2026-02-24

De sangue e borralho


​Sou mulher do Norte, de olhos e tez clara. Corre-me nas veias o sangue dos Suevos e dos Visigodos, temperado pela latinização, pelos judeus e pelos árabes; a linhagem não é pura, nem eu a quereria tal.

​Neste Norte — que é o meu — a tradição passa-se ao borralho, de mãe para filha, entre o murmúrio de tias e avós. É um Norte onde se cantam modas alegres e se faz guerrilha até hoje para preservar a identidade, com uma vontade tão férrea que roça o fanatismo. Um Norte que nunca é triste, nem sob o cinzento dos dias frios. Um Norte que sabe que o Fado não é a canção nacional, porque não há fado que vença o Vira.

​Aqui, onde ainda rugem gaitas de foles e os pauliteiros dançam de saia, os cabeçudos saem à rua para espantar os maus espíritos. Procuramos o visgo dos druidas nos trilhos do Gerês, enquanto, nas penedias, as capelas à Virgem ocupam o lugar das grutas sagradas de Astarte ou de Morrighan — a Grande Deusa, a força fertilizadora do caos, a Mater original.

​Talvez seja por tudo isto que não entendo como esta mesma sociedade pode ser tão poucochinha, tão canastrona, tão machista e patriarcal. Talvez as mães só saibam passar as tradições ao borralho para as filhas, enquanto, no seu leite, destilam a tacanhice diretamente para o cérebro dos varões.

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