2005-01-04

Bem vindos à barbárie!

(...) este século [séc. XX] nos ensinou, e continua a ensinar, que os seres humanos podem aprender a viver nas condições mais brutalizadas e teoricamente intoleráveis, [pelo que] não é fácil apreender a extensão do regresso, por desgraça cada vez mais rápido, ao que os nossos antepassados do século XIX teriam chamado padrões de barbarismo.

Eric J. Hobsbawm – A Era dos Extremos


O século XX foi o século mais assassino de que há memória, quer na dimensão das tragédias, quer no número de vítimas. Mas também na precisão cirúrgica com que passou a ser possível matar à distância, tornando viável ao algoz distanciar-se da vítima, das vítimas, já que não mais precisava fitar os olhos de quem morria.

O final do século, transformou as guerras em jogos de playstation, com maquetas animadas e alvos a verde fluorescente. As vítimas são desumanizadas e o assassino livra a consciência dos corpos decepados, dos esgares moribundos.

Os jogos políticos são dominados por figuras intelectualmente vazias, sem qualquer réstia de convicção, puppets de sondagens e de especialistas de marketing. O dinheiro domina tudo e lava valores, demite crenças, subjuga a moral. Os bêbados, os drogados, os incompetentes, deixaram as franjas da sociedade e instalaram-se nos poisos desta nova política casada com a mais velha profissão do mundo.

Como o Mundo é cada vez mais só um, a podridão espalha-se à guisa de pandemia. E, enquanto os vários Estados se vão alinhando em função dos seus interesses, as posições vão-se extremando em lógicas compulsivas e diferentes jogos dicotómicos dificilmente permitem qualquer tipo de cedência. O endurecimento das posições faz temer pelos próprios resultados.

Quanto ao "Zé Povinho", esse parece não ser tido nem achado, ainda que a tal democracia que tantos ousam invocar o tivesse feito acreditar que era senhor do seu destino e que a sua vontade contava mais do que no tempo em que os totalitarismos eram mais a regra do que a excepção.

Talvez seja mesmo necessário repensar todas as nossas percepções do mundo e da convivência entre os Estados e entre as gentes a partir de agora. E talvez pensar na necessidade de criar uma figura de "cidadania planetária", para que a voz de todos não seja anulada pelos interesses de alguns.

Mas ontem e hoje dei por mim a temer sobre que parte dos fundos disponibilizados para ajuda aos países asiáticos será desviada para favorecer uns poucos, para comprar armas, para comprar influências.

E o meu ideal de cidadania planetária quedou-se carcomido, enjeitado, simples demagogia. Porque cada vez me parece mais que esse era o ideal a cumprir mas que, no entretanto, só nos resta dar as boas vindas à barbárie...

5 comentários:

Mofo disse...

É, acho que andamos todos assim, tristes.
É muita morte a chegar-nos todos os dias pela televisão, é demasiado. Eventualmente acaba por nos afectar, e isso nota-se na escrita.

filipa disse...

Estamos a presenciar o que de muito bom e de muito mau tem a raça humana. Em grandes massas.
Cada vez irá haver a necessidade de nos tornarmos Um. É esse o ideal utópico que vai ter de acontecer, ou a bem ou a mal...
Para tal acontecem as catástrofes de carácter ultra violento: para comover e acordar o Zé Povinho ou os senhores do mundo. Ainda vai piorar infelizmente...

Os momentos de silêncio e a ajuda que dão os que não podem é o mais belo de tanto horror.

O facto do Sr. Bush denpender 350 milhoes de dólares (depois de mtas criticas) é chocante. Ainda mais se soubermos que a cerimónia que o fez (ou vai fazer) presidente pela 2a vez custou a módica quantia de 800 milhoes de dolares.

È a antítese e ao mesmo tempo o equilibrio destes pequenos mundos...

beijinhos!

ps: tenho um mail para responder, não me esqueci, mas ando em exames e frequencias e chatices.. Amanhã acaba! :)

Hipatia disse...

É mesmo demasiada mortandade. É mesmo demasiada tristeza. Cola-se à nossa pele como um cheiro pestilento ao qual não se consegue fugir. E, depois, sabes bem que, por vezes, enresina-se-me a escrita...

Beijos

Hipatia disse...

Eu ando com saudadinhas de te ler, em qualquer formato ;) Boa sorte para o que ainda falta e para os resultados!

A história dos donativos dos EUA é, de facto, uma farsa característica do pior que pode acontecer em termos de relações internacionais. E é só mais uma e ainda vamos gramar aquele bêbado mais quatro anos. Uma coisa parece-me evidente: os pobres vão ficar mais pobres; os ricos ainda mais ricos. Mas também vai haver demagogia em abundância, especialmente se os políticos da treta encontrarem na natureza as desculpas para a própria estultícia...

Anónimo disse...

Mais Vozes

On : 1/4/2005 2:41:23 PM Diálogos Interactivos (www) said:

Excelente. As tuas palavras são irrefutáveis, é a realidade nua e crua sobre a sociedade humana. O génio descobriu que uma pedra servia para quebrar uma noz, o bárbaro descobriu que a pedra servia para quebrar a cabeça do inimigo: a velha e eterna luta entre o bem e o mal. Será de primordial importância para a sobrevivência da Humanidade que no futuro o génio prevaleça sobre o barbarismo.
Beijos


On : 1/4/2005 4:31:41 PM abf:ocidental-acidental (www) said:

Exceleeeente!
Não posso estar mais em sintonia. A discrição da hipocrisia, não diria humana, visto que isso emplicaria incluir inocentes e vítimas na qualificação, mas política.
Excelente (repito-me) texto.


On : 1/5/2005 3:51:10 AM Maria Branco (www) said:

É de facto triste e revoltante a nossa realidade, esta que tão bem descreves aqui...
Mangnifico texto, subscrevo as tuas palavras!
Beijos


On : 1/5/2005 11:41:37 AM Hipatia (www) said:

Diálogos, gostei da analogia da serventia da pedra. Mas, sabes, penso que não é necessário haver muitos génios; só menos gente estúpida e bárbara

Obrigada pelo elogio ao texto mas, vá lá, nada de exageros que eu fico

Beijinhos


On : 1/5/2005 11:47:36 AM Hipatia (www) said:

Sim, Ocidental, estava a pensar nos políticos. Afinal, são eles os bárbaros do nosso quotidiano, que até uma língua ininteligível palram, cheia de cifras e vazia de conteúdos. O mal é que são também esses os primeiros a poderem meter a mão ao prato quando a generosidade do Zé Povinho se mostra grandiosa. Há reformados - reformados portugueses, note-se, os velhinhos enjeitados da Europa - a darem dois euros... É dinheiro que, certamente, lhes fará falta na próxima ida à farmácia. E temo que sejam dois euros que algum espertalhão meta ao bolso sem nem pensar duas vezes. Muitos outros fecharão os olhos. Alguns quantos traficarão crianças. Mais outros ainda limparão cadastro criminal... Sobrará depois para os do costume: quer a bonança, quer a desgraça permanente... comme d'habitude

:*


On : 1/5/2005 11:50:20 AM Hipatia (www) said:

Bem, até tu, Maria? Vocês hoje deixam-me envergonhada!

Obrigada pelo elogio.

Temos um mundo cão. Às vezes torna-se difícil encontrar ainda coisas belas para apreciar. Deve ser por isso que, tanta vez, me sinto mais em paz depois de visitar o Cumplicidades

Beijinho grande.


On : 1/5/2005 12:20:09 PM abf:ocidental-acidental (www) said:

"E temo que sejam dois euros que algum espertalhão meta ao bolso sem nem pensar duas vezes"...é isso mesmo que revolta e tudo o mais que dizes. Sempre foi assim, parece-me- a história está cheia de 'histórias' que tal confirmam, mas hoje, hoje em que temos mais acesso, ou acesso facilitado a informações actualizadas, ao menos o decoro podia mudar-lhes um pouco a atitude. E ainda me chamam pessimista... só me lembro de Beethoven e do seu amor pelo indivíduo, pela liberdade e pela vida!


On : 1/5/2005 1:04:40 PM Hipatia (www) said:

"... porque me sinto a ter uma vida miserável, rebelando-me contra a natureza e o seu Criador, desmerecendo este último por deixar as suas criaturas vulneráveis ao mais pequeno acidente."

(tradução livre e pobrezinha, da minha lavra, de excerto de uma carta de Beethoven a Karl Ameda... E está lá tudo!)