2026. Viajamos ao espaço, criamos inteligência artificial, debatemos os limites éticos da edição genética. E a Itália acaba de descobrir que matar mulheres por serem mulheres merece nome próprio na lei.
Mas a Itália acaba de fazer algo que, por absurdo que pareça, ainda precisava de ser dito em voz alta: o feminicídio é crime. Não apenas homicídio. Não apenas “um caso grave de violência”. Crime, mesmo. Por unanimidade.
Ler isto dá um certo assombro: por um lado, a lei é óbvia — matar alguém por ser mulher não é apenas crime, é barbaridade sem desculpa. Por outro, é impossível não perceber que só agora, em 2026, um país ocidental sentiu necessidade de escrever isso no papel, como se o mundo precisasse de permissão para reconhecer a verdade.
E então, ao lado da tinta que tipifica o crime, há a ironia silenciosa: o mundo continua a olhar para a violência de género como estatística, debate político, manchete efémera. A lei é correta, necessária, fundamental. Mas não apaga séculos de normalização do ódio e do controle sobre corpos e vidas.
Ainda assim, há acerto nesta decisão: um passo, uma palavra clara, uma afirmação. Que a sociedade pode — e deve — decidir que certos crimes não serão tolerados.
E pronto! A lei está lá. Tipificada, aprovada, em vigor. Mas amanhã, uma mulher será morta por um ex-companheiro algures em Itália e alguém dirá: 'Foi crime passional.' Como se a paixão justificasse o assassínio. Como se a lei mudasse, sozinha, séculos de hábito.
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