2005-02-01

R.I.P.




Morreu o actor Canto e Casto. Recordo-o ainda no papel onde mais gostei de o ver: como Elói, no "Último Mergulho", de João César Monteiro.

Confesso que nunca gostei particularmente da voz de Canto e Castro. A sua aspereza fazia-me confusão e isso, às vezes, é quanto basta para não prestarmos a atenção mais do que merecida, pelo seu virtuosismo, ao actor. Mas, como Elói, aquela voz fazia todo o sentido, até ao derradeiro, extenuado final.


Hoje, a cultura portuguesa ficou mais pobre e, pelo menos por agora, vou guardar o meu silêncio. Não sei mais o que poderei dizer; todas as ideias que trazia para hoje ficaram demasiado banais. A morte é madrasta mesmo...





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A foto aqui

5 comentários:

espumante disse...

A grande qualidade deste homem (entre outras, com certeza...) era representar com naturalidade, sendo "ele", independentemente do papel que lhe coubesse. Mesmo nas séries popularuchas (estou a lembrar-me do "Camilo, o Pendura", por exemplo)ele emprestava às suas personagens um extraordinário cunho de naturalidade, o que o tornava um caso raro no nosso panorama artístico mas, ao mesmo tempo, lhe cerceava alguma popularidade. Tinha ainda aquele tipo lisboeta... mesmo não estando eu certo se ele era alfacinha ou não.

NOTA: Sempre gostava de saber quais os 0,00001% de sondagens em que os olhos não são verdes :)))

Vera Cymbron disse...

Um grande senhor das artes de representação!
Jinhos...

Hipatia disse...

Começando pelo fim - e uma vez que o Blogger parece que fez greve e não me deixa mandar postas novas - diria que esse 0,00001% é para os cegos :)

Quanto ao Canto e Castro, estou de acordo, como é óbvio. Num país onde cada vez mais se opta por figuras sem formação (e às vezes sem vocação nenhuma) para dizerem umas coisas e depois se armarem em artistas, qualquer perda de um actor da "velha escola", com o peso e a competência do Canto e Castro, é motivo para pôr de luto a cultura nacional. Porque essa mesma naturalidade tinha um preço de empenho, experiência e qualificação que agora são preteridos em favor de caras larocas e salários irrisórios de modelitos já demasiado velhos para as outras passerelles...

Hipatia disse...

Era sim senhora, Blue. Acho que lhe vou sentir a falta, mesmo em produções bem pobrezinhas que ele, sem dúvida, conseguia engrandecer.

Beijinhos

Hipatia disse...

On : 2/1/2005 1:38:04 PM duende (www) said:

Não sabia. Mais um que se vai. Mas a morte não é madrasta, Hipatia. É como é.


On : 2/1/2005 1:48:55 PM Hipatia (www) said:

Sim, a morte é como é. Tens razão. Nós é que também somos como somos e, quando chega a hora de ver partir, não conseguimos deixar de ver a morte como madrasta. Até a morte de desconhecidos nos lembra outros lutos e, aí, a morte volta a ser vista como madrasta. Mesmo que nos prometam o paraíso, não sei "quantos" virgens, túneis de luz, a reencarnação... o que for. Na hora do adeus, a morte é sempre madrasta. Depois... bem, depois, com um bocado de sorte e tempo, volta a ser como é.


On : 2/1/2005 1:53:20 PM Sandra-Becksfan (www) said:

RIP.

Era dele a voz do gafanhoto Flip da Abelha Maia, uma das lembranças da minha infancia


On : 2/1/2005 1:59:32 PM Hipatia (www) said:

Da minha também, Beckas. E também acho que será de filhos de amigos, a quem não deixei de dar o video da abelhinha


On : 2/1/2005 2:38:11 PM Sandra-Becksfan (www) said:

:)


On : 2/1/2005 2:46:27 PM Diálogos Interactivos (www) said:

A morte torna a vida, imensamente valiosa e bela e, desespera , a incerteza do que esta nos reserva, mas às vezes algo de infinitamente belo acontece nas nossas vidas e deixamos de ter medo de partir, apenas fica o medo de perdermos aqueles que amamos, que estão amarrados a nós pelo mesmo destino, a solidão profunda de os ver partir, causa a maior dor, que quem ama, pode sentir.

Já não me lembrava do gafanho Flip da Abelha Maia.
Beijinhos


On : 2/1/2005 3:22:30 PM Caliope (www) said:

Mais do que a morte, assusta-me a vida... Ou o facto de, por vezes, apenas (sobre)viver...
Foram 60 anos de carreira... Um sorriso aflora-me aos lábios. Eu acredito que esta nossa existência é apenas uma viagem

O Flip, hã?


On : 2/1/2005 4:08:42 PM duende (www) said:

Mais do que a morte assusta-me a ideia de podermos ser 'eternos'. Isso sim. Mesmo chorando todos os que já morreram e acordam comigo em pensamento. Particularmente a minha mãe. Não, a morte não é madrasta. Faz parte. E desgraçados de todos nós se nos fosse permitido viver eternamente.


On : 2/1/2005 5:58:46 PM Hipatia (www) said:

Oh Beckas cuidado... se vens para aqui de óculos escuros, ainda te ponho ali em baixo nos links da corrente dildíca

(Num país cheio de cor...lalalalalala)


On : 2/1/2005 6:02:46 PM Hipatia (www) said:

Sabes, Diálogos, é mesmo isso: não tenho medo da minha ida; aliás, acho que nunca tive. Nunca me pus a pensar como será, ou deixará de ser; não me aflijo a pensar nesse tipo de desconhecido. Mas perder quem nos é próximo assusta-me, corrói-me. É por isso que não vou a funerais ou velórios: sinto-me mal a pensar que podia estar ali a velar um pedaço de mim.

Beijinhos


On : 2/1/2005 6:05:24 PM Hipatia (www) said:

Sim, nem todos poderão olhar para trás e pensar em 60 anos de carreira. Aliás, como a maior parte de nós usa o trabalho mais para pagar contas do que como vocação, penso que a grande maioria ficaria satisfeita por não ter 60 anos de carreira.

Também me assusta "apenas" sobreviver. Mas conta isso luto. É das poucas coisa que só nos cabe a nós decidir.

Beijinhos, Caliope


On : 2/1/2005 6:10:11 PM Hipatia (www) said:

Nunca quereria viver para sempre, tu sabes Duende. Não teria pachorra para me aturar tanto tempo. Mas preferia viver sem perdas, partir acompanhada por todos, de forma suave, sem sofrimentos. Sei que não é possível. Todos sabemos, infelizmente. Mas às vezes não custa pensar numa alternativa. A eutanásia não me assusta sequer. Assusta-me muito mais acabar os dias dependente, sem razão, esquecida numa cama a ver o tempo que não passa. Aos meus, tentaria evitar o mesmo. Ainda que implicasse um abreviar da partida. Mas isso já são outras coisas...