tudo bem :/

2013-03-19

olha!


Parece que afinal Cavaco Silva está vivo: foi a Roma ver o Papa. Só não vê nem Portugal nem os portugueses.

2013-02-28

Blogocoisa

fonte


Há quase nove anos que tenho um blogue. A vários níveis, é um verdadeiro "blogue de gaja", pejadinho de emoções, com dias de séria evidência de que a PMS bateu forte, outros manso e tranquilo, de vida pouco amotinada. Também foi sempre um blogue de crítica contundente e opiniões fortes. De insultos é que não. Vá, de insultos personalizados quase nunca, tirando a algumas aves raras que me questionaram directamente na caixa de comentários. Crítica (quase) insultuosa a políticos muitas vezes, mas sempre remetendo directamente para qualquer opinião expressa pelas criaturas e, que me lembre, comentário – que pretendi como piada e acho que assim foi entendido – a realçar traços específicos de qualquer figura pública, talvez o nariz do Sócrates, a altura do Marques Mendes, a dentadura de Cavaco Silva e o sapatinho vermelho do agora Papa Emérito. Mas eu também nunca precisei de mais, num blogue marginal que sempre quis ser anónimo e anódino, onde sempre se falou da vida sem pudor, com bastante vernáculo à mistura mas – espero – o mesmo respeito pelos outros que gosto que os outros reservem para mim.

E confesso que me farto facilmente de ver declinações sucessivas de temas e pessoas que querem sempre enfiar tudo e todos em fatos por medida, esquecendo a visão enviesada com que o fazem só para poderem continuar a enfiar-se em determinado figurino onde, por vezes, só cabem esquartejadas e com demasiados rabos de fora. E irrita-me a pose sobranceira de gente ignorante por opção. Quaisquer bons neurónios funcionais vão valer sempre muito mais do que uma carteira Gucci, ainda que vá continuar a haver gente a achar que é a roupa que faz a pessoa, deixando à mostra para lá do figurino o vácuo abjecto, porque promovido "ad nauseum" no sem assunto relevante e alimentado a folclore revisteiro e "calúnias" sociais. 

Não sei se gosto sempre do meu blogue. Ultimamente já nem o tenho nas rotinas diárias. E não sei sequer se gosto sempre de ser quem sou; há muitos dias em que enjoo de mim. Mas já estou demasiado crescidinha para querer parecer o que não sou. E demasiado empurrada pela vida para cá e para lá para reconhecer que, ao publicar e deixar qualquer flanco a nu, o melhor é fazê-lo com respeito, uma pitada de piada, frontalidade e sem olho nas "page views". Há vida e sentimentos do outro lado do ecrã. Sempre houve. E quem não sabe respeitar, não merece respeito. E quem se limita às aparências está, depois de correr toda a tinta necessária, condenado a ser o idiota de serviço, aquele por quem temos apenas uma espécie de vergonha diferida. É que sempre houve na "blogocoisa" um reflexo perfeito do que se passa para lá dela: há as cliques, os ódios, os interesses, as modas, as votações em qualquer coisa, as micro e macro causas e muita, demasiada gente, que encontrou aqui um púlpito onde tentaram fazer-se maiores ou melhores do que os outros. Alguns transitaram para a política activa, outros nela continuaram mas com visibilidade reforçada, outros ganharam os seus quebrados falando do que sabiam e não sabiam e outros só porque eram o exemplo acabada de um certo nicho que, na realidade, nunca deu para mais. Depois, estamos nós deste lado, os que têm e os que não têm blogue, os que já viram demais e conhecem além do projecto apresentado e sabem que, no fundo, uns e outros vivem em função da imagem que projectam e pelam-se de medo de apenas serem o que são. Uns provam-se interessantes; outros ficam reservados a serem "sound bites" ou pixéis supérfluos. No fim, cada um tem o público que merece e mais não se pode esperar.

2013-02-26

Vício



A questão é que uma relação duradoura é, forçosamente, uma relação de dependência; com sorte, de interdependência. Mas, depois, quando o tapete foge de debaixo dos pés, sobra muitas vezes apenas um agarrado com síndrome de privação.

2013-02-16

Carta aos amigos mortos

fonte


Eis que morrestes - agora já não bate 
O vosso coração cujo bater 
Dava ritmo e esperança ao meu viver 
Agora estais perdidos para mim 
- O olhar não atravessa esta distância - 
Nem irei procurar-vos pois não sou 
Orpheu tendo escolhido para mim 
Estar presente aqui onde estou viva. 
Eu vos desejo a paz nesse caminho 
Fora do mundo que respiro e vejo. 
Porém aqui eu escolhi viver 
Nada me resta senão olhar de frente 
Neste país de dor e incerteza. 
Aqui eu escolhi permanecer 
Onde a visão é dura e mais difícil 

Aqui me resta apenas fazer frente 
Ao rosto sujo de ódio e de injustiça 
A lucidez me serve para ver 
A cidade a cair muro por muro 
E as faces a morrerem uma a uma 
E a morte que me corta ela me ensina 
Que o sinal do homem não é uma coluna. 

E eu vos peço por este amor cortado 
Que vos lembreis de mim lá onde o amor 
Já não pode morrer nem ser quebrado. 
Que o vosso coração que já não bate 
O tempo denso de sangue e de saudade 
Mas vive a perfeição da claridade 
Se compadeça de mim e de meu pranto 
Se compadeça de mim e do meu canto.

Sophia de Mello Breyner Andersen

Hallelujah

2013-02-12

Cair do pano


Eu nunca gostei deste Papa que sucedeu a João Paulo II. Não gostei de quase nada do que fez ao longo do pontificado, dos retrocessos evidentes que lhe encontrei em direcção a padrões de fundamentalismo que pensei que o Catolicismo estaria paulatinamente a abandonar, desde as missas de costas voltadas para os fiéis, passando pelo facto de me ter chamado terrorista aquando dos debates sobre o referendo à IVG, com os escândalos da pedofilia dos padres de permeio e acabando no canto gregoriano. Não que eu tenha alguma coisa contra o canto gregoriano, ou sequer o Latim, mas pareceu-me sempre estranho que o chefe da ICAR se empenhasse em transformar as celebrações de fé em algo em que os crentes permanecessem alheados, como que meros espectadores do evento, em lugar de envolvidos e participativos no mesmo. E, no entanto, em alguns momentos, Bento XVI conseguiu surpreender-me profundamente, eu que sempre fui tão renitente em apreciar-lhe qualquer qualidade. Como agora. Ser chefe máximo da ICAR é ter um tremendo poder nas mãos; será talvez também um fardo impensável. Mas os grandes homens, mais do que saberem persistir, devem saber quando chega a hora de saírem de cena. E agradeço especialmente não necessitar voltar a assistir a uma agonia televisionada, como a de João Paulo II.

2013-02-08

E as crianças, Senhor?

CARTA A MINHA MÃE SOBRE O SNS E OUTRAS COISAS EM PORTUGAL



por Teresa Pizarro Beleza*


«"Mãe, sabes que agora em Portugal mandam uns senhores que estão a dar cabo do Serviço Nacional de Saúde? E que dizem que é por causa de uma tal de troika, que agora manda neles? Lembras-te da "Lei Arnaut", que, segundo ele mesmo diz, tu redigiste, depois de muito pensares e estudares sobre o assunto, com a seriedade e o empenho que punhas em tudo o que fazias?



Lembras-te das nossas conversas sobre a necessidade de toda a gente em Portugal ter acesso a cuidados de saúde básicos de boa qualidade e de como essa possibilidade fizera em poucos anos baixar drasticamente a mortalidade materna e infantil, flagelos nacionais antigos, como uma das coisas boas que se tornaram realidade depois de 1974 e com a restauração da democracia?



Lembras-te de quando eu te dizia que eras tão mais socialista do que "eles", os do Partido Socialista, e tu te zangavas porque não era essa a tua imagem e a tua crença?



E quando eu te dizia que o ministro António Arnaut era maçon e tu não acreditavas, porque ele era (e é) um homem bom - e para ti a Maçonaria era a encarnação do Diabo...



Mãe, tu, que te dizias e julgavas convictamente monárquica, católica, miguelista, jurista cartesiana (isso era o que eu te dizia e que penso que eras, também), que conhecias a Bíblia e Teilhard de Chardin como ninguém e me ensinaste que Deus criara o homem e a mulher à Sua imagem, quando pronunciou o fiat, porque assim se diz no Génesis...



Tu que dizias que o problema dos economistas era que não tinham aprendido latim... e me tiravas as dúvidas de português e outras coisas, quando me não mandavas ir ao dicionário, como agora eu mando o meu Filho...



Tu que foste o meu "Google", às vezes renitente, quando este ainda não existia... Sabes que agora manda em Portugal gente ignorante e pacóvia, que nem se lembra já de como se vivia na pobreza e na doença, que julga que o Estado se deve retirar de tudo, incluindo da Saúde, e confunde a absoluta e premente necessidade de controlar e conter o imenso desperdício com a ideia de fechar portas, urgências claramente úteis social e geograficamente...



Sabes que fecharam o Serviço de Urgência e o excelente Serviço de Cardiologia do Hospital Curry Cabral sem sequer prevenirem ou consultarem o seu chefe? Onde irão agora todas aquelas pessoas tão claramente pobres, vulneráveis e humildes que tantas vezes lá encontrei e que não pareciam capazes de aprenderem outro caminho, outro destino, de encontrarem outros dedicados e pacientes "ouvidores"?



Sabes que um ministro qualquer disse que o edifício da Maternidade Alfredo da Costa não tinha qualquer interesse urbanístico ou arquitectónico, para além de condenar ao abate essa unidade de saúde, com limitações já evidentes, mas que tão importante foi para tanta gente humilde ter os seus filhos em segurança? Será mesmo que não a poderiam "refundar", como agora se diz? Ou quererão construir um condomínio fechado, luxuoso e kitsch, no meio de uma das minhas, das nossas cidades?

Lembras-te de me ires buscar à MAC quando nasceu o meu Filho e de como te contei da imensa dedicação do pessoal médico e de enfermagem e da clara sobre-representação de parturientes de origem social modesta, imigrantes, ciganas, ou simplesmente pobres?


Sabes que há muita gente que pensa que a iniciativa privada, incontrolada e à solta, é que vai salvar Portugal da bancarrota, e que ignora o sentido das palavras solidariedade, justiça, igualdade, compaixão?



Sabes, Mãe, eu lembro-me de ver pessoas que partiram de Portugal para o mundo em busca de trabalho e rendimento a viver em "casas" feitas de bocados de camioneta, de restos de madeira, de cartão e outros improváveis e etéreos materiais, emigrantes portugueses que foram parar ao bidonville em St Denis, nos arredores de Paris, num Inverno em que a temperatura desceu a 20 graus Celsius abaixo de zero (1970). Nas "paredes", havia toda a sorte de inscrições contra a guerra colonial e contra o regime que então reinava em Portugal.



O padre Zé, o nosso amigo da Mission Catholique Portugaise que me acompanhava e me quis mostrar o bairro, proibiu-me de falar português e de sair do carro enquanto ali passávamos... e aqui em Portugal eu vi tanta miséria envergonhada, homens de chapéu na mão a pedir emprego, mulheres e crianças a pedir esmola, apesar de todas as leis e medidas que o Estado Novo produziu para as esconder, como já fizera a Primeira República.



A pobreza e a vadiagem não se eliminam com Mitras e medidas de segurança, mas com produção e distribuição de riqueza e de justiça social. Com a promoção da igualdade e da solidariedade, como manda a Constituição.



E a Saúde, Mãe, que vão fazer dela? Da saúde dos pobres, dos velhos, das crianças, dos que não têm nem podem ter seguros de saúde de luxo, porque não têm dinheiro, porque já não têm idade, ou porque não têm saúde?



E as crianças, Mãe? Vão de novo morrer antes do tempo porque o parto foi solitário ou mal assistido, porque a saúde materno-infantil passou a ser de novo um bem reservado a alguns privilegiados, ou porque a "selecção natural" voltará a equilibrar a demografia em Portugal, recolhidas as mulheres a suas casas, desempregadas e de novo domesticadas, e perdida de novo a possibilidade de controlo sobre a sua própria fertilidade?



O planeamento familiar, que tu tão bem explicaste que deveria segundo a lei seguir a autonomia que o Código Civil reconhece na capacidade natural dos adolescentes - tu, católica, jurista, supostamente conservadora (assim te pensavas, às vezes?)...



Sabes que aqui há tempos ouvi uma jurista ignorante dizer em público que só aos 18 anos os jovens poderiam ir sozinhos a uma consulta de planeamento familiar, quando atingissem a maioridade, sem autorização de pai ou mãe? Ai, minha Mãe, como a ignorância é perigosa... Será que nos espera um qualquer Ceausescu ou equivalente, dado o progressivo estrangulamento político e social a que a necessidade económica e a cegueira política nos estão levando?



Os traços fascizantes que são visíveis na repressão da liberdade de expressão e de manifestação, em tudo tão contrários à Constituição da República, serão só impressão de uns "maníacos de esquerda", como dizem umas pessoas que há tão pouco tempo garantiam que essa coisa de esquerda e direita era coisa do passado?



Mas as crianças são o futuro, Mãe, que será deste país sem elas, sem a sua saúde e sem a sua educação, sem o seu bem-estar, sem a sua alegria? Eu lembro-me tão bem dos miúdos descalços e ranhosos nas ruas da minha infância... e da luta legal, tão recente ainda, quem sabe se perdida, contra o trabalho clandestino, ilegal e infame das crianças a coserem sapatos em casa, a faltarem à escola, a ajudarem as famílias, ainda há tão pouco tempo, ou dos miuditos com carregos e encargos maiores que eles, à semelhança das mulheres da carqueja a subirem aquela rampa infame que Helder Pacheco, o poeta-guia do nosso Porto, tão bem descreve...



"Que quem já é pecador sofra tormentos, enfim! Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor?!... Porque padecem assim?!..."



Mãe, se agora cá voltasses, ao mundo dos vivos, acho que terias uma desilusão terrível. Melhor que não vejas o que estão fazendo do nosso pobre país.



Da tua Filha, com muita saudade,



Maria Teresa"



Ericeira, Portugal, Europa, dia 31 de Dezembro de 2012»



* Professora de Direito Penal, directora da Faculdade de Direito da
Universidade Nova de Lisboa. tpb@fd.unl.p



2013-02-02

Inverno

2013-02-01

meus dias quebrados na cintura

Os navios existem, e existe o teu rosto 
encostado ao rosto dos navios. 
Sem nenhum destino flutuam nas cidades, 
partem no vento, regressam nos rios. 

Na areia branca, onde o tempo começa, 
uma criança passa de costas para o mar. 
Anoitece. Não há dúvida, anoitece. 
É preciso partir, é preciso ficar. 

Os hospitais cobrem-se de cinza. 
Ondas de sombra quebram nas esquinas. 
Amo-te... E entram pela janela 
as primeiras luzes das colinas. 

As palavras que te envio são interditas 
até, meu amor, pelo halo das searas; 
se alguma regressasse, nem já reconhecia 
o teu nome nas suas curvas claras. 

Dói-me esta água, este ar que se respira, 
dói-me esta solidão de pedra escura, 
estas mãos nocturnas onde aperto 
os meus dias quebrados na cintura. 

E a noite cresce apaixonadamente. 
Nas suas margens nuas, desoladas, 
cada homem tem apenas para dar 
um horizonte de cidades bombardeadas. 

Eugénio de Andrade - Palavras Interditas, in Poesia e Prosa

2013-01-21

É tentar...

Just Try by Soulsavers on Grooveshark

You came to me with open arms
To take away my fears
I took you in and you stayed a while
You lived with me right here

You told me to believe in something
Something that's true
Like the mountains and the deep blue ocean
So much bigger that you

You said: Just try
Come on, just try
Just try
Just try

Just try

I offered you a place to stay
Somewhere to rest your head
The Lord knows I need you here
There were something you said

You'll have to believe in something
Something bigger than you
Like the great white open spaces
There's religions too

She said: Just try
Come on, just try
Just try
Just try

Just try

You gave me more than I deserved
You gave me peace
You gave anything i loved in this world
And now I have to sleep

Just let me sleep...

Just try
Just try
I have to sleep
Just try
Just try

2013-01-15

Haiti




No passado dia 12 completou-se mais um ano desde que um terremoto destruiu o Haiti. Esta é uma das formas possíveis de o recordar.

2013-01-13

Chega!

«a Constituição não está suspensa e qualquer organização internacional, mesmo os nossos credores, têm de ter respeito pelas instituições democráticas de qualquer Estado soberano.» 

António Arnaut à Lusa, 09-01-2013

A democracia não pode ser imposta. É sufragada. Por mais que reconheça a necessidade de mudanças, não quero uma constituição rasgada e substituída por um qualquer rascunho mal amanhado de quem nem sequer é português. Ainda somos um Estado de direito, por mais que a justiça dê as suas curvas.

2012-12-29

Parabéns, miga!



"Our flag still waves in the dusk
Who do you trust?"

Há músicas - ou bandas - que associo a pessoas imediatamente. Os Spain já foram qualquer coisa que só "de janela aberta". Mas depois o tempo passa - passa sempre! - e as janelas continuam abertas, mas já não para o precipício. Hoje esta é para a minha amiga.

Zachary Cale & The Black Swans

Tertúlia Castelense - 22 de Novembro de 2012

2012-12-21

O fim do mundo




Se o mundo ainda acabar até à meia-noite, o mais certo é já apanhar-me a dormir. Podem avisar o São Pedro que a nuvem tem de ser confortável e, se é para ter anjos por vizinhos, então quero um vizinho tipo Metatron, versão Alan Rickman. Vale?

2012-12-16

Feios, Porcos e Maus




«There is little doubt that America has a serious and growing problem with mass shootings. There have been at least seven this year where four or more people have been killed. Added together they have claimed a total of at least 65 lives. But those numbers pale in contrast to the simple toll of shooting victims that plays out across America every single day in a regular parade of gun violence.

According to the Brady Campaign, which advocates gun control, around 100,000 Americans are wounded or killed by guns each year. One of its studies showed US murder rates are almost seven times higher than rates in 22 other populous high-income countries who have similar rates of lower level crime. The same study showed that America's firearms homicide rate is almost 20 times higher.

Yet despite the violence the US Congress has not enacted any major firearms regulations other than a law aimed at improving state reporting for federal background checks. Indeed, regulations have actually loosened over the last decade as a 1994 assault-weapon ban expired in 2004. Most of the current debate in American policy circles has actually been around the issue of expanding citizens' rights to carry firearms openly in public.»

Paul Harris

Entrar numa caixa de comentários de uma qualquer notícia sobre o massacre de Sandy Hook deixa-me chocada e enojada com a maioria das opiniões expressas. Para muitos, não é preciso reforçar as leis de controlo de armas; para muitos, o que estava bem é que cada americano, incluindo cada criança, tivesse uma arma para assim poder defender-se. É uma mentalidade totalmente contrária a qualquer lógica suportada pelas evidências e os números. Tirando o maluco da Noruega, quando se fala em massacres, de que País nos lembramos, que casos somos capazes de nomear? Quantos aconteceram depois das reacções chocadas a seguir a Columbine? Que gente é aquela que resolve tudo a tiro, como se ainda vivesse no far west e todos fossem apenas feios, porcos e maus?

2012-12-12

Rascunho



Tripeira, sem tento nas letras nem açaimo nos dedos, há dias em que chego ao final da tarde e só me apetece pintar páginas de palavrões para lavar a alma do descalabro da vida que nos sobra da labuta. E exclamo sem dó, com um enfático ponto respectivo e vernáculo condizente. "Em que estás a pensar?", pergunta-me a caixinha da moda. Ninguém quer saber realmente. E o rol de obscenidades com que me apetece sempre responder à pergunta tem sido tamanho que a lista de palavrões já não caberia no espaço diminuto de um final de tarde cansado ou na tal caixinha enfezada e coscuvilheira. A crise tão nem trazido o melhor de mim! E há gritos que engulo e, na garganta, ganham um granulado de fel que me enoja. Acabo por não dizer. Não, ninguém quer mesmo saber em que estou a pensar...

2012-12-05

coisas que não ouvia há muito tempo...



Cuando tú apareciste, 
penaba yo en la entraña más profunda 
de una cueva sin aire y sin salida. 
Braceaba en lo oscuro, agonizando, 
oyendo un estertor que aleteaba 
como el latir de un ave imperceptible. 
Sobre mí derramaste tus cabellos 
 y ascendí al sol y vi que eran la aurora 
cubriendo un alto mar de primavera. 
Fue como si llegara al más hermoso 
puerto del mediodía. Se anegaban 
en ti los más lucidos paisajes: 
claros, agudos montes coronados 
de nieve rosa, fuentes escondidas 
en el rizado umbroso de los bosques. 
Yo aprendí a descansar sobre tus hombros 
y a descender por ríos y laderas, 
a entrelazarme en las tendidas ramas 
y a hacer del sueño mi más dulce muerte. 
Arcos me abriste y mis floridos años, 
recién subidos a la luz, yacieron 
bajo el amor de tu apretada sombra, 
sacando el corazón al viento libre 
y ajustándolo al verde son del tuyo 
Ya iba a dormir, ya a despertar sabiendo 
que no penaba en una cueva oscura, 
braceando sin aire y sin salida. 
Porque habías al fin aparecido. 

Retornos del amor recién aparecido - Rafael Alberti

2012-12-02

2012-11-15

E quanto à polémica do dia...

foto: RAFAEL MARCHANTE - REUTERS


... só tenho uma perguntinha: quem atirou a primeira pedra?

2012-11-02

Só a mim!

fonte 

A amiga é roubada e eu é que levo música da polícia! Sim, que fiquei a saber que naquela esquadra há muitos agentes solteiros que de certeza não se importavam de ir beber um copo com as meninas, ou até mesmo o Sr Agente casado, que também era capaz de ir, caso não estivesse de serviço. No entretanto, como nenhum de nós gosta do Cavaco, dos impostos, do Passos Coelho, do Gaspar e dos sindicatos, a documentação que nem devia poder ser levantada já vai a caminho da casa certa. E metem-me em cada uma! Pelo menos, agora posso ter guarda-costas a pedido, que até tenho cartãozinho de contactos caso precise...