2026-02-20

Shikata Ga Nai

Olhamos para o ecrã como quem olha para um desastre na autoestrada: sabemos que não devíamos, mas o pescoço vira-se sozinho. É o vício de medir a nossa existência pelo barulho dos outros. Queremos ser relevantes, queremos ter opinião, queremos que o algoritmo nos valide com uma palmadinha nas costas em forma de coração encarnado.

Mas a verdade é que as redes sociais são o museu do "parecer". E o Shikata Ga Nai é o martelo que parte o vidro dessa vitrine.

Não há nada a fazer contra a avalanche de lixo que te entra pelos olhos às oito da manhã. Não vais ganhar a discussão com o tipo que tem uma foto de perfil de um carro, nem vais ficar mais feliz por saber que a tua ex-colega de escola está a comer uma tosta de abacate em Bali enquanto tu esperas pelo metro debaixo de chuva.

O desapego aqui não é zen. É cansaço. É aquele encolher de ombros de quem percebeu que o sistema está viciado.

Shikata Ga Nai é o mantra de quem apaga a aplicação não porque "encontrou a paz interior", mas porque se fartou de ser o combustível da máquina. É aceitar que o mundo vai continuar a girar, as pessoas vão continuar a mentir com filtros de beleza e a indignação da semana vai ser substituída por outra mais ruidosa daqui a dez minutos. E tu? Tu não tens de estar lá para ver.

Há uma liberdade quase violenta em admitir que não tens de ter uma voz em todos os palcos. Que o teu silêncio não é uma falha de comunicação, é uma preservação de recursos.

O asfalto está molhado, o sinal está vermelho e o teu telemóvel está a vibrar com notificações de gente que nem conheces. Encolhe os ombros. Mete o aparelho no bolso. Aceita o inevitável: a rede vai continuar a arder, com ou sem o teu comentário.

No fundo, o verdadeiro luxo urbano é ser irrelevante para o algoritmo. É o descanso de quem sabe que, contra a estupidez programada, a única resposta digna é o desinteresse absoluto.

"Se o palco é de plástico e a plateia é de vidro, o melhor lugar é mesmo cá fora, a ver a chuva cair."

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