2005-02-02

Opinião

Claro que é péssimo abortar, ninguém quer matar fetos. Mas a questão é que o aborto existe. Ainda por cima, há muita gente que enriquece à conta disto. Temos de encarar a realidade. Estas injustiças revoltam-me. O discurso político é hipócrita nesse sentido. Duvido que não haja mulheres de políticos que não tenham feito aqui e ali um aborto...

Diogo Infante, in TVGuia, n.º 1357, ano XXVI, pp 42-48
(entrevista de Kátia Soveral e Paulo Abreu.)



Não tenho filhos. Aliás, nunca engravidei. E, se acontecesse, mesmo que não fosse planeado, duvido que alguma vez abortasse. Até porque sempre tive o privilégio de uma família estruturada, grande, capaz de prestar qualquer apoio, todo o apoio. E que, mesmo que não a tivesse, consideraria sempre outras hipóteses, até mesmo entregar a criança para adopção. Porque o aborto me parece assustadoramente definitivo. Porque eu sou assim. Não sei mesmo se faria um aborto. Acho que não o faria. Mas deve haver níveis de desespero que não chego sequer a imaginar...

Isto para dizer que sou pró-aborto. E esta frase, assim, parece-me demasiado obtusa. O aborto existe. Não será estar a favor dele. É antes estar contra a penalização do acto. É estar contra uma lei persecutória para a mulher, que a impede de decidir sobre o próprio corpo, com dignidade, sem medos, com tempo para ponderar todas as hipóteses e sem ter de dar um salto a correr a Espanha, a olhar por cima do ombro. É estar contra a hipocrisia que acha que só por ser crime não é cometido. É estar contra uma lei que esquece o homem, mesmo que um filho precise dos dois para ser gerado. Uma lei que não tem em conta, muitas vezes, a forma como é exactamente o gajo que pressiona – e paga – o aborto em si. Mas, depois do "bem-bom", parece que retiram o macho da equação e, por conseguinte, o isentam de qualquer culpa.

É óbvio que não defendo a possibilidade de cessar uma gravidez de forma aligeirada, até ao nono mês, inclusive. Defendo uma legislação cuidada, à semelhança da existente na vizinha Espanha, com datas precisas. Defendo também um rigoroso acompanhamento de cada caso. Isto permitiria, por uma lado, um acompanhamento médico e psicológico da mulher, um apresentar de alternativas, um acompanhamento social, individualizando e integrando o indivíduo, em lugar da cegueira generalista do "é crime". O acto, não mais crime, poderia ser finalmente compreendido, talvez evitado, porque livremente debatido, sem dar aso a todo um cenário burlesco, com lavagem de podres em praça pública, na qual incluo a sanha inquiridora dos media.

Dentro desta minha lógica, defendo também qualquer coisa semelhante a um "cadastro" para mulheres que recorressem ao aborto. Para que este não virasse o anti-concepcional das idiotas ou das preguiçosas. Para essas, talvez houvesse lugar a manter alguma forma de penalização, que não aceito que o aborto se transforme num acto sistemático, sem ponderação.

Haveria, pois, que implicar acompanhamento médico, psicológico e social da mulher, da sua família, dos índices económicos e de literacia, das violências várias a que muitas estão sujeitas – e não falo apenas de violações e incestos, como é óbvio. É que abortar não deve, não pode ser, a primeira opção. Mas pode – e deve – ser uma opção que, face a uma análise abrangente de cada caso em concreto, permitisse uma validação de um acto médico. E esse acto médico e essa opção da mulher, não deveriam, portanto, ser crime em parte alguma deste País.

Mas, como está ali em cima, é mesmo tudo uma questão de hipocrisias. E a maior parece ganhar sempre. Os resultados são funestos, como é óbvio. E cheira-me que todo e qualquer debate será rapidamente esquecido, mal passe esta sede de votos que tudo deixa prometer. Daí que até gostasse de saber quantas mulheres de políticos recorreram a abortos aqui ou acolá. E quantas amantes, como é óbvio. Porque isto da moralidade sempre foi uma questão de maior ou menor jeito para criar e manter fachadas e, dos podres íntimos, a hipocrisia reinante não dá acordo, desde que haja forma de os segredos continuarem a ser silenciados, ou trocados por interesses ainda mais escusos.

(Já agora... será que não há políticos nacionais com interesses económicos em algumas clínicas de Vigo ou Badajoz? Por acaso, até acho que seria interessante saber...)

Nota: Ter escolhido citar o Diogo Infante não tem rigorosamente nada a ver com os boatos que circulam sobre ele e um certo político da nossa praça da alegria eleitoral. Mas, da forma como a campanha tem seguido, por acaso não me importava nada que o Diogo Infante não esquecesse – nem deixasse esquecer – o assunto que assim enfrenta com todas as letras.

6 comentários:

filipa disse...

pois, e lá estão os nossos hermanos à frente outra vez.

A decisão de se fazer ou não um aborto deveria partir do individuo e não do colectivo.
Não deveria ter de decidir sobre a vida de uma mulher. Despenalização não pelo aborto, mas pela liberdade de decisão de cada um.
O aborto em si já é pena suficiente para a mulher que o faz...

beijinhos.

Anónimo disse...

... o risco de tornar a Interrupção Voluntária da Gravidez no, e cito, «anti-concepcional das idiotas ou das preguiçosas». Preferiria, apesar de tudo, que tivesses escrito «anti-concepcional das idiotas, das ignorantemente submissas ou das preguiçosas».

Como podes, então, dizer-te pró-direito ao aborto?

rilka

filipa disse...

rilka,

acho que descontextualizaste um bocadito a coisa.

Pelo que interpretei, a hipatia é pró escolha e não pró aborto e defende que o acto de abortar tenha algumas "regras", para que tudo seja feito com cabeça, tronco e membros.
Para que, acima de tudo uma mulher que opte por esta opção não a faça com ligeireza nem como meio anti concepcional.

Um bom Planeamento Familiar talvez resolvesse muitas coisas...

bjs

Hipatia disse...

Sabes, penso que terá sempre que caber ao colectivo uma monitorização da decisão individual, para que não surjam exageros que desvirtuem o direito a não ser considerada criminosa. No restante, concordo contigo, Mysticat, incluindo a necessidade de um bom e eficiente planeamento familiar, como dizes no teu segundo comentário e de não se estar a questionar o direito à vida, mas sim o direito à vida da própria mulher, onde incluo o direito de decidir sobre o próprio corpo, em consciência e com os devidos apoios médicos, sociais e psicológicos.

Beijinho

Hipatia disse...

Vamos pôr as coisas de outra forma, Rilka (racionalmente e sem pormos sequer em questão as crianças que ainda nem o são, ainda não existem a não ser como um óvulo fertilizado):

- Que é preferível: prender um inocente ou deixar em liberdade um criminoso?

Pois! Então como podes defender esta lei absurda?

E as ignorantemente submissas, são idiotas. Prefiro mil vezes o risco de alguma idiota preguiçosa abusar da lei - assim como assim, já há tantos a abusar de mil e uma maneiras - do que considerar todas as mulheres que, por motivos que só a elas dizem respeito e de que a sociedade a mais das vezes desvia o olhar, a serem condenadas por uma lei obtusa e castradora, que apenas fazia sentido - quanto a mim - no Portugal do Deus, Pátria e Família, que legislava a moralidade pela cartilha que sabemos.

E mesmo para essas haveria forma de estabelecer, em texto de lei, mecanismos controladores: em nenhuma parte do texto defendi que o aborto deveria ocorrer sem legislação, sem fiscalização. Proponho que seja um acto médico. Aliás, os médicos teriam sempre direito a - em consciência - decidirem não o praticar. Como defendo que haja um cadastro de mulheres que recorram ao aborto, para que não sejam sempre as mesmas a aparecerem na consulta de nove em nove meses.

Mas há as outras todas. Como podes condená-las ao estigma de "criminosas"? Como podes defender esta lei?

Hipatia disse...

On : 2/2/2005 1:52:20 PM Diálogos Interactivos (www) said:

100% de acordo Hipatia. Acho que disseste tudo, a vida têm um grande valor para mim, mas as crianças só devem vir ao Mundo se forem desejadas ou se houver condições sociais para que estas possam crescer com amor, com valores solidos, saudáveis e que possam dessa maneira aspirar a ser adultos conscientes e acima de tudo Humanos. De facto é uma hipócrisia continuar-se a defender a penalização do aborto, quando nos deviamos acima de tudo preocupar em controlar o aborto, e ter uma politica de prevenção adequada, sem tabus de qualquer espécie . Acho que a igreja ainda têm uma mãozinha nas politicas de direita no nosso país e que isso obsta a que se ultrapasse este problema com mais facilidade. Os nossos politicos praticam politicas de conveniência que vão ao encontro de interesses instalados e não se preocupam com os interesses da maioria do eleitorado porque sabem que a grande fatia desse eleitorado não vai votar, porque não há alternativas Hipatia ...há só partidarismo e promessas ocas, falsas...e uma grande galhofa...e não se debatem os problemas reais com seriedade, com postura, com decoro, com respeito pela cicadania.
Mi desculpa por este extenso comentário
beijinhos


On : 2/2/2005 6:12:09 PM Caliope (www) said:

Eu adoro crianças. Seria incapaz de fazer um aborto.
Mas um dos meus lemas de vida é: "vive e deixa viver".
Detesto julgar os outros.
Não sou a favor do aborto, sou a favor da vida. Mas de uma vida digna. E podes crer que choro quando vejo notícias dos maus tratos que determinados seres pequeninos e inocentes sofrem. É que eu penso que todos merecem muito, mas muito amor e carinho...
E desde o início que isso tem de ser assegurado.


(E sim, eu sei que sou lamechas.... Não tenho visão política e sinto tudo com o coração)


On : 2/3/2005 4:53:22 AM ocidental-acidental (www) said:

Como também sou lamechas em relação a crianças, o meu comentário seria muito um 'decalque' do da caliope.
Tenho dúvidas sobre este assunto. Não tenho muitas certezas. Não concordo, no entanto, que se julgue e condene uma mulher que aborte...coisas mutio mais graves se praticam todos os dias em Portugal (GNR's e PSP's bêbedos, políticos e empresários corruptos, empresários que não cumprem a lei, defraudando o Estado e, por essa via, arruinando a vida de muita gente, até houve um médico que reconheceu, há alguns anos ter efectudao imensos abortos, era deputado...lembram-se..? Strech Monteiro...e a lei não lhe foi aplicada? Ou pelo menos uma investigaçõzita? Não será o médico ou enfermera tão ou mais responsável se houver razão a condenação....do que a mulher que o faz por necessidade? Não estão, esses sim, a ganhar com tudo isso? Lembra-me isto o tema da droga...condenar drogados, por muito que eles me incomodem, não serão eles as vítimas? Não há por aí uns políticos e empresários de renome que ganham com este negócio também? tal como com o do aborto?E que tal políticos de primeira linha que, ainda hoje, ganham imenso dinheiro com negócios obscuros em Angola, associados ao J.Eduardo dos Santos, grande propietário, por sianl em terras portuguesas...latifundiário, para usar um termo que 'lhes' é caro...negócios ilícitos num país dos mais pobres e perigosos do mundo?)
Coisas muito mais garves acontecem diariamente em Portugal, do que uma mulher que não pdeo dar uma vida digna a um criança, se sente na compelida a abortar...e não matou criança nenhuma, visto que para uma mãe, e para todos nós, deixemo-nos de hipocrisias, a razão do abortar nos primeiros tempos de gravidez é precisamente pelo facto de ainda não 'sentir' o feto com uma criança. Criminoso é criminalizar tais mulheres, insistindo na tónica de P. Portas de confundir todos com 'tema do aborto= direito à vida'. Acha-se esperto aquele bademecozito...
Não gosto do aborto. Faz-me confusão e fico triste com a possibilidade de se poder estar a 'evitar' que surja mais uma vida...
Adoro crianças...porque as tenho diariamente comigo. Não há nada melhor no mundo!
... e não era para comentar, nem dizer nada...


On : 2/3/2005 9:59:38 AM ocidental-acidental (www) said:

agora é que vejo o exagero do meu comentário.. xiiiii


On : 2/3/2005 12:57:38 PM Hipatia (www) said:

Aos três: estou de acordo com todos, em todos os aspectos.

Só acho, Caliope, que não é uma questão de visão política. Aliás, de todas as vezes que politizaram a questão, só deu merda. O Ocidental até faz referência à questão de se confundir sistematicamente a despenalização do aborto com o direito à vida, esquecendo-se que não há como comparar uma vida que existe (a da mãe) com a simples possibilidade de vida, que é o que representa um óvulo fertilizado.

E eu adoro crianças e sou lamechas também. Aliás, começo o texto a dizer que *eu* provavelmente não abortaria. Nem mesmo se fosse violada. Mas isso sou *eu*. Mas não é por eu não o fazer, que vou criminalizar o desespero de outra mulher. Aliás, *eu* só posso defender esta posição do "não o faria", porque tenho uma vida - comparativamente a muitas e muitas mulheres - extraordinariamente simplificada. É aquilo que o Diálogos diz lá em cima: "a vida tem valor para mim". Claro que tem! Mas tem mais valor, provavelmente, a vida da mãe do que a quase-vida de um óvulo.

Além do mais, não é por ser crime que deixa de haver. Isso há muito que se sabe. É mesmo como a questão das drogas, a muitos níveis: prender o drogado apenas limpa a fachada da sociedade, não resolve o problema.

E abusem sempre. Adorei os comentários.

Beijinhos para os três.


On : 2/3/2005 6:36:11 PM vague (www) said:

Texto muito bem estruturado e fundamentado, Hipatia. Tocaste nos pontos todos ou quase todos.
Gostei, independentemente de concordar ou não.
E aliás concordo com a maior parte do que dizes. É um pormenor este : )