2005-12-18

Hadjni


Gaivina

O final do Verão traz sempre consigo poderosas trovoadas que fazem estremecer as vidraças do atelier, ali na praça Klausal, no centro de Peste. O ribombar seco, vindo dos lados do rio, ocupa toda a minha Budapeste. Vive-se uma atmosfera expectante de uma chuva que não cai ali, mas nuns quarteirões mais à frente, é capaz de lavar os restos das noites silenciosas da Hungria.

Aqui desenhei e vivi, no centro do antigo Gueto Judeu ao sabor do Outono.

Pediram-me, um dia, se não poderia ir dar umas aulitas de modelo a uma escola de jovens estilistas. Anui, achando que me faria bem sair um pouco da clausura do desenho. E soube muito bem...

Tinha duas jovens à minha disposição para essas aulas: uma, loira, vivida e insinuante. A outra, discreta e magra com os cabelos de um negro profundo: Hadjni.

Esta, acabou por tornar-se minha companheira no desenho, ao deixar que o meu traço percorresse o seu corpo à velocidade dos olhos.

O pintor húngaro que me apresentou as modelos, dissera de imediato:
- Essa? Mas essa é lésbica...

Hadjni trabalhava numa loja de produtos dietéticos em Buda, tomando pontualmente o eléctrico, na praça Karl Marx, para chegar à hora combinada ao meu atelier. Ganhava 2 euros, preciosos ( no ano de 1999 ), por cada hora em que desvelava o seu corpo aos caprichos daquela grafite que me deixava os dedos tintos de negro. Não me era estranha essa capacidade de combate dos húngaros. Conhecera um médico que preferia servir às mesas no "Café Opera", ganhando as gorjetas depois de cantar árias de compositores famosos, a fazer horas de banco, mal pagas, no hospital central.

Assim, em cada final de tarde, lá aparecia Hadjni cheirando a champô de frutas, tirando a roupa, de onde sobressaiam umas cuecas lindas às flores, de cores vivas.

Uma vez, foi um amigo homossexual que a veio trazer à porta, na esperança de eu querer um modelo masculino: não me apeteceu.

Fico ali estabelecido um tipo de relação especial entre modelo e artista. Fartámo-nos de trabalhar ao longo daquelas tardes abafadas, com pausas para o sumo de laranja, trocando impressões sobre as nossas vidas e nossos rumos. Depois de cada sessão, lá para os lados de Buda, a sua amante, mais velha, esperava-a. Então, a bela modelo vestia a sua roupa, cingida ao corpo, e lá ia escadas abaixo, sem que se escutasse o barulho dos passos contra o soalho. No dia seguinte lá estaria à hora combinada.

O trabalho e a comunicação correram tão bem que, um dia, no final da sessão abraçámo-nos e o beijo surgiu naturalmente:
- Oh! Beijei-te. Disse ela em Inglês espantado. Fora surpreendida por ela própria.

Mas a coisa ficou mesmo por aí, e nos desenhos que testemunham a passagem desse corpo pela minha vida.

Gaivina

1 comentário:

Hipatia disse...

On : 12/18/2005 10:02:15 AM maria arvore (www) said:

Gaivina,
essa realidade dá para uma boa história de ficção.

E à primeira, fiquei quase sem palavras pela coincidência. Há proximidades que não se explicam pelo sexo, não é?...



On : 12/18/2005 11:09:33 AM mfc (www) said:

O template agora já não encrava o sistema....
A liberdade dos corpos não é objecto de preconceito.


On : 12/18/2005 11:11:45 AM Hipatia (www) said:

(eu diria, Maria Árvore, que o sexo é sempre o pano de fundo; depois é sempre decisão nossa dar-lhe, ou não, a boca de cena )


On : 12/18/2005 11:13:52 AM Hipatia (www) said:

Nem pode ser, não é? Mesmo que tantos a façam...

(Andei em arrumações, Manel Acho que era aquele post do biscoito, dedicado aos meus caríssimos comentadores masculinos, que me andava a encravar a Voz. Acho que a Voz, tal como eu, não gosta de rabiosques femininos )


On : 12/18/2005 3:44:10 PM Palavras em Linha (www) said:

Todos temos histórias para contar, Gaivina.
A interpretação é sempre para quem as lê. Neste caso, a interpretação foi feita ao jeito de quem viu os teus desenhos. Gostaste da diversidade?


On : 12/19/2005 4:20:21 PM j.p. (www) said:

bonita história sim senhor


On : 12/19/2005 5:17:28 PM Gaivina (www) said:

@Maria Árvore,
é espantoso como andaste tão próxima da historia real!
Vou confessar uma coisa....tenho um problema real:
Revelei a identidade de um corpo e de um troço de vida, algures no centro da Europa...Isto é, de certa forma um dilema ético.
Mas como a edição destes desenhos provocou a comunicação escrita entre umas quantas almas criadores: Acalmei por dentro


On : 12/19/2005 5:24:19 PM Gaivina (www) said:

@Palavras em linha,
Só que eu falei de uma história, um momento real, a Hipatia sabe... Acabei por expor, irremediavelmente um pedacinho dos meus dias a todos vós...
Claro que a diversidade das respostas massaga o meu Ego...Uma cena do tipo: "Afinal não és tão mau pintor...."
Mas , aquilo de que realmente gosto é da vossa energia criadora! Penso que valeu a pena ter partilhado desenhos intimos com os convidados à casa de Hipatia.
Sabem? Não é assim muito fácil partilhar imagens geradas de dentro com gente que só conhecemos por conteúdos, escondidos por detrás de um "nick"....


On : 12/19/2005 5:28:30 PM Gaivina (www) said:

@Hip,

Ainda hoje não sei se a Hadjni mantinha aquela frieza reservada e aquática, baseada numa opção clara de inclinação sexual.....
A dúvida estava lá, e manteve-se até ao ùltimo momento.
O beijo foi quente, ainda me recordo dele , no seu recato breve e quente...
Brumas insondáveis.....


On : 12/20/2005 12:10:36 PM Hipatia (www) said:

Penso que a dúvida está sempre lá, mesmo quando temos todas as certezas, Gaivina