2005-02-11

Pleasantville


Nothing is as simple as black and white Posted by Hello
(de Gary Ross, 1998)


Este é um filme - uma pequena pérola do cinema independente americano - que, nos Estados Unidos dos valores e da moral, foi condenado até à exaustação, sendo acusado de promover e fomentar um entendimento libertino das relações sociais, apelando ao sexo e fazendo tábua rasa de qualquer moralidade. Mas, para mim, o filme é muito mais do que isso: é sobre paixão, qualquer tipo de paixão, seja a sexual, a romântica ou, muito simplesmente, a ira básica.

E se, de um momento para o outro, fossemos transportados para o meio de uma série de televisão dos anos 50, a preto e branco, onde tudo é perfeito e agradável? E se o nosso mundo não tivesse novidade, se todas as bolas de um jogo de basquetebol entrassem sempre no cesto? E se o pequeno almoço fosse sempre faraónico? E se as mães fossem só donas de casa que jogam canasta com as amigas e não fazem ideia do que seja o prazer? E se, de um momento para o outro, um pequeno evento precipitasse a mudança e a mudança fosse simbolizada por uma rosa vermelha de paixão? Porque é apenas isso, um descobrir da paixão, que torna a Pleasantville do preto, do branco e do cinzento, numa Pleasantville em technicolor. Porque a vida é para ser vivida e nunca ninguém disse que tinha que ser perfeita.

Uma das coisas que gostei no filme foi a forma como, a partir de uma premissa relativamente estranha, se consegue fazer uma análise modelo do comportamento humano. Exemplo acabado, a facilidade com que, tão rapidamente, se consegue erguer um qualquer tribunal inquisitório e, de um momento para o outro, temos uma sociedade dividida entre cinzentões atordoados perante a mudança e os coloridos perseguidos, mas dispostos a tudo enfrentar. Um novo KKK, ou tão simplesmente a mesma mentalidade que apôs letras escarlate em tantos peitos e perseguiu as bruxas de Salem...

E, no entanto, era de facto tudo passado dentro de um aquário asséptico, onde se desenrola um autêntico cataclismo, uma espécie de dilúvio das emoções, que tudo transforma: Pleasantville nunca mais será igual, mas vai continuar a existir... A ira do Presidente da Câmara vale tanto por uma paixão "coloradora" como o primeiro beijo – ou a primeira relação sexual – do miúdo do liceu. O dono de bar apaixona-se por todas as cores possíveis e, no final, elas trazem-lhe o amor de uma mulher. Um amor não correspondido não deixa de ser emoção suficiente para outra personagem encontrar cor... Duvido que continuem a existir ruas sem papéis de rebuçado em Pleasantville; como duvido que os casais continuem a não dormir juntos; como duvido ainda que o tal KKK possa subsistir muito mais tempo...

A vida nunca é tão complicada como a pintamos nem tão simples como nas séries de televisão agradáveis e paradisíacas dos anos 50; não é ter o carro certo, o emprego certo, viver no bairro certo que torna a vida maravilhosa. Não será em algo estático, a preto e branco, que alguma vez se consubstanciará o paraíso... pelo menos, não o meu. Será no simples facto de tentar viver e gozar cada momento, povoando tudo de rosas vermelhas... Com espinhos, claro, porque nunca quereria para mim nada demasiado "pleasant"...



(Para a Madrinha, que tanto gostou da primeira versão, para o caso da mudança de disco ter feito perder alguma música)

8 comentários:

vague disse...

Hipatia, devo dizer-te que estás a ser para mim uma muito agradável supresa de ler. Não gosto muito daquilo que soa a elogio, mas não é gratuito. Ou melhor: é de graça, mas não é gratuito. Acho que tens uma afinidade natural com a escrita e forma como te expressas é bela, quase poética na prosa.
Engraçado que as rosas vermelhas, as minhas preferidas, são de alguma forma, o símbolo do renovar, do agitar, da paixão.
Tenho 3 rosas numa base de arame na secretária onde trabalho, lugar pouco improvável de paixões das outras :) mas a paixão da vida essa sim está lá.
:)

vague disse...

Estou muito curiosa desse filme. O nome não me é nada estranho, deve ser a memória da altura em que foi lançado.
O ano passdo vi um outro, cujo nome não recordo, que é um pouco parecido na forma como se aborda uma sociedade se afigura perfeita. As mulheres são todas belas, têm o almoço sempre pronto e a horas, estão sempre! impecavelmente maquilhadas e com vestidos super femininos a enquadrar cinturas de vespa, elas que antes de entrarem naquela sociedade eram batalhadoras, trabalhadoras e profissionais e q pensavam pela própria cabeça. Se bem me lembro tinha-lhes sido feita uma 'lavagem ao cérebro' ou tinha-lhes sido dados uns comprimidos pela 'comunidade masculina', grrr, que por acaso era dirigida por...uma mulher.
Não me lembro do nome do filme, acho que a protagonista era a Nicole Kidman.

Vera Cymbron disse...

É bom saber que há bons filmes...estou saturada dos filmes que só dão lucro e conteudo nenhum.
Jinhos

Hipatia disse...

Acho que o filme de que falas, Vague, é o The Stepford Wives (como sempre, não faço nem ideia de qual foi o título que lhe deram em português). E entendo a associação de ideias que fizeste, não tendo visto o Pleasentville. Eu só a fiz depois de te ler :)

É que esse filme da Nicole Kidman deixou-me perfeitamente indiferente. Não sei se gostaste... Eu não gostei. Aliás, já nem o recordava. Penso que é um filme falhado, que não nos envolve. O Pleasentville, pelo contrário, é um daqueles filmes que ficam a remoer-nos as ideias, que quase tens urgência em voltar a ver por causa de todo o subtexto. Além do mais, é de uma candura extrema. Enche-nos de meiguice, leva-nos para dentro do aquário e quase nos sentimos a partilhar as emoções das personagens. É um daqueles que recomendo mesmo :)

Quanto aos elogios ali em cima, nem sei bem o que dizer. Penso que tem muito a ver com as primeiras iniciações à escrita. Recordo até hoje a forma como uma professora de português me explicou o sentido e a importância das vírgulas: “cada vírgula é uma breve pausa, como um suspiro; as frases têm ritmos que devem ser respeitados; os nossos pensamentos são como acordes de música”. Será, portanto, uma parte de “técnica”, baseada no que me ensinaram. Essa professora merece-me todos os elogios :)

Eu gosto de rosas vermelhas também. Daquelas bem escuras, aveludadas. Especialmente se não forem de viveiro e ainda nos consigam envolver numa fragrância misteriosa. São um bom símbolo para as nossas paixões, as românticas, mas também todas as outras :)

Beijinhos

Hipatia disse...

Sim, Blue. Há muitos filmes que não merecem o dinheiro do bilhete. Mas, volta e meia, surge-nos algo especial. Talvez por isso eu não desista de ir ao cinema :)

Beijinho

vague disse...

Não, o filme com a N. Kidman não foi nada de especial. A ideia podia talvez ser melhor explorada mas faltava-lhe sangue e garra..

Sangue e rosas vermelhas: as minhas preferidas, escuras e aveludadas.

Quanto às vírgulas por vezes gosto de escrever sem suspiros e sem fôlego, gosto dos exercícos que se fazem no escrever.

Estou mto curiosa de Pleasantville, vou tomar nota.
Semana boa.

Hipatia disse...

Há dias em que também não me apetecem nem as vírgulas, nem as pausas, nem sequer qualquer aroma a rosas vermelhas :)

Mas esses são, normalmente, os dias em que evito escrever ;-)

Boa semana, Vague. E um beijinho.

Hipatia disse...

On : 2/11/2005 1:57:45 PM duende (www) said:

Lembro-me bem disto e onde mo deste a conhecer, claro. Também me lembro de ter um escrito um comentário enorme cheio das evidentes associações biblicas que se podem fazer do filme. Ó aí a sarça ardente. Gostei muito da surpresa afilhada. E da lembrança. A rever, certamente. Obrigada. Ene interpretações possiveis num único filme. Sem qualquer duvida um filme que acima de tudo consegue chutar magistralmente, os dogmas.

Este blog está a ficar muito complicado para o meu difuso cérebro...

Quanto ao disco rígido novo, só amanhã. Às vezes é preciso. Infelizmente, nem sempre se pode ou consegue.


On : 2/11/2005 2:32:33 PM ocidental-acidental (www) said:

pelos vistos uma grande falaha na minha cinefilia...e tenho andado tão ausente, sem 'ganas' de escrever...bjs


On : 2/11/2005 2:52:07 PM Hipatia (www) said:

Está nada, Du . Acho que sabes perfeitamente que, depois da conversa sobre "verdades" eu ia querer acabar a "chutar os dogmas" Tenho para mim que, quer tu quer a Vanus, até se aperceberam disso antes de mim. Por isso, não venhas com essa da difusão do cérebro, que já conheço as voltas que lhe dás para nos deixares de boca aberta. E o teu cérebro não precisa, por certo, de substituição como qualquer miserável disco rígido que partiste todo (coitadinho do disco, por falar nisso )

Voltando ao texto: lembro-me que me deixaste com muito poucas palavras na altura. Concordava com todas as que tinhas usado e não havia mais nada a fazer a não ser oferecer-te o "True Colors"

"So don't be afraid to let them show
Your true colors
True colors are beautiful,
Like a rainbow"

Ainda é tua...

Beijo


On : 2/11/2005 2:54:56 PM Hipatia (www) said:

Pois acho bem que arranjes ganas, excelentíssimo. Já estou a ficar farta de ver a tua "casa" sempre igual . Além disso, senti a falta dos teus comentários.

E vê o filme, se o encontrares. É fabuloso!

Beijinhos


On : 2/11/2005 4:03:06 PM Caliope (www) said:

Ainda não vi esse filme.

Passei so para deixar um beijinho .



On : 2/11/2005 4:09:59 PM Hipatia (www) said:

Beijinho, então.



(recebeste o mail?)


On : 2/11/2005 6:06:23 PM Caliope (www) said:

o da "xixa" bailante? Esse sim, recebi. Mas eu enviei um mail de resposta a agradecer
E este fds os ZZW?


On : 2/11/2005 8:16:57 PM Hipatia (www) said:

Já vi o mail

Os ZZW são amanhã, o que me recorda que tenho de ir para o meu sono de beleza

Beijo


On : 2/11/2005 9:12:57 PM ocidental (www) said:

vou tentar rgressar este fds. e tb aos comentários...


On : 2/13/2005 12:01:04 PM Hipatia (www) said:

boa!