2023-10-07

Valores


Anna Politkovskaya foi assassinada a 7 de Outubro de 2006. Lembro-me de um cartaz que então perguntava se vale a pena morrer pelo jornalismo. E lembro-me de achar, como acho ainda, que a pergunta estava errada: o que sempre esteve em causa é se vale a pena morrer pela liberdade de expressão e de pensamento. Pobres de nós quando nos vemos reduzidos a morrer por um ofício e o seu soldo correspondente, já sem acreditar em qualquer valor fundamental.

2023-10-01

Dia Mudial da Música

Talvez um dia eu perceba por que é que alguém como eu, incapaz de cantar afinada até para salvar a vida, consegue gostar tanto de música...

2023-09-23

(...)

Acho mesmo que a grande maioria dos conceitos em que costumávamos assentar as nossas (re)construções do real está esgotada, vazia de sentido. Talvez por isso pareça ser, tanta vez, uma época de crise e caos: nem temos sequer as palavras certas para dizer o nosso mundo. Talvez seja necessário inventar um glossário novo até para a nossa rebeldia, ainda que mais por inépcia e comodismo do que propriamente por convicção.

2023-09-19

Apre!


Faz falta à memória coletiva relembrar o que foi, como foi e o que éramos e podíamos ser num período dominado por ideais de inspiração fascista, isolacionista e utilização da História para engrandecer gostos pequeninos, agora novamente tão à mostra neste moderno parolo-patriotismo revisionista com que se dá em cada esquina.

2023-09-17

Parece que afinal a estátua fica, mas...


Estou tão, mas tão farta de falsos moralismos e de me tentarem enfiar pela goela abaixo todos os absurdos "politicamente corretos" que tentam tratar os cidadãos como débeis mentais e mantê-los em permanente conflito por ninharias fabricadas para que ninguém se junte e reclame pelo que realmente importa ao povo e não às elites de barriga farta e papo cheio, cheias de tempo para debater absurdos.

2023-08-24

Fest(inha)


Um dia cheguei a casa e criei um blogue. Ou melhor, comecei a criar um blogue... 

Foi em 2004 e hoje faz anos :-)

2023-08-03

Agnóstica

Acho que não tenho em mim a capacidade para a fé. Nunca seria capaz de me sujeitar a uma religião organizada, nem mesmo se ela se travestisse com bigodes de Estaline ou algo parecido. E era tão mais fácil! O calhau já não era só meu para carregar encosta acima todos os dias. Mas, depois, acho sempre que deve ter havido qualquer coisa que criou o próprio primeiro movimento "natural" que faz o calhau rodar encosta abaixo. E se bem que os fractais já nos tenham provado sobejamente que pode haver harmonia e beleza no caos, não há como não querer acreditar que tem de ter havido uma causa primeira, antes de todas as causas e todas as coisas, que pôs tudo em movimento. É ai que esbarro na falta de um Deus. Não o Deus das religiões, sacras ou mundanas, mas um à minha medida e à falta que me faz. A falta que provavelmente me continuará a fazer, por mais fácil que fosse, que tudo o mais não pode ser apenas justificado por um sopro inicial de divino. Mas é também por isso que me mantenho agnóstica.

2023-03-06

Mais um luto...

Nestes dias em que o absurdo se instala, corrosivo, não sei como escapar aos meus silêncios. Não me apetece a amargura que tenho agrilhoada às palavras.

2023-02-04

Poluição sonora

Nunca gostei de cliques, claques e tribos, nem tenho uma agenda a rebentar pelas costuras com planos para todos os dias da semana. Estar sozinha ou estar só nunca foram a mesma coisa no meu dicionário e a sociabilização forçada, tantas vezes gratuita, tantas vezes sem sentido, tem a ver apenas com quando, quanto e onde estou disposta a ligar o botão do “on” e fazer parte da festa ou, pelo contrário, prefiro ficar um pouco de lado a medir o que se passa, deixando-me levar pela corrente em vez de estar no meio das ondas, a fazer as ondas, todos os segundos. Há cada vez demasiados dias em que só queria, realmente, estar "off".

2023-01-01

Bento XVI

Eu nunca gostei particularmente do Papa que sucedeu a João Paulo II. Não gostei de quase nada do que fez ao longo do pontificado, dos retrocessos evidentes que lhe encontrei em direcção a padrões de fundamentalismo que pensei que o Catolicismo estaria paulatinamente a abandonar, desde as missas de costas voltadas para os fiéis, passando pelo facto de me ter chamado terrorista aquando dos debates sobre o referendo à IVG, com os escândalos da pedofilia dos padres de permeio e acabando no canto gregoriano. Não que eu tenha alguma coisa contra o canto gregoriano, ou sequer o Latim, mas pareceu-me sempre estranho que o chefe da ICAR se empenhasse em transformar as celebrações de fé em algo em que os crentes permanecessem alheados, como que meros espectadores do evento, em lugar de envolvidos e participativos no mesmo. Mas eu não sou católica e, por isso, pouco caso haverá a fazer aos meus "achismos".

E, no entanto, em alguns momentos, Bento XVI conseguiu surpreender-me profundamente, eu que sempre fui tão renitente em apreciar-lhe qualquer qualidade. Como a sua valência como cientista e a forma como tentou conciliar a racionalidade da ciência com a sua fé. Ou como quando decidiu ser Papa Emérito,  reconhecendo, talvez, que o seu tempo - e o seu propósito - após a morte de um Papa tão amado como João Paulo II, tinha passado. E com a sua renúncia foram-se os meus "achismos", especialmente quando, tendenciosa, o culpava a ele de tanta coisa que, como se viu depois, pouco ou nada teria sido capaz de alterar se não  renunciasse. 

Ser chefe máximo da ICAR é ter um tremendo poder nas mãos; será talvez também um fardo impensável. Mas os grandes homens, mais do que saberem persistir, devem saber quando chega a hora de saírem de cena. Partiu agora de vez e, olhando para trás e para a História, partiu com o respeito de todos e saudades de muitos. Eu? Eu agradeço-lhe particularmente não ter  voltado a assistir a uma agonia televisionada, como a de João Paulo II.

2022-12-09

Ah! Ainda estamos aqui!

Um dia vou começar o livro que nunca vou acabar só para fazer exercício aos neurónios. E sinto falta dos comentários dos amigos que ainda se lembram de quando eu escrevia, especialmente quando gostavam dos textos que eram mais corrosivos e sarcásticos. Durante muito tempo não percebi porque eram esses os textos que mais agradavam. Até ao dia em que passei a achar que não era tanto o meu texto, mas antes os olhos (e a personalidade, claro) de quem os lia. Os meus amigos são do melhor!

2022-09-22

De leste

 


"Somos a geração dos jovens iracundos,

a emergir como cactos de fúria

para mudar a face do tempo.


Antes de ferirmos a carne circundante,

comemos o pão amassado pelas botas

de muitos regimentos

e cozido ao fogo dos fornos crematórios.


Foram precisas inúmeras guerras,

para que trouxéssemos nos olhos

este anseio de feras acuadas.

Mordidos de obuses,

rasgados pelas cercas de arame farpado,

já não temos por escudo

a mentira e o medo.

Sem que os senhores do mundo suspeitassem,

cavamos galerias sob os escombros

e nos irmanamos nas catacumbas do ser.

Nossas mãos se uniram como pétalas

ao cerne da mesma angústia

e uma rosa de asfalto se ergueu

por sobre o horizonte.


E porque há entre nós

um mudo entendimento;

e porque nossos corações

transbordam como taças

nos festins da imaginação;

e porque nossa vontade de gritar é tamanha

que se nos amordaçassem a boca

nosso crânio se fenderia,

não nos deterão!

Ainda que nos ameacem com suas armas sutis,

nós os enfrentaremos,

num derradeiro esplendor.


Em breve, a nota mais aguda

quebrará o instante.

Bateremos com violência contra as portas,

até que a cidade desperte;

e com o riso mais puro,

anunciaremos o advento do Homem.

Porque nossas mãos se uniram como pétalas

ao cerne da mesma angústia,

para que uma rosa de asfalto se erguesse

por sobre o horizonte."


“A ROSA DE ASFALTO”

de Eduardo Alves da Costa

2022-09-03

Remendos

Uma das coisas que os anos nos ensinam é que não precisamos chegar sem remendo a qualquer lado. E que vamos acabar sempre remendados de alguma forma. No fim, a vitória é, quase sempre, conseguir chegar com os pespontos ainda no sítio.

2021-09-23

Glossário

Acho mesmo que a grande maioria dos conceitos em que costumávamos assentar as nossas (re)construções do real está esgotada, vazia de sentido. Talvez por isso pareça ser, tanta vez, uma época de crise e caos: nem temos sequer as palavras certas para dizer o nosso mundo. Talvez seja necessário inventar um glossário novo até para a nossa rebeldia, ainda que mais por inépcia e comodismo do que propriamente por convicção.

2021-09-18

Brexit




Sempre me pareceu um bandalho com a mania, espécie cada vez mais popular na classe política de todos os países. E um dos principais motivos para as pessoas deixarem de ir votar ou votarem em alternativas alucinadas 😔 

Só ainda não consegui decidir se não passa de um perfeito idiota incompetente, um aprendiz de Maquiavel ou um mero rato a preparar-se para saltar borda fora de um barco condenado.🤨

2021-08-25

Esta voz

O meu blogue fez ontem  anos. Tem andado paradito e muito pouco palavroso ou original. E se é certo que contra a sem vontade já resisti várias vezes, agora enfrento a falta da urgência em escrever. Não será tanto ter esgotado o espaço e o nick que o mantém. Talvez tenha sido eu quem se esgotou. Sou um universo demasiado pequeno para tanta letra. Mas vamos  a ver o que acontece para a semana...

2021-08-24

Voz em Fuga

"A vida descostura, o homem passa a linha, a corrigir os panos do tempo."

- Mia Couto

Ainda não foi este ano que a minha Voz morreu...

2021-08-19

(des)humanizar

Cara a cara, as pessoas são boas ou más, gostas ou não delas, não importa nem cor nem religião nem ideologia. É a estranheza e a distância que trazem a desconfiança e o medo. Extremismos e fundamentalismos já nada têm a ver quer com credo, quer com cor, quer com política. Viraram cultos irracionais presos com cuspe às suas desculpas e argumentos fabricados. Só resultam pela desumanização do indivíduo, transformando o outro em arquétipo sem rosto, sem família, sem sangue.

Recuso-me a meter tudo no mesmo saco. Recuso-me à lavagem cerebral de qualquer culto. Recuso-me a não ver cada pessoa que se me apresenta como indivíduo. Porque há o cara a cara, porque se gosto de uma pessoa não importa cor ou religião ou ideologia; porque se ela gosta de mim, também não é pela minha cor ou a minha falta de religião ou ideologia.

2021-08-16

Os mortos anunciados

«(...)
How many children are we who are lost 
Whose are these daughters we see turn to ghost? 
What are our souls that we have lost care 
Ring out ye musics and weep if you dare-(...)»

"September on Jessore Road", Allen Ginsberg

2021-07-01

Dia

Colecciono farrapos de alegrias, brilhos nos olhos, sorrisos a caminho de gargalhadas. Tenho medo das sombras, de alguns sonhos e desgasta-me esta rotina…

2021-06-12

Dos dias...

Enquanto o Verão finge que chega para se provar logo a seguir sol de pouca dura, começo a ponderar as virtudes dos auto-bronzeadores cada vez que dou com o trombil (e as pernas, credo! as pernas...) logo pela manhã no espelho. É que eu a cores e se não estiver pintada tenho ar de alma penada acabada de sair da tumba. Assusto-me a mim mesma! Ninguém merece e logo pela manhã, ainda com a bexiga demasiado cheia. Sim, que o medo e as bexigas cheias raramente dão bons resultados e, com um olho aberto e outro ainda fechado, ver um fantasma desgrenhado não é exactamente o melhor dos bons-dias. Porque raios não me devolve o espelho imagens a preto e branco? É que nunca se notam tanto os defeitos, bolas! E a última vez que experimentei um auto-bronzeador fiquei amarela. E pior que uma alma penada a cores, só mesmo uma alma penada com ar de sofrer de icterícia.

2021-05-19

Apre!

Há dias em que chego à net e só vejo vigilantes e pequenos Charles Lynch em muito pouco amena cavaqueira. Ah admirável mundo novo das (a)moralidades onde todos querem ser juiz e carrasco!

2021-04-24

Véspera

Na véspera do dia em que festejamos a Liberdade, por e para todos os presos políticos e de consciência que continuam a existir por esse Mundo fora:

"Luz recortada nesta manhã fria
Muros e portões chave após chave
O meu amor por ti é fundo e grave
Confirmado nas grades deste dia."

Sophia de Mello Breyner - Caxias 68

2021-04-10

Sapos para engolir

E, pronto, cá estou eu hoje de manguito preparado, vítima certa da caça cega aos cobres que sobram da classe média acossada e discursos populistas fascizóides que se vão alavancar numa Justiça incompetente. E de nada vai servir o manguito, mesmo bem preparado e com um acrescento para o adaptar aos tempos: um dedo médio bem erguido num punho que já não se fecha à moda antiga, que esse símbolo já me esgotaram.

2021-04-09

Caso Sócrates

Com esta justiça, nunca temos culpados, só temos boatos: 

- O envolvimento do Cavaco com o BPN é boato 
- Casa Pia é boato 
- Freeport é boato 
- Saco Azul é boato 
- BES é boato 
- Apito dourado é boato 
- Submarinos é boato 
- Caso "Paquetes da Expo" é boato
- Caso Tecnoforma é boato 
- Bragaparques é boato 
- Vistos Gold é boato 
-... 

 Portugal é o País proscrito do Boato e das prescrições.

2021-04-04

Quem

Não sei como se ressuscita
no terceiro dia
de cada sílaba
nem se há palavra para voltar
do grande rio do
esquecimento.
Não sei se no terceiro dia
alguém me espera. Ou se
ninguém.
Em cada poema levanto a pedra
em cada poema pergunto quem.

Manuel Alegre

2021-02-02

Tempos de pandemia

Como passar o humor em simples palavras quando não se sabe das palavras o bastante para que, ao brincar com elas, saiam ideias com uma comicidade natural? Talvez seja por a minha ideia de alegria só fazer realmente sentido quando partilhada (e um écran nunca se ri connosco e esta janelinha coscuvilheira nem para lá caminha) e o pudor me levar a esconder na solidão as tristezas. Ou, simplesmente, sou demasiado impaciente para alegrias diferidas.

2020-11-12

US Election: A CNN pundit's emotional reaction to Joe Biden's presidenti...

É muito fácil tentar a empatia. E tento! Mas, branca que sou num país maioritariamente caucasiano que faz de conta que não é racista, nunca vou saber o que é isto, esta emoção em direto de quem sofre na pele discriminação e tem de a explicar aos filhos.

2020-10-14

(...)

Os gajos são uma espécie estranha! Quanto mais velhos e podres, mais potente o carro que compram. E é vê-los nos Lexus, Jaguares e Porshes... a trinta à hora. Como se, num óbvio reflexo de potências pretendidas, não sobrasse mais do que um mal empregado equipamento.

2020-08-14

Kamala Harris


«And I could cry power

Power has been cried by those stronger than me

Straight into the face that tells you to rattle your chains

If you love bein' free»

2020-05-20

(des)Ventura


Houve sempre no "comentarismo profissional" português um reflexo perfeito do que se passa para lá do espaço de opinião: há as cliques, os ódios, os interesses, as modas, as votações inconsequentes, as micro e macro causas, os fogachos de qualquer outra coisa rapidamente esquecida e muita, demasiada gente, que encontrou ali um púlpito onde tentaram fazer-se maiores ou melhores do que os outros. Que importa quando o Rei vai nu se diz os disparates que se quer ouvir ou se defende as cores do clube de futebol favorito? Até o Esteves estava certo em alguns dias!  

É verdade que uns provam-se interessantes. Mas já eram interessantes antes: Marcelo Rebelo de Sousa foi sempre um senhor, mesmo quando só dizia "nim". A maioria, no entanto, tende a transformar-se em "sound bites" ou pixéis supérfluos, quando, ao terem mais olhos do que barriga, acabam a dar com os burrinhos na água. Podem até cair de pé, mas só porque agarrados como junkies à visibilidade da celeuma criada e ao facilitismo da promessa básica, vácua e populista. 

Ouve e vê quem quer, como é óbvio. Acredita o predisposto. No fim, cada um tem o comentarista que merece e mais não se pode esperar.

2020-04-20

Palavras

“Words are things. You must be careful, careful about calling people out of their names, using racial pejoratives and sexual pejoratives and all that ignorance. Don’t do that. Some day we’ll be able to measure the power of words. I think they are things. They get on the walls. They get in your wallpaper. They get in your rugs, in your upholstery, and your clothes, and finally in to you.”

― Maya Angelou

2020-04-16

RIP Luís Sepúlveda

«"Yo estuve aquí y nadie contará mi historia." Ignoro cuanto tiempo permanecí frente a esa piedra, pero a medida que la tarde caía vi otras manos repasando la inscripción para evitar que la cubriera el polvo del olvido...» 

Luís Sepúlveda


Contou Luís Sepúlveda em "As Rosas de Atacama" que deu com uma inscrição anónima gravada numa laje de Bergen Belsen: "eu estive aqui e ninguém contará a minha história". E contou ainda que foi essa frase que o levou a escrever um belíssimo conjunto de contos sobre as histórias breves de vidas que não serão nunca descritas nos compêndios da História, mas que não são por isso menos importantes. Chamou a esse livro "Historias Marginales", nome que para mim faz mais sentido do que a sua versão portuguesa, por mais bela que seja a ideia de um deserto coberto de flores. É que é de margens e de esquecimento, de figuras que tiveram o seu quinhão de venturas e desgraças e, no entanto, são em tudo demasiado parecidas com todos nós, anónimas a mais das vezes, capazes de fugir e se esconder, levadas pela própria cobardia a actos de coragem que fazem, nem que seja apenas numa vida, a diferença. Sepúlveda pegou nessas vidas e perpetuou-as. Para que alguém pudesse contar a sua história; porque alguém contou a sua história. E fica assim a palavra escrita contra a poeira da memória, contra a brevidade das recordações. De alguma forma, todos somos histórias marginais na memória de alguém. Talvez um dia alguém conte outra dessas histórias para que mais uma rosa pinte de cor o deserto do esquecimento.

2020-04-07

Vai ficar tudo bem?

A minha geração está à toa. Deram-lhe o Mundo e meia dúzia de regras, desde a democracia ao Estado Providência. Não lhe disseram que ia ter de se esforçar. À minha geração nunca foi pedido qualquer esforço. A minha geração nunca quis ter o encargo de ser uma geração. E nunca lhe disseram que ia ser difícil e que, um dia, a normalidade ficaria virada do avesso. Estávamos a erguer a cabeça da crise económica e agora enfrentamos a História em forma de peste. E não estamos preparados para morrer. Não sei se estamos sequer preparados para viver. "Andrà tutto bene!" Não sei se vai ficar.

2020-02-29

Branco

Só dormente, a ver os dias a passarem rápidos e demasiado parecidos, numa quase beatitude sem significado, como um qualquer edifício em queda lenta mas pintado a cimento demasiado branco, blocos demasiado brancos para doutrinas demasiado brancas e desenhos a tinta da china branca de pseudo-teorias brancas e milagres brancos, brandos, e guerras brancas como se o sangue fosse alvo e o derrame sem mácula, ou como se de branco se pintasse toda a notícia e ela fosse só sobre os mesmos brancos do costume e as suas contabilidades brancas também, perfilhadas alvamente e com perdões no meio de uma cândida e alva crise que se arrasta palidamente. E eu só vejo branco, um excesso de branco. Sempre o mesmo branco. Que a vida vai negra.

2020-02-19

(...)

Às vezes não há melhor que uma palavra graficamente explícita. Outras vezes, até isso é demais e basta só um gesto que resuma todas as grafias.

2019-09-24

A flor e a náusea

"Somos a geração dos jovens iracundos,
a emergir como cactos de fúria
para mudar a face do tempo.
Antes de ferirmos a carne circundante,
comemos o pão amassado pelas botas
de muitos regimentos
e cozido ao fogo dos fornos crematórios.
Foram precisas inúmeras guerras,
para que trouxéssemos nos olhos
este anseio de feras acuadas.
Mordidos de obuses,
rasgados pelas cercas de arame farpado,
já não temos por escudo
a mentira e o medo.
Sem que os senhores do mundo suspeitassem,
cavamos galerias sob os escombros
e nos irmanamos nas catacumbas do ser.
Nossas mãos se uniram como pétalas
ao cerne da mesma angústia
e uma rosa de asfalto se ergueu
por sobre o horizonte.
E porque há entre nós
um mudo entendimento;
e porque nossos corações
transbordam como taças
nos festins da imaginação;
e porque nossa vontade de gritar é tamanha
que se nos amordaçassem a boca
nosso crânio se fenderia,
não nos deterão!
Ainda que nos ameacem com suas armas sutis,
nós os enfrentaremos,
num derradeiro esplendor.
Em breve, a nota mais aguda
quebrará o instante.
Bateremos com violência contra as portas,
até que a cidade desperte;
e com o riso mais puro,
anunciaremos o advento do Homem.
Porque nossas mãos se uniram como pétalas
ao cerne da mesma angústia,
para que uma rosa de asfalto se erguesse
por sobre o horizonte."

“A ROSA DE ASFALTO”
de Eduardo Alves da Costa

2019-09-08

Apre!

Às tantas vou ficar igual, mas enquanto não fico, rais'parta os velhos ao volante! Tão depressa vão a 20km à hora, como de repente viram bichos arraçados de chita. Especialmente se vêem una rotunda ou, pior!, uma mulher a ultrapassa-los.

2019-09-03

Remendos

Uma das coisas que os anos nos ensinam é que não precisamos chegar sem remendo a qualquer lado. E que vamos acabar sempre remendados de alguma forma. No fim, a vitória é, quase sempre, conseguir chegar com os pespontos ainda no sítio.

2019-08-30

Dos telhados de vidro

Sou viciada em café e cigarros. "Podia ser pior", dirão alguns, convencidos de qua há vícios bons ou vícios maus. Podia ser viciada em videojogos, sexo, drogas duras, séries de tv, corridas de mota ou carrinhos de linhas, compras, jogos de azar, desporto de qualquer forma ou feitio ou bares ou noitadas ou engates online e porno para completar. Podia ser viciada em maledicência de vizinhos e colegas. Podia ser viciada em chocolate. Ou em gin, que está na moda. Fiquei pelos cafés e cigarros. Mas com dependência. E, como qualquer dependência, com a sua dose de toxicidade. É por isso que tenho muito cuidado com alguns julgamentos apressados. Tenho telhados de vidro. Lá porque não me viciei em injeções de ginásio, também nada sei da vida alheia, especialmente de alguém que nem conheço nem devo vir a conhecer. Cada um deve saber da sua vida e carregar o seu calhau. O meu basta-me. O dos outros não me diz respeito se não puser inocentes em perigo.

2019-08-21

Histerismo nacional

Como sempre, é demasiado fácil resvalar no próprio preconceito (no meu também) para comentar o factóide do dia. Mas as pessoas a quem tenha sido clinicamente diagnosticada uma mudança da identidade de género (transexualidade) e que, nos termos da lei, podem alterar essa mesma identidade, não merecem continuar a ter que intentar uma acção em tribunal, pagar custas, sofrer a pressão psicológica decorrente para mudar de nome só porque há quem tenha muito medo que as criancinhas, coitadinhas, sejam obrigadas a ir a casas de banho mistas. Haja pachorra!

2019-08-14

Branco sujo



Como a grande maioria dos Europeus e Asiáticos, devo ter à volta de 2% de genes Neanderthal na minha composição genética. Ou seja, seguindo qualquer lógica de supremacia branca, eu tenho em mim outra raça, outra espécie, e nunca foi na minha linha genealógica preservada a integridade racial. E se um dia analisar a minha composição genética e não estiver lá um tiquinho Neanderthal,  vou pedir livro de reclamações! 

(Já agora, parece que os africanos não partilham a sua herança genética com qualquer primo extinto...)

2019-07-12

Indiferença

Quando ainda mal sabia ler, os fantasmas de uma guerra que tinha acabado antes de eu nascer faziam-se presentes - e ainda tenho presentes! - nas tantas das fotografias de crianças famintas de um sítio chamado Biafra que demorei anos para saber onde ficava. Na escola primária sabia que havia mortes na terra de desconhecidos, com um nome interessante e uma história horripilante: Khemer Vermelhos. E depois, mesmo que não tenha sido realmente depois, um tal de Vietnam distante onde parece que todos os filmes de guerra americanos iam desaguar, levando desde o Brando até ao Rambo e ao pobre do William Dafoe ou o Birdy. E o Biko foi morto e Peter Gabriel cantou-lhe a morte. Depois ninguém queria cantar em Sun City e havia concertos onde se gritava Mandela Free. Até houve dinheiro suado que gastei a comprar um 45 rpm porque as criancas da Etiópia precisavam saber que era Natal enquanto morriam, escanzeladas,  perante a indiferença do mundo até que uma música nos acordou. E era um mundo fácil, muito a preto e branco, se bem que o Sting teimasse em lembrar "how can I save my little boy from Oppenheimer's deadly toy?" enquanto assumia que os Soviéticos também amavam os seus filhos. E o Bond ganhava sempre, obviamente. E as ditaduras continuavam calmamente, sem pios e sem ais, sem redes sociais. Até mesmo uma Tiananmen distante era só isso, porque o Muro de Berlim até tinha caído,  Mandela estava livre, o Baader-Meinhof, o IRA ou ETA pareciam perder pé numa década de crescimento económico, CEE e esperança. Ainda chorava Beirute, claro, mas era tão distante... Depois vieram 10 desgraçados anos no coração da Europa lembrar-me que o futuro seria provavelmente Sarajevo ou Račak. E acho que foi com os Balcãs que comecei a perder a esperança que nenhuma das desgraças anteriores tinha conseguido extinguir. Suspendi brevemente o cinismo acenando lenços  brancos por Timor enquanto chorava Santa Cruz, ou assistia à guerra relâmpago do Bush pai, televisionada sempre numa estranha luminescência verde. Mas o cinismo voltou e já não era a mesma pessoa quando as Torres Gémeas caíram que era quando rebentou o infantário em Oklahoma City. Vou perdendo partes de mim aos pedaços, cimentados em indiferença: Aylan doeu mais do que a pobre Valéria afogada enfiada na tshirt do pai. A próxima criança morta vai provavelmente doer menos do que a Valéria. Na Eritreia ninguém quer saber se há Natal. Eu também não. As meninas raptadas pelo Boko Haram ainda estão vivas? A Venezuela a morrer à fome. O Haiti. Os ataques terroristas que deixaram de ser notícia, excepto se morre um português... E o Planeta? Eu que quis escrever uma tese sobre desenvolvimento sustentado quando ninguém sabia direito de que queria falar. Eu, que às vezes dou por mim a pensar se ainda vale a pena o trabalho que dá separar o lixo. Eu, que estou para aqui a acabar de escrever isto e a pensar quantas pessoas vão reconhecer todas as referências e quantas, como eu, já nem referências parecem querer reter.

2019-06-22

Dever de Auxilio



Não sei onde foi parar a tolerância e a esperança da minha geração, daqueles que cresceram a acreditar que o Mundo podia ser melhor, quando até os muros eram derrubados e antigos prisioneiros políticos podiam ser Presidentes de um País. A geração dos sonhos de uma Europa dos direitos humanos, sem guerras e sem fronteiras... 

"Carga humana"? "Tráfego humano"? Como antes em navios negreiros ou vagãos de gado para Auchwitz? 

"E quest'è il fiore del partigiano 
Morto per la libertà" 

Agora é apenas música para memes e séries de TV.


2019-06-12

Do tempo

Enquanto o Verão finge que chega para se provar logo a seguir sol de pouca dura, começo a ponderar as virtudes dos auto-bronzeadores cada vez que dou com o trombil (e as pernas, credo! as pernas...) logo pela manhã no espelho. É que eu a cores (e se não estiver pintada) tenho ar de alma penada acabada de sair da tumba. Assusto-me a mim mesma! Ninguém merece e logo pela manhã, ainda com a bexiga demasiado cheia. Sim, que o medo e as bexigas cheias raramente dão bons resultados e, com um olho aberto e outro ainda fechado, ver um fantasma desgrenhado não é exactamente o melhor dos bons-dias. Porque raios não me devolve o espelho imagens a preto e branco? É que nunca se notam tanto os defeitos, bolas! E a última vez que experimentei um auto-bronzeador fiquei amarela. E pior que uma alma penada a cores, só mesmo uma alma penada com ar de sofrer de icterícia.

2019-06-04

Tiananmen

Trinta anos depois, ficou aquela realidade televisionada para que a barbárie não fosse apenas um roda-pé na História. E se o Rebelde Desconhecido continua sem nome até hoje, a imagem da sua solitária coragem está tatuada na nossa memória.

2019-05-26

¡No pasarán!

Há anos que voto contra alguém ou alguma coisa. Hoje a coisa chama-se extrema-direita. E mesmo diminuída fisicamente com um braço engessado e com uma cruz de ladecos, já está.

2019-05-20

Alabama

Assustam-me os diferentes relatos que vão chegando de sociedades fundamentalistas e o desrespeito crescente pela figura feminina. É um regresso à barbárie com base numa estrutura obstinadamente patriarcal, dogmática e neurótica. Pergunto-me se as mulheres assim acabrunhadas reconhecem ainda que o domínio imposto advém vezes demais do medo e que, necessariamente, tem de haver um reconhecimento de que o sexo da força bruta é, a muitos - demasiados! - níveis o sexo menos evoluído. E, no entanto, até as bestas tiveram mães...

2019-05-15

Dos absurdos em véspera de Europeias

Não concebo nem admito certos comentários racistas e xenófobos aos portugueses. Só se não conhecermos a História.  Ou a tivermos deturpado para encaixar numa visão do mundo alucinada.

Que povo somos, afinal? Não fomos sempre um País em movimento para algum lado, migrantes de e para toda a parte?

Com fronteiras mais ou menos estáveis desde o século XII, ainda fomos malhar mais um bocadinho nos árabes que restavam para chegar a sul. Depois, fizemos ali umas guerrinhas na fronteira e raios, Olivença até é nossa. De seguida, vamos de ir ali até ao Norte de África. Não chega e continua-se por África fora e mais além. Brasil? Ena! Pouco importa que até já lá houvesse gente, que até se fez bom dinheiro com o tráfego esclavagista banhado a ouro. E as migrações continuaram, mesmo depois de já não haver nada para descobrir, desde os pés rapados oitocentistas que iam até ao Brasil fazer fortuna e regressavam depois para construir casas gigantes e comprar um título de Barão. Ou em África, que até se dizia portuguesa. Ou, depois, o Império já mais ou menos todo perdido, mandar os analfabetos e deserdados fazer pela vida na construção de França, da Alemanha, do Luxemburgo, do Canadá, dos EUA, da Venezuela, um pouco por todo o lado.

Agora, o povo que nunca respeitou fronteiras, ou credos, ou fosse o que fosse quando andava a fazer pela vidinha, não quer imigrantes, que não há que chegue para os "nossos", que a juventude vai embora que não tem trabalho e blá, blá, blá. E os tantos de portugueses que continuam a partir? Os licenciados que vão, os outros todos que continuaram a ir, não são migrantes, claro, porque são dos "nossos", coitadinhos, e até vão de avião.

Um País de emigrantes a acenar com a bandeira da xenofobia é um absurdo. E o pior é que é uma bandeira velha e de resultados já bastas vezes comprovados como funestos.

Depois, a História, apesar das suas fronteiras, não foi justa nos movimentos migratórios da riqueza, nem da sua distribuição. E não foi menos porque uns quantos de pobres saltaram fronteiras para lutar pela vida, mas antes porque um punhado de poderosos foi à terrinha dos outros fazer pela própria vidinha.

Num Mundo economicamente globalizado e financeiramente interdependente, fechar fronteiras migratórias já não resolve nada. É só meter a rolha a jusante e temo que, no fim, o dique acabe por rebentar bem mais acima. Mas, como sempre – e as crises anteriores assim o demonstraram – há sempre alvos fáceis para a retórica. Cá estão outra vez os imigrantes. Daqui a nada vamos fazer o quê? Arranjar umas janelas de cristal para partir numa única noite de folia e deixar que o ódio endémico, sem nada resolver, sirva apenas de escape para as amarguras várias, quase todas sem terem nada a ver realmente com a cor da pele, ou o credo, ou a nacionalidade, muito menos a fronteira?

E agora que resolvemos não ter filhos, vamos acabar como? Velhos, sem segurança social e sem ninguém que nos mude as fraldas 

2019-05-04

Meu menino!

Às vezes fico a olhar e penso que entregamos nos teus ombros, ainda tão pequeninos, todo o futuro que esperamos melhor. Meu menino, criado entre gente cansada, tardio e bem vindo! A ti entregamos a manhã, a tarde, a noite, a madrugada, a familia, a amizade, o cheiro da terra molhada dos nossos outonos e o verde de todas as primaveras, o sorriso e o choro, o direito de gritar, de rir, de crescer. E de ser feliz!

2019-04-20

Palavras

“Words are things. You must be careful, careful about calling people out of their names, using racial pejoratives and sexual pejoratives and all that ignorance. Don’t do that. Some day we’ll be able to measure the power of words. I think they are things. They get on the walls. They get in your wallpaper. They get in your rugs, in your upholstery, and your clothes, and finally in to you.”

― Maya Angelou

2019-04-16

Dia da voz

Dedilho acordes de memórias banais. Não tenho história. Não tenho reino. O meu Universo é um tecto baixo e as estrelas vão fugindo. E, em dias assim, muito mais do em tantos dos anos em que tive diariamente a voz em fuga, estou muda.