2026-04-30

Como não assustar o espelho antes do café


Enquanto o Verão ensaia uma entrada triunfal só para desistir dois dias depois, dou por mim a reconsiderar seriamente as virtudes dos auto-bronzeadores sempre que me cruzo com o meu reflexo logo pela manhã. Eu, sem maquilhagem e a cores, pareço uma aparição recém-promovida do além. Chega a ser um susto em primeira mão — e ninguém merece esse tipo de experiência antes do café, muito menos com a bexiga a implorar por atenção.

Convenhamos: medo e bexigas cheias são uma combinação de alto risco. E, com um olho ainda em modo de poupança de energia e o outro ainda a dormir, dar de caras com aquela figura desalinhada não é propriamente o melhor “bom dia”. Às vezes pergunto-me porque é que o espelho não vem com filtro a preto e branco de origem — sempre poupava na nitidez dos estragos.

O problema é que a última vez que tentei resolver isto com um auto-bronzeador acabei com um tom suspeitosamente amarelo. E se já é duvidoso parecer um fantasma, pior ainda é parecer um fantasma com diagnóstico clínico.

2026-04-29

Dia Internacional da Dança


Acho que me apetecia dançar. Acho que só me apetecia dançar. Ter par para um passo de dança e uns braços com o ritmo certo.

​Estico o braço, a mão aberta e virada para baixo, suspensa no ar como quem lança uma âncora ao mar. Espero que outra mão a venha buscar, que a envolva e me tire deste eixo de cansaço.

​Queria apenas o abraço que acontece entre um passo e outro. Queria o lugar onde o tempo nos habita e o mundo, finalmente, se cala.

Corpos desaguados de ritmo e deste estar para aqui longe e sozinha e cansada e com tanta vontade de dançar, dançar-nos, dançar-te.

2026-04-27

Dias barulhentos


«Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.»

Álvaro de Campos

Gosto de um certo tipo de silêncio que apenas advém da fartura. Vem depois de abraços, de saudades, de beijos e de partilhas. Vem e fica, por instantes. E é dele que vou alimentando os dias barulhentos em que quase me perco de mim e das coisas e das pessoas que me preenchem.

2026-04-26

Fulanização


De um momento para o outro, pior do que um tutear que não foi pedido ou concedido, temos a fulanização total e absoluta, passando toda a gente a fulano. E os fulanos, por norma, são aqueles que berram pelos direitos que nem sabem que têm porque outros berraram antes e berram ainda mais contra os direitos dos outros, os tais que nem sabem que existem. E estes fulanos que berram há muito que se eximiram da cidadania. Pior, nesta democracia de fulanos, os fulanos são sempre os outros. E, esses, claro que não têm os mesmos direitos que o fulano que berra, especialmente se os direitos de uns e outros estão em confronto. Porque a liberdade dos fulanos nunca acaba onde começa a liberdade de outro fulano. Assume que a sua liberdade de fulano é a única ilimitada.

2026-04-25

Liberdade




Há uma ironia deliciosa na forma como o tempo decide guardar os seus segredos e baralhar as nossas certezas. No dia 25 de abril de 1974, "Grândola, Vila Morena" era um sussurro de rádio, uma senha clandestina que viajava nas ondas curtas para abrir as portas de uma liberdade que parecia impossível. Era uma música de terra, de barro e de braços dados, desenhada para ser o código de um destino coletivo.


​Cinquenta anos depois, a senha mudou de frequência e de roupagem. Deixou de ser o sinal de um golpe de estado para se tornar o eco de um algoritmo global. É fascinante observar que a canção de José Afonso — o homem que cantava a fraternidade sem precisar de luzes de ribalta — se viu subitamente vestida de vermelho, sob as luzes de alta definição de uma plataforma de streaming. Para o mundo, a "Grândola" viajou mais depressa como entretenimento do que como história, e há uma beleza doce, ainda que penetrada pelo paradoxo, neste fenómeno de massa.


​O alcance desta nova vida é tão vasto que os ecos originais da democracia portuguesa parecem agora pequenos perante a escala do digital. Prova disso é o momento quase surreal de encontrar, sob o sol do Egito, um guia local que a cantarolou com naturalidade. Ele talvez não saiba localizar o Alentejo num mapa, nem conheça o peso do silêncio que a canção quebrou naquela madrugada de abril, mas ele reconhece o "frêmito" da melodia. A série deu à música um par de asas digitais e, embora a tenha transformado em produto de consumo, não conseguiu roubar-lhe a essência. Pelo contrário, espalhou a semente da resistência para lá das fronteiras da língua e da geografia.


​Este novo fôlego é o sinónimo perfeito dos nossos tempos: a ideia de liberdade tornou-se contagiosa através da ficção, provando que a alma de uma canção é capaz de sobreviver até à sua própria comercialização. Talvez o Zeca, com o seu sorriso enigmático, achasse uma graça profunda a este desfecho. Afinal, ele sempre escreveu que o povo é quem mais ordena, e o povo, agora global e ligado por cabos de fibra ótica, decidiu que esta música lhe pertence por direito emocional. É um final feliz para uma canção que nasceu para libertar um país e acabou por se libertar de si mesma para ir consolar quem a quiser cantar, seja nas ruas do Cairo ou num ecrã em Tóquio, provando que, cinco décadas depois, o mundo ainda quer ter, em cada esquina, um amigo.


2026-04-23

​O Paraíso dos Desdentados


Se Richter tivesse razão, Portugal seria um país de eternos habitantes. Mas há paraísos que se esvaziam por dentro — lugares onde a memória não desaparece, apenas se torna seletiva, dócil, inofensiva.

​Estamos nas vesperas do 25 de Abril e a máquina da efeméride já aquece os motores. Celebraremos, como sempre, o que já não nos ameaça. A memória, quando perde os dentes, transforma-se em cerimónia. Em desfile. Em coisa arrumada na gaveta dos feriados nacionais.

​Os fantasmas continuam lá, mas já não mordem. E por isso podemos acenar-lhes com tranquilidade, como quem reconhece uma fotografia antiga sem sentir o pulso acelerar. O "velho das botas" pertence agora ao arquivo, não ao medo. E é precisamente essa ausência de perigo que permite a coragem tardia dos nossos dias: a facilidade de homenagear o que já não pode responder, nem contradizer, nem punir.

​Entretanto, no vácuo deixado pela utopia, ficaram outros. Não os que mandaram durante décadas com mão de ferro, mas os que sobrevivem em ciclos de quinze minutos. Gente de superfície, de ruído curto, de obra nenhuma. São os gestores do "agora", impecáveis na técnica e vazios na entrega.

​Já não há futuro suficiente para chamarmos utopia. Há apenas a administração do presente — limpa, técnica, irrepreensível.

​Talvez seja esse o verdadeiro esquecimento: não o ato de perder o passado, mas o de perder, finalmente, a necessidade dele.

2026-04-22

Teorema das sofanadelas


A minha sala tem uma planta trapezoidal tão estranha que até os móveis parecem sofrer de labirintite. Mas o meu feitio também é “de ladecos” e, assim, a minha busca pelo sofá ideal demorou quatro anos de pura indecisão — que acabou num sofá preto, quando jurava que queria um azul.

Mas o que importa não é a cor, nem o ângulo de 45 graus com que ele ficou encostado à parede. O que importa é que foi desenhado para a arte da sesta.

Deitei-me e senti-o: perfeitamente calibrado para as sofanadelas. Daquelas com direito a sesta profunda e àquele fio de baba estratégico no canto da boca.

Foi então que percebi: não há salas perfeitas, nem ângulos retos que salvem uma vida atribulada. Há, isso sim, sofás que nos encontram quando já desistimos de os procurar.

E foi ali, entre o encosto e a almofada, que o meu α finalmente fez sentido. Conforto elevado, ângulo irrelevante… e quem nunca acordou babado, que atire a primeira almofada.

2026-04-20

O Purgatório tem Wi-Fi (mas a password expirou)



​Estou há uma semana retida no Triângulo das Bermudas da modernidade: o suporte técnico. É um lugar fascinante, onde a lógica vai para morrer e onde frases como “tentou reiniciar?” são proferidas com a gravidade de quem está a sugerir uma cirurgia de peito aberto.

​A minha autonomia — aquela que me permitiu sobreviver aos anos 80 sem um GPS ou um adulto funcional por perto — está a ser lentamente asfixiada por um chatbot chamado "Artur", que tem a empatia de uma pedra e o vocabulário de um folheto de instruções traduzido por inteligência artificial de baixo custo. O Artur quer saber se estou satisfeita. O Artur quer que eu avalie a minha experiência. O Artur ainda não percebeu que, na minha escala de valores atual, a única "experiência" que me satisfaria envolvia um martelo de 5kg e o servidor central desta empresa.

​Dizem que a tecnologia veio para nos libertar. De facto, estou libertíssima: de trabalhar, de produzir e de manter o meu índice glicémico abaixo do nível de alerta. Passo os dias a olhar para círculos que giram, ícones de carregamento que são o equivalente digital a um manguito, e a preencher captchas para provar que sou humana. É irónico. Sinto-me cada vez menos humana e cada vez mais como uma peça defeituosa numa simulação escrita por um estagiário sádico.

​O que mais me irrita não é a avaria. É a condescendência do sistema. É a música de espera em sintetizador que tenta convencer-me de que "a minha chamada é muito importante", enquanto o contador de tempo me informa que sou a número quarenta e dois na fila para o nada. É a submissão exigida por um código que não aceita a minha password porque, aparentemente, a minha vida não tem carateres especiais suficientes.

​Sete dias disto. Se fosse em 1986, eu já tinha aberto a carcaça do computador, soprado nos contactos e resolvido a questão com um par de insultos bem direcionados. Hoje, sou obrigada a "abrir um ticket". Um ticket. Como se estivesse na fila para um carrossel que não anda, num parque de diversões em chamas.

​Dizem que a paciência é uma virtude. Eu digo que a paciência é apenas a falta de um plano de fuga. Mas não se preocupem: se amanhã não houver texto, é porque a minha voz finalmente fugiu. Não por vontade própria, mas porque o servidor decidiu que a minha existência requer uma atualização de software que eu não pedi nem quero, mas que tenho de aguardar.

2026-04-19

Geração X


Dizem que a Geração X foi criada sem aplausos. É verdade, e provavelmente foi o melhor que nos aconteceu. Crescemos com a chave ao pescoço, a resolver avarias de televisores a soco e a aprender que o silêncio de uma casa vazia não é tragédia — é condição. A autonomia não foi uma escolha; foi o kit básico de sobrevivência que veio na caixa, sem manual e sem direito a serviço de apoio ao cliente.

​Crescemos com a sombra da Guerra Fria no tecto — a bomba não era metáfora, era probabilidade estatística. Aprendemos cedo que nada estava garantido, nem sequer o amanhã em sentido literal. Quando a ameaça nuclear finalmente se dissipou por falta de orçamento, o mercado apressou-se a preencher o vazio: entrámos na vida activa e encontrámos crises enfileiradas. A entrada na CEE, a bolha dotcom, o subprime, a austeridade de estimação e, para coroar a palhaçada, o Covid e a habitação. Cada vez que respirámos fundo, havia outro "reajustamento estrutural" à espera de nos esvaziar os bolsos. Não nos queixámos. Sabíamos que a reclamação é um luxo de quem acredita que o sistema se importa.

​Não somos a geração do trauma performativo nem da resiliência com filtro de Instagram. Somos a geração que se habituou a não precisar de público para funcionar — e que desconfia, por instinto visceral, de qualquer um que precise de validação externa para validar a sua própria existência.

A Hipátia habita aqui por isso. Não como boneco de merchandising para inspirar RHs em burnout, mas como a competência que não precisa de crachá e a lógica que serve de armadura contra a imbecilidade circundante. O nickname é o meu último gesto de higiene: apagar a pessoa para que o pensamento sobreviva sem a biografia a pedir desculpa ou um rosto à espera de "likes". Sem nome, o texto deixa de ter dono e passa a ter apenas o peso da verdade.

E agora, enquanto o governo de Montenegro faz o seu habitual número de equilibrismo para sobreviver mais uma terça-feira, surgem as "reformas" do código do trabalho. A classe média — essa geração sanduíche que passou décadas a amortecer os choques de toda a gente — vê as regras serem alteradas nos últimos metros da maratona. Querem-nos ainda mais expostos, ainda menos protegidos, como se a nossa resiliência histórica fosse um cheque em branco para o abuso estatal. Não pedíamos descanso. Pedíamos apenas a paz e a calma de quem já pagou a sua quota de caos. Não pedíamos aplausos.

2026-04-17

Profetas em segunda mão


Pete Hegseth, Secretário de Defesa dos Estados Unidos, subiu a um púlpito improvisado no Pentágono e abriu o que parecia ser uma Bíblia. Começou a ler com a solenidade de quem carrega o peso do mundo — ou pelo menos de um guião.

O problema é que o texto não era dos Profetas. Era de Quentin Tarantino.

Hegseth pregou o monólogo de Samuel L. Jackson em Pulp Fiction com uma convicção tal que, por um momento, ficou a dúvida: para ele, se soa a vingança e está em inglês arcaico, foi Deus que escreveu?

A resposta veio do Vaticano. O Papa Leão XIV — o primeiro americano a calçar as sandálias do Pescador — não respondeu com ironia. Respondeu com Isaías 1:15.

"As vossas mãos estão cheias de sangue."

Não há muito a acrescentar. Um homem que confunde Tarantino com os profetas tem poder sobre vida e morte. Um homem sem esse poder lembrou-lhe o que isso significa.

A Bíblia não foi editada por Tarantino. Mas talvez precisasse de ser lida por quem tem o dedo no gatilho.

2026-04-16

A Cura que Vem a Seguir


Decidi ser uma pessoa melhor. Comecei ontem, logo a seguir ao jantar, mas parei hoje às dez da manhã porque o excesso de virtude dá-me enxaquecas e, como todos sabemos, o equilíbrio é a única coisa que separa uma santa de uma pessoa com necessidade urgente de um calmante.

Há uma certa nobreza nesta minha desistência precoce. Enquanto o resto do mundo se esfalfa em shadow work e retiros de silêncio para encontrar uma criança interior que, francamente, já devia ter idade para se sustentar sozinha, eu prefiro a honestidade do meu sofá. A minha terapeuta diz que estou a fugir do processo; eu digo que estou apenas a poupar no copagamento.

A verdade é que a "melhor versão de nós próprios" é uma entidade cansativa que acorda às seis da manhã para beber água com limão e gratidão. Eu, por outro lado, acordo com este cabelo que desafia as leis da gravidade e do bom senso, armada com uma caneca que serve de epitáfio às minhas ambições espirituais.

Dizem que a jornada de mil milhas começa com o primeiro passo. Esqueceram-se de mencionar que, ao segundo passo, podemos perfeitamente descobrir que os sapatos nos fazem bolhas e que a vista daqui, embora ligeiramente deprimente, não exige subscrição mensal.

A diferença entre mim e o resto é apenas de escala. Eu desisto ao segundo passo. Mas há um tipo de pessoa — e toda a gente conhece pelo menos três — que está permanentemente a resolver-se.

Não é um processo discreto. É uma vocação pública, com actualizações regulares e hashtags adequadas. Em Janeiro, fez jejum intermitente e descobriu que o corpo é um templo. Em Março, o templo precisava de ser alinhado, e então veio o ioga, que durou até à lesão no joelho que veio a dever-se, descobriu-se depois, a um desequilíbrio dos chakras que só o reiki conseguia corrigir. O reiki foi substituído pela meditação guiada por uma aplicação sueca, que foi substituída pelo tai chi walking depois de aparecer num reel com 2,3 milhões de visualizações. O tai chi walking consiste, aparentemente, em andar devagar com as mãos abertas. Custa 49 euros por mês.

Há sempre qualquer coisa nova a experimentar, e a novidade é o ponto: o ciclo não serve para chegar a lado nenhum. Serve para estar em movimento. Estar em movimento é a prova de que se está a trabalhar nisso.

Nisso. A palavra é sempre esta, vaga e suficientemente elástica para conter tudo sem nomear nada. Trabalhar nisso. Cuidar de mim. Fazer o meu processo. O processo do quê, exactamente, é uma pergunta que não se faz, porque a resposta implicaria parar, olhar, e identificar a coisa com nome próprio — a relação que não funciona, o trabalho que sufoca, o medo que tem vinte anos e ainda não foi apresentado em sociedade.

Em vez disso, há um peeling novo.

O peeling é de argila vulcânica da Islândia, recomendado por uma influenciadora que também vende suplementos de magnésio e tem um curso online sobre abundância. A pele fica luminosa. A luminosidade é interpretada como progresso. O progresso justifica a compra do próximo produto, que chegará dentro de três a cinco dias úteis com uma carta manuscrita — impressa — sobre a jornada de transformação que está prestes a começar.

A jornada começa sempre na próxima semana.

O que nunca entra na equação é a hipótese de que o problema não precisa de um produto. Precisa de uma conversa difícil, ou de uma decisão que vai custar alguma coisa, ou simplesmente de ser visto sem o filtro de que tudo é uma oportunidade de crescimento pessoal. Às vezes as coisas correm mal e não há lição. Às vezes a vida é estreita e não abre com respiração diafragmática.

Mas isso não tem aplicação. Não tem comunidade no Instagram. Não tem free trial de catorze dias.

E por isso, amanhã talvez tente a dieta da luz. Mas só se a luz for artificial e vier de dentro do frigorífico.

2026-04-15

Poemarmas (versão condensada, 2026)


Que o poema não peça lugar — tome-o.
Que não respeite o silêncio confortável da mentira.
Que falhe onde tudo parece funcionar.
Que estrague a ordem que se chama normalidade.
Que não explique: interrompa.

2026-04-14

A Geometria do Espanto


O Egito não me pediu permissão para entrar; simplesmente ocupou-me.

​Saio daqui com os cascos moídos, como se tivesse carregado cada bloco de Karnak nas costas, mas com uma alma pesada — não de tristeza, mas de volume. É o peso de quem guardou um horizonte inteiro dentro do peito.

​O Deserto Branco foi a minha derrota final. Como no Salar de Uyuni, o mundo ali deixou de ser geografia para passar a ser uma alucinação geológica. Fiquei muda. Há lugares que não são para descrever; são para ser sofridos fisicamente, através de um nó na garganta e de uma vertigem que nos recorda quão pequenos somos.

​Ali, entre o giz e o silêncio, percebi que a minha alma finalmente não tinha para onde fugir. Encontrou-se com o absoluto.

Normalmente uso a lógica para domesticar o mundo, mas encontrei no Deserto Branco o meu limite: o lugar onde a palavra falha e o corpo se torna o único documento capaz de registar o momento.

O Deserto Branco tatuou-me o espanto na retina, mas foi na água quente de uma piscina termal de um hotel torto e perdido, que o corpo finalmente perdoou a alma por o ter levado tão longe. Ali, entre o vapor e o silêncio, fiz uma pausa. O Egito, afinal, não é só pedra e poeira; é também o descanso da viajante que, depois de muito galgar, encontra o seu próprio oásis.

Deserto


Ah, o universo tem um sentido de humor muito peculiar. E, confesso, um certo sadismo para com quem só queria tomar um duche sem parecer um combate de wrestling com uma porta.

A história começa no meu quarto original, um espaço acolhedor cuja porta decidiu que a relação connosco era tóxica e recusou-se a fechar. Nem com a técnica do ombro, nem com o calço, nem com uma reza a São Firmino, padroeiro das dobradiças. Resultado: dormir com a sensação de que, a qualquer momento, um hóspede bêbado — ou o espírito de António Variações — entraria para um medley desafinado.

Num gesto de piedade, as entidades hoteleiras transferiram-me. Para uma suite triplex. Três pisos. Escadas interiores. Claraboias. Só não tinha um minibar do tamanho de um Volkswagen, mas também ninguém aqui bebe álcool.

Ri-me, nervosamente. Daquele riso de quem tem a certeza de que lhe vão pedir um rim no checkout. Mas não: era verdade. Eu, plebeia de porta avariada, agora reinava num espaço com cama de dossel e uma casa de banho do tamanho de um microapartamento.

Na manhã seguinte, lá fui eu, toalha fofa em punho e a confiança de quem já se sentia proprietária daquilo tudo, girar o manípulo do duche.

O som que se seguiu não foi o de água quente a correr. Foi um soluço metálico. Água. Polar. Diretamente do Ártico.

E a quente? A quente estava de férias. Ou, mais provavelmente, tinha sido desviado para o quarto 7, onde algum hóspede mais afortunado do que eu se banhava numa cascata termal.

Portanto, ali estava eu: numa suite triplex, com duas casas de banho, nenhuma com água quente. A tomar um banho aos saltinhos, a reconsiderar as minhas escolhas de vida, e a concluir que o luxo é, afinal, uma forma muito cara de passar frio.

E a porta do meu antigo quarto? Aposto que até já fecha. Sozinha. Só para se rir de mim.

Reencarnação


Não desejo mal a ninguém. É uma posição moral que mantenho com algum esforço, especialmente em anos eleitorais.

Mas há uma justiça poética na ideia da reencarnação como sistema de calibração — não o modelo aspiracional das tradições orientais, onde se regressa a uma forma superior consoante os méritos acumulados, mas uma versão mais rigorosa, administrada por uma entidade sem paciência para subtilezas: regressas ao que fizeste, na forma mais literal possível.

Quem passou a vida a tratar o mundo como lixo volta como contentor. Quem viveu às custas dos outros volta como parasita — o tipo que não escolhe o hospedeiro, é escolhido. E quem passou décadas a produzir legislação, discursos e decisões que só servem para limpar a sujidade que eles próprios criaram?

Papel higiénico. Evidentemente.
Não é crueldade. É proporcionalidade. O universo, se tiver bom gosto, funciona assim.

Eu, pessoalmente, continuo a não desejar mal a ninguém. Limito-me a confiar no processo.

Alexandria

Conduzir em Alexandria não é simplesmente deslocar-se de A para B — é participar numa coreografia caótica onde as regras são meras sugestões filosóficas e as faixas de rodagem existem apenas como decoração urbana.

Aqui, ninguém “anda na sua faixa”. Aliás, o conceito de faixa parece ser interpretado como “uma zona vaga onde o carro pode flutuar”. Há quem circule com duas rodas de cada lado do risco contínuo, numa tentativa louvável de agradar a todos os deuses do asfalto ao mesmo tempo. É quase diplomacia rodoviária.

Os limites de velocidade? Um mito urbano. Provavelmente inventados por alguém muito otimista. Cada condutor escolhe a sua própria velocidade com base em critérios altamente científicos, como: “estou com pressa”, “não estou com pressa”, ou “apetece-me”.

Mas o verdadeiro coração do sistema não está nos sinais nem nas regras — está na buzina. A buzina não é um acessório: é uma linguagem. Um leve “pip” pode significar “olá”, “vou passar”, “cuidado”, “estou vivo” ou simplesmente “estou aborrecido”. Um toque mais longo já entra no campo da poesia épica, carregado de emoção e, possivelmente, alguma crítica social.

E depois há a autoestrada, esse palco de bravura onde carros, carrinhas e ocasionalmente conceitos abstratos de ordem coexistem em perfeita desorganização. Veículos deslizam sobre as linhas como se fossem sugestões artísticas, criando padrões dignos de uma exposição moderna.

No fundo, conduzir em Alexandria é libertador. É preciso esquecer tudo o que aprendemos. Aqui não há certo ou errado — há apenas movimento, instinto e uma sinfonia constante de buzinas. E, surpreendentemente, funciona.

Mais ou menos.

2026-04-12

Botas limpas

O fascismo não chega com botas sujas nem gritos histéricos — chega devagar, com palavras macias e promessas simples. Ocupa o espaço onde o pensamento desiste.

É quando a crueldade ganha o nome de justiça. Quando o "nós" vira trincheira contra o "eles".

Vive nos silêncios convenientes, nas piadas que passam sem resposta, nos absurdos que, repetidos, deixam de espantar.

Infiltra-se nos espaços de decisão, nos sistemas que filtram o mundo, na rotina cansada que já não questiona.

Até que acordamos tarde demais.

Permanência

Oito horas de carro. Cinco sítios em passo de corrida. Isto não é turismo, é uma evacuação arqueológica.

Karnak sozinho precisava de um dia. O Vale dos Reis também. Fizemos tudo em modo maratona — templos, avenidas, colossos. Luxor. A meio, os pés já estavam em estado de guerra declarada.

E depois, Deir el-Bahari. Hatshepsut é um texto inteiro por escrever.

A história tem tudo — a faraó que reinou como homem, os retratos martelados depois da morte, o nome apagado das paredes e Tutmósis a perceber, tarde demais, que apagar alguém da pedra não apaga nada de facto. Ela está em todos os museus do mundo. Ele é uma nota de rodapé.

E eu estive lá. No templo dela. Com os obeliscos que sobreviveram a tudo.

A morte egípcia não é fim, é uma negociação muito longa com a permanência. Hatshepsut perdeu a negociação quando morreu e ganhou-a nos milénios seguintes. Um karma escrito em pedra.

2026-04-10

Despacho do Reino dos Mortos


Estou velha, gasta, gorda, sem maquiagem. Num grupo de dezoito pessoas, continuo a encontrar formas de estar sozinha.

E tenho recebido um apreço imenso dos locais.

Não um carinho agressivo como em Marrocos — onde o interesse turístico tem dentes. Aqui é tímido, um pouco interesseiro quando querem os meus euros, mas com uma leveza que não ofende. Um sorriso que não estava nos planos.

Não sei bem a razão. Podem ser os olhos verdes — num mundo tão masculino, num país tão patriarcal, isso conta. Pode ser o loiro que ainda se nota pelo meio das brancas. Pode ser o árabe de manual com que me esforço, três palavras tortas que parecem causar uma alegria desproporcional. Ou a reverência aos cabelos brancos, que aqui significa que se viveu e que isso merece respeito.

Ou pode ser outra coisa completamente. Pode ser que mais de um ano fechada num casulo deixe marcas visíveis no sentido inverso — que a felicidade de finalmente estar aqui, neste lugar completamente outro, me saia pelos poros de forma indecente. Que se veja. Que chegue ao outro lado antes de eu abrir a boca.

Não sei. Sei que o sorriso do outro lado é grande. E que, por ora, não preciso de perceber porquê.