2026-02-19

Wabi - O algoritmo da solidão


Entramos nestas aplicações como quem vai ao supermercado às onze da noite: com fome a mais e critérios a menos. O ecrã é um catálogo de vidas retocadas, uma sucessão de rostos que parecem todos saídos da mesma linha de montagem de felicidade genérica. É a feira da vaidade em formato de bolso, onde a humanidade é reduzida a um par de frases feitas e a três fotos estrategicamente escolhidas para esconder as olheiras de quem já não dorme bem desde 2019.

Aqui, o conceito de Wabi — a tal beleza do que é simples, gasto e imperfeito — foi atropelado por um camião de filtros.

Ninguém quer o "Wabi" numa app de encontros. Ninguém quer a tua vulnerabilidade real, a tua casa desarrumada ou o facto de que, às vezes, ficas a olhar para o teto a questionar o sentido disto tudo. Queremos o brilho, o ângulo certo, a luz que apaga as marcas do tempo. Queremos peças de porcelana sem uma única ranhura, prontas a serem usadas e, inevitavelmente, descartadas.

O cinismo das dating apps é o triunfo da quantidade sobre o impacto. É o Kintsugi ao contrário: em vez de colarmos o que se partiu, simplesmente passamos para o perfil seguinte. Há sempre mais barro na prateleira. Há sempre outra pessoa disposta a vender uma versão higienizada de si própria por um par de horas de validação barata num bar qualquer.

É uma economia de desperdício emocional. Andamos a colecionar "Matches" como quem coleciona cupões de desconto que nunca vai usar. É o desapego forçado de quem já sabe que aquela conversa vai morrer algures entre o "Olá, tudo bem?" e o primeiro silêncio desconfortável no mundo real.

No fim do dia, o verdadeiro Wabi urbano é o encontro que não foi planeado por um algoritmo. É a beleza de uma conversa de café que não tem um botão de "Unmatch". É aceitar que a outra pessoa é um conjunto de falhas, traumas e tiques irritantes — e perceber que isso é infinitamente mais interessante do que qualquer perfil de 5 estrelas.

Mas pronto, o sinal ficou verde e o telemóvel voltou a vibrar. Shikata Ga Nai. Encolhe os ombros, faz o swipe e finge que ainda acreditas que a próxima notificação vai ser a que te salva deste vazio.

Afinal, na cidade, o amor é só mais um produto com prazo de validade curto e uma embalagem bonita.

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